A abertura da janela para a escolha da forma de recolhimento do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) expõe um gargalo crítico na preparação das pequenas e médias empresas (PMEs) brasileiras. A poucos dias do encerramento do prazo, em setembro de 2026, a nova edição da Sondagem Omie revela que quase 80% dos negócios optantes pelo Simples Nacional chegam a esse momento sem uma definição. Essa paralisia decisória deixou de ser um problema teórico e passou a representar um risco imediato à sobrevivência e à rentabilidade das operações.
Como destaco nas análises da sondagem, é extremamente preocupante observar essa estatística de indecisão entre a manutenção do modelo tradicional e a adoção do Simples Híbrido. Faço aqui uma ressalva central: para as diversas empresas que hoje optam pelo Simples Nacional, mas que fazem parte de cadeias produtivas e atendem majoritariamente no modelo B2B (business-to-business), o Simples Híbrido pode garantir muito mais competitividade.
Essa vantagem comercial ocorre porque o regime híbrido permite o recolhimento separado do IBS e da CBS, destravando o aproveitamento integral de créditos tributários para os clientes corporativos. Caso a empresa silencie e seja mantida automaticamente no sistema unificado, ela oferecerá um crédito restrito ao seu comprador. Na prática, para não perder o cliente, esse fornecedor precisará compensar a desvantagem por meio de concessões comerciais, reduzindo seus preços e esmagando suas próprias margens de lucro.
Esse desafio fiscal ocorre de forma simultânea a um cenário macroeconômico já restritivo, no qual as taxas de juros elevadas (13,75% ao ano) são apontadas por 59% das PMEs como o principal obstáculo ao crescimento. Diante da transição tributária, 72% dos gestores não dominam as novas regras, embora 63% já reconheçam que precisarão revisar suas políticas de preços. Contudo, os dados revelam uma miopia tática: mesmo sabendo que a precificação será afetada, apenas 17% dos empresários planejam buscar o apoio técnico do contador para revisar essa estrutura de preços.
Em suma, a urgência imposta por este calendário evidencia que as decisões de planejamento tributário não toleram mais a postergação. A ausência de ação e a falta de aprofundamento analítico correm o risco de causar um estrangulamento financeiro irreversível nos negócios inseridos em cadeias de valor. O futuro imediato exige que tanto as PMEs quanto os profissionais de contabilidade se adequem com urgência à nova realidade. O sucesso e a proteção das margens dependerão de uma atuação conjunta e estratégica, fundamentada exclusivamente na apropriação rigorosa de informações para a tomada de decisão.
• Por: Felipe Beraldi, economista da Omie.