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07/10/2026

Agro entra em alerta: dívidas podem virar bomba para o próximo presidente, observa especialista

Endividamento, crédito mais difícil e renegociações pressionam produtores e colocam o futuro do setor no centro da disputa eleitoral.

O agronegócio brasileiro chega ao ciclo eleitoral de 2026 diante de um problema que vai muito além da produção: o aumento do endividamento, a restrição do crédito e a dificuldade de renegociação passaram a ameaçar a capacidade de investimento de produtores e empresas do setor.

O diagnóstico ganhou força após o setor apresentar ao debate eleitoral uma lista de prioridades que inclui financiamento, seguro rural, infraestrutura, política industrial e competitividade internacional. Entre esses pontos, o crédito aparece como um dos principais gargalos, em um cenário no qual bancos estão mais seletivos justamente porque o risco de inadimplência e de recuperação judicial aumentou.

Para Bruno Medeiros Durão, advogado tributarista, especialista em Direito Bancário e fundador da DAP Advocacia, o próximo governo terá de enfrentar o problema não apenas com a criação de novas linhas de crédito, mas com uma política de longo prazo que dê previsibilidade ao produtor e segurança às instituições financeiras.

—O problema do agro hoje não é apenas falta de crédito. É a dificuldade de transformar crédito em uma solução sustentável para quem já está endividado. O produtor precisa de previsibilidade, possibilidade real de reestruturação do passivo e segurança jurídica para continuar produzindo sem colocar todo o patrimônio em risco—observa.

A preocupação ganha relevância diante do avanço das recuperações judiciais no setor. Dados da Serasa Experian apontaram 474 pedidos de recuperação judicial ligados ao agronegócio no primeiro trimestre de 2026, alta de 21,9% em relação ao mesmo período de 2025. O levantamento considera produtores rurais, pessoas físicas e jurídicas, além de empresas relacionadas à cadeia do agro.

Ao mesmo tempo, o governo criou mecanismos específicos para tentar reorganizar parte desse passivo. A Medida Provisória 1.376/2026 autorizou linhas para composição de dívidas de produtores que atendam determinados critérios, incluindo casos de perdas provocadas por eventos climáticos ou pela queda dos preços de comercialização. As operações podem ter prazos alongados e condições diferenciadas de juros.

O problema, segundo o especialista, é que uma política de renegociação precisa chegar efetivamente ao produtor.

—Uma medida de renegociação só produz resultado quando o produtor consegue acessar o mecanismo e quando as condições permitem que a dívida seja compatível com a capacidade futura de pagamento. Caso contrário, apenas se adia o problema e aumenta o risco de novas inadimplências e processos judiciais—continua.

O cenário também exige atenção à relação entre produtores e instituições financeiras. O Conselho Monetário Nacional editou regras para permitir a composição de determinadas dívidas rurais e, em setembro, autorizou novas operações para casos que não haviam sido enquadrados na regulamentação anterior. Uma das normas estabeleceu prazo até 12 de novembro de 2026 para determinadas operações de composição.

Para Bruno, o desafio do próximo governo será criar uma política que não trate cada crise de endividamento como um episódio isolado.

—O Brasil precisa sair da lógica de socorrer o produtor somente quando a dívida já se tornou impagável. A política de crédito rural precisa trabalhar também com prevenção, gestão de risco, seguro, mecanismos de renegociação e critérios claros para preservar produtores economicamente viáveis—complementa.

A questão também interessa diretamente aos bancos. Com maior risco de inadimplência, as instituições tendem a ficar mais seletivas na concessão de crédito, criando um ciclo que pode prejudicar justamente quem precisa de financiamento para produzir e investir. Especialistas já apontam o custo do crédito e o aumento das recuperações judiciais como fatores que pressionam esse mercado.

Nesse cenário, a discussão sobre o futuro do agronegócio brasileiro passa a ser também uma discussão sobre segurança jurídica, crédito e preservação da atividade econômica. Para o setor, o desafio do próximo governo será construir mecanismos capazes de atravessar ciclos de juros elevados, problemas climáticos e oscilações de preços sem transformar dificuldades temporárias de caixa em insolvência definitiva.