— Uma curva longa próxima de 12,7% indo para a região de 10,9% a 11,5% alteraria materialmente a relação entre risco e retorno no país — analisa Bruno von Medem, diretor da Bossa Invest.
— O resultado eleitoral alterou uma variável que costuma ser pouco visível fora do mercado financeiro, mas que pesa diretamente na economia real: a taxa usada para trazer lucros futuros a valor presente. A queda superior a 1 ponto percentual em trechos da curva em apenas um dia aumenta o valor presente de empresas cujo crescimento está concentrado nos próximos anos. Por isso a reação não ficou restrita a bancos ou grandes companhias listadas. Ela muda também o custo de oportunidade de quem decide entre deixar capital em renda fixa ou assumir risco empresarial. Num cenário em que a confiança fiscal seja confirmada por medidas concretas, considero possível uma redução adicional de 1,2 a 1,8 ponto percentual nos juros longos até o fim de 2027. A parte mais relevante desse movimento pode ocorrer antes de novos cortes da Selic, porque o mercado antecipa cenários. O que precisa cair primeiro é o prêmio de incerteza. Se depois inflação e política monetária confirmarem essa trajetória, a redução ganha sustentação. Uma curva longa próxima de 12,7% indo para a região de 10,9% a 11,5% alteraria materialmente a relação entre risco e retorno no país. Para venture capital, esse processo é importante por três canais. O primeiro é valuation, porque uma taxa de desconto menor aumenta o valor dos fluxos futuros. O segundo é liquidez, porque mercados de capitais mais receptivos facilitam rodadas posteriores, aquisições e saídas. O terceiro é a própria disposição de investidores para alongar horizonte e aceitar risco. Isso não significa uma volta automática ao ciclo de capital abundante. Nos Estados Unidos, os juros de dez anos chegaram a 5,34%, enquanto o mercado global continua exigindo retorno elevado. Por isso, mesmo num ambiente doméstico melhor, startups com receita, eficiência de capital e capacidade de escalar tendem a continuar sendo favorecidas em relação a negócios sustentados apenas por expectativa de crescimento continua Bruno von Medem, diretor da Bossa Invest.
— O movimento das carteiras mostra que o mercado começou a retirar parte do prêmio de risco que estava embutido nos ativos brasileiros. A reação foi muito rápida porque os investidores não esperam a melhora da economia acontecer para depois se posicionar: eles antecipam cenários. Por isso vimos, simultaneamente, valorização da Bolsa, fortalecimento do real e queda relevante dos juros futuros. Se houver uma melhora consistente e, principalmente, crível da situação fiscal, acredito que os juros de longo prazo ainda possam recuar algo entre 1,5 e 2,5 pontos percentuais até o fim de 2027. Mas isso exige mais do que discurso: o mercado precisará enxergar estabilização da dívida, controle das despesas e capacidade política para implementar as medidas anunciadas. Essa redução dos juros longos pode chegar ao crédito antes mesmo de novos cortes da Selic. Empresas captam olhando a curva futura, e operações de mercado de capitais, crédito imobiliário e financiamento de projetos podem começar a sentir condições melhores relativamente rápido. O efeito sobre investimento e atividade, entretanto, é mais lento e tende a aparecer de forma mais clara entre seis e doze meses depois. A inflação continua sendo fundamental. Uma melhora fiscal pode reduzir o prêmio de risco e os juros longos mesmo antes de o Banco Central acelerar os cortes da Selic. Mas, para que essa queda seja permanente e se espalhe por toda a economia, será necessário também que as expectativas de inflação continuem convergindo. O principal risco agora é o mercado ter antecipado uma melhora que depois não se confirme. Falta de medidas fiscais concretas, aumento da dívida, resistência política às reformas, deterioração das expectativas de inflação ou nova pressão sobre o câmbio poderiam devolver rapidamente parte desse prêmio aos juros. Portanto, depois da forte reação inicial, o mercado passará da expectativa para a cobrança por execução — adianta André Luiz Haas Caruso, CEO da Pilar Capital.
