Com 83,9 milhões de brasileiros inadimplentes e R$ 143 bilhões desviados do varejo para as apostas online desde 2023, sobra menos renda para consumir, e as vendas do setor podem ficar sob ameaça nos próximos meses.
O Brasil chegou a agosto de 2026 com 83,9 milhões de pessoas inadimplentes, segundo o Serasa. O número equivale a 51% da população adulta. Em 2016 eram 59 milhões. No mesmo período, o total das dívidas em atraso passou de R$ 348 bilhões para R$ 592 bilhões, alta de 70,1% já descontada a inflação. A comparação foi publicada em reportagem especial do UOL, com base em números do Serasa e do Banco Central.
Para a Abrasel, o quadro ameaça o faturamento de bares e restaurantes no curto e no médio prazo. —O endividamento das famílias é uma bomba-relógio. Ainda não explodiu no caixa dos restaurantes porque o emprego segue firme. Mas cada real que vai para uma dívida atrasada deixa de ir para a mesa do bar. Quando o orçamento apertar de vez, o almoço fora e o jantar de sábado podem estar entre os primeiros cortes —afirma Paulo Solmucci, presidente da Abrasel.
Crédito caro e renda comprometida —A inadimplência cresceu depois de uma forte expansão do crédito. Dados do Banco Central mostram que o volume concedido a pessoas físicas subiu de R$ 213,7 bilhões em 2011 para R$ 406,4 bilhões em julho de 2026, alta de 90%. Com os juros elevados dos últimos anos, as parcelas ficaram mais pesadas.
Em junho de 2026, as famílias destinavam 28,85% da renda ao pagamento de dívidas, somando juros e amortizações, segundo o Banco Central. Por isso, o aumento da renda dos últimos anos não virou consumo na mesma proporção.
A sobra para consumir nunca foi tão pequena. Segundo a Tendências Consultoria, em fevereiro de 2026 restavam às famílias 21% da renda depois de pagar itens essenciais, impostos e dívidas. É o menor nível desde 2011, quando começa a série. Um ano antes, a fatia era de 23%. No pico, em março de 2011, chegava a 27,2%.
—A renda disponível das famílias depois dos gastos essenciais, dos impostos e das dívidas está no nível mais baixo em 15 anos. É dessa sobra que sai o almoço fora de casa— diz Solmucci.
—Os juros altos são a conta do desequilíbrio fiscal