O segmento de dispositivos médicos enfrenta um cenário de forte pressão econômica, tributária e regulatória, com impactos que ultrapassam as empresas e atingem a sustentabilidade de todo o sistema de saúde. Entre os desafios mais urgentes estão o represamento de faturamento, que compromete o fluxo de caixa dos fornecedores, e as mudanças decorrentes da reforma tributária, que exigirão planejamento e adaptação de toda a cadeia. É nesse contexto que precisamos de relações mais equilibradas e transparentes entre os diferentes elos do setor.
O problema do represamento vai muito além do impacto financeiro sobre as empresas. Quando hospitais e operadoras levam, em alguns casos, até 170 dias para autorizar a emissão de uma nota fiscal, o fornecedor acaba financiando uma cadeia que já opera sob forte pressão. Em um cenário de juros elevados e aumento dos custos, essa equação compromete a saúde financeira dos fornecedores de produtos para a saúde e, consequentemente, todo o sistema.
É preciso reconhecer que a distribuição de dispositivos médicos entrega muito mais do que produtos. O distribuidor mantém estoques, disponibiliza serviços, equipamentos e instrumentais em regime de comodato e oferece suporte para que o procedimento aconteça. São, na prática, três negócios em um: produtos, serviços e equipamentos.
Quando essa estrutura não é adequadamente reconhecida nas relações comerciais, cria-se uma distorção que se torna ainda mais preocupante diante da redução dos preços dos OPMEs. Não podemos discutir redução de custos sem discutir também quem absorve esses custos e como garantir a manutenção de toda essa estrutura. Outro ponto que precisa ser enfrentado é a falta de transparência. A glosa pode ser um instrumento legítimo de auditoria, desde que exista visibilidade sobre o problema e possibilidade de tratamento. Quando isso não acontece, ela deixa de cumprir sua função e pode se transformar em instrumento de postergação de pagamento.
A contratualização também precisa avançar. A falta de contratos entre distribuidores e hospitais compromete a previsibilidade e a padronização do fornecimento, aumenta custos e retrabalho e pode afetar a segurança na jornada do paciente. Relações com regras claras representam uma importante ferramenta de compliance.
Mas não acredito que a solução esteja no confronto. Precisamos sair do discurso e encontrar soluções práticas. Existem muitos desperdícios na cadeia que podem ser transformados em oportunidades de redução de custos. A confiança será construída quando houver alinhamento e quando projetos concretos demonstrarem que é possível avançar.
A reforma tributária é outro desafio que exigirá atenção e planejamento. O maior risco para as empresas é não acompanhar as mudanças e deixar a preparação para a última hora. Precisamos de previsibilidade para que importadores e distribuidores possam planejar seus investimentos e operações. O debate tributário, entretanto, não deve ser visto apenas como uma questão empresarial. Uma saúde mais cara torna-se menos acessível. Por isso, precisamos evitar que mudanças tributárias aumentem desnecessariamente o custo das tecnologias e, no fim, sejam absorvidas pelo paciente. Da mesma forma, políticas de estímulo à indústria nacional precisam conviver com regras que garantam acesso a tecnologias que ainda não possuem alternativa fabricada no Brasil.
Por fim não podemos nos esquecer da integridade. Compliance, rastreabilidade e governança não podem ser encarados simplesmente como custos, mas como investimentos necessários para relações mais transparentes, eficientes e sustentáveis. Esse deve ser um compromisso de toda o sistema, seja ele público ou privado. Um setor de saúde equilibrado não interessa apenas aos fabricantes, importadores, distribuidores, hospitais ou operadoras. Interessa, sobretudo, ao paciente. É por ele que precisamos transformar diálogo em ações concretas e construir um sistema mais previsível, eficiente e sustentável.
• Por: Ronaldo Sampaio, presidente da Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (Abraidi).