— Acredito que ainda exista espaço para Bolsa, mas depois de uma alta tão forte o investidor precisa ser muito mais seletivo. Parte importante da melhora de expectativa foi incorporada rapidamente aos preços, principalmente em bancos, empresas ligadas ao mercado de capitais e algumas ações mais sensíveis ao cenário político. Isso não significa que a Bolsa tenha ficado cara de forma generalizada, porque vários ativos ainda negociam abaixo de suas médias históricas e ficaram para trás no movimento. A partir de agora, o próximo avanço dependerá menos da eleição em si e mais da confirmação de uma agenda fiscal capaz de reduzir o prêmio de risco e os juros de longo prazo. Nesse cenário, vejo mais assimetria em empresas domésticas de qualidade ligadas à construção, shoppings, infraestrutura, concessões, saúde e consumo, além de companhias que ainda não acompanharam integralmente o índice. O principal risco hoje é entrar perseguindo preço depois da euforia. Eu evitaria comprar Bolsa de forma indiscriminada e privilegiaria entradas graduais em empresas com balanços sólidos e capacidade de se beneficiar de juros menores — indicaz Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.
— O primeiro efeito da melhora de percepção fiscal não aparece necessariamente na prestação do financiamento no dia seguinte. Ele começa no custo de captação de quem oferece crédito. Quando os juros longos caem mais de 1 ponto percentual, como ocorreu depois do primeiro turno, instituições e investidores conseguem revisar a taxa mínima exigida para emprestar por prazos maiores. É daí que pode surgir uma transmissão para crédito imobiliário, capital de giro, construção, crédito rural e operações com garantia. Se a confiança fiscal sobreviver ao período eleitoral e for acompanhada por medidas concretas em 2027, minha estimativa é de que os juros longos possam recuar entre 1 e 1,5 ponto percentual adicionais até o fim de 2027. A consequência pode aparecer no crédito antes mesmo de a Selic completar seu ciclo de queda. Linhas com boa garantia e operações estruturadas costumam reagir primeiro porque têm menor risco de perda e conseguem capturar mais rapidamente a redução do custo de funding. Eu esperaria os primeiros efeitos mais claros entre três e seis meses após uma estabilização da curva, enquanto investimentos maiores, como construção e expansão empresarial, provavelmente responderiam em seis a doze meses. Uma redução dessa magnitude não elimina a necessidade de seletividade. O custo internacional do dinheiro continua alto, com o Treasury americano de dez anos tendo alcançado 5,34%, e uma deterioração do câmbio pode voltar a contaminar expectativas de inflação no Brasil. Por isso, os sinais capazes de inverter o otimismo seriam aumento das projeções de dívida, inflação desancorada, real voltando a se depreciar de maneira persistente ou piora dos juros globais. O crédito pode ficar mais barato antes de a Selic cair muito, mas só se o mercado acreditar que essa redução de prêmio é sustentável—destaca Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco.
— Para as empresas, a parte mais importante do movimento dos juros não é o número da Selic isoladamente, mas o custo pelo qual o capital consegue ser captado, estruturado e transferido ao cliente. A queda de mais de 100 pontos base em vencimentos longos depois do primeiro turno abre uma janela para repricing de debêntures, FIDCs, securitizações e estruturas de financiamento. Esse canal tende a reagir mais rápido do que o crédito bancário porque o preço é formado diretamente no mercado. Se houver consolidação da confiança fiscal, estimo que seja possível retirar mais 1 a 1,4 ponto percentual da parte longa da curva até o fim de 2027. Isso significaria levar taxas hoje próximas de 12,7% para algo entre 11,3% e 11,7%. O interessante é que essa redução pode começar sem esperar novos cortes da Selic. Basta que investidores exijam um prêmio menor para financiar o país e as empresas. A política monetária passa a ser determinante depois, para validar a trajetória e permitir que o movimento chegue de forma mais ampla ao consumidor. Em operações de embedded finance, uma queda do custo de funding pode permitir que empresas revejam preços, prazos e limites de crédito e, em alguns casos, viabilizem produtos que não faziam sentido econômico com juros mais altos. A atividade tende a sentir isso com defasagem. Mercado de capitais e funding podem reagir em poucos meses, mas capital de giro, investimento e consumo costumam responder ao longo de dois ou três trimestres. O principal risco é uma melhora de preço sem melhora de fundamento. Se dívida pública, inflação implícita e câmbio voltarem a subir juntos, será um sinal de que a compressão de prêmio eleitoral foi longe demais — observa Letícia Moschioni, sócia da Finscale.
— A queda dos juros depois do primeiro turno deve ser lida menos como uma aposta na próxima decisão do Banco Central e mais como uma compressão do prêmio de prazo. O DI para janeiro de 2035 perdeu 133 pontos base em um único dia. Esse é um movimento grande demais para ser explicado apenas por expectativa de Selic e mostra que o mercado recalculou risco fiscal, dívida pública e previsibilidade institucional. Quando isso acontece, a mudança chega rapidamente à precificação de fundos, títulos públicos, crédito privado e operações estruturadas, antes mesmo de aparecer no crédito bancário tradicional. Com uma trajetória fiscal que convença o mercado durante 2027, vejo espaço para uma queda adicional de 0,8 a 1,3 ponto percentual nos juros longos até o fim daquele ano. Isso colocaria parte da curva hoje na região de 12,6% a 12,8% mais próxima de 11,3% a 12%. O ponto central é que essa compressão não precisa aguardar inflação na meta para começar. Ela pode ocorrer antes se as expectativas de inflação melhorarem e, principalmente, se o componente fiscal deixar de adicionar prêmio à curva. O Banco Central continuaria definindo a velocidade da ponta curta, mas a parte longa pode se mover por antecipação. Esse ambiente também tende a mudar a arquitetura do financiamento. Com menor custo de capital, cresce a viabilidade de FIDCs, FIIs, FIPs e outras estruturas de prazo maior, porque a diferença entre o retorno exigido pelo investidor e o custo que a empresa consegue suportar diminui. A confirmação, porém, virá da execução: trajetória da dívida, resultado primário, inflação implícita, câmbio e composição das medidas fiscais. Se o mercado perceber expansão de despesas sem fonte permanente, inflação voltando a acelerar ou deterioração da dívida, uma parte importante dos mais de 100 pontos base retirados da curva pode ser recolocada rapidamente — lembra Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos.
— O investidor brasileiro está recebendo dois sinais aparentemente contraditórios. Internamente, a curva de juros retirou mais de 1 ponto percentual de prêmio após o primeiro turno e o real se valorizou fortemente. Lá fora, o Treasury americano de dez anos chegou a 5,34%, maior nível desde 2002. Isso significa que o Brasil pode melhorar relativamente ao restante do mundo, mas ainda está competindo por capital num ambiente em que o ativo considerado livre de risco em dólar oferece retorno elevado. Com confirmação de uma agenda fiscal consistente, considero plausível uma queda adicional de 1 a 1,5 ponto percentual nos juros longos brasileiros até o fim de 2027. Uma parte pode acontecer antes de novos cortes relevantes da Selic, porque o investidor estrangeiro olha primeiro para risco soberano, câmbio e perspectiva de dívida. Se o prêmio Brasil cair e houver entrada de capital, o real mais forte também ajuda a reduzir inflação de bens importados, criando uma segunda etapa de melhora que depois pode facilitar a política monetária. Mas seria um erro interpretar esse cenário como motivo para abandonar a diversificação internacional. O mercado americano continua próximo das máximas, o Nasdaq renovou recorde com o ciclo de inteligência artificial, enquanto os fundos globais de ações receberam US$ 34,76 bilhões em uma única semana recente. Ao mesmo tempo, o Fed enfrenta inflação ainda desconfortável e um mercado de trabalho que perdeu força, com apenas 29 mil vagas criadas em setembro. Para o investidor brasileiro, isso reforça uma estratégia de diversificação em vez de uma aposta binária na eleição. Os sinais para rever o otimismo doméstico seriam uma nova abertura dos Treasuries, petróleo voltando a pressionar inflação global, real enfraquecendo ou, principalmente, ausência de medidas fiscais capazes de justificar a queda que a curva brasileira já antecipou — avalia Fábio Murad, consultor da Wiser Asset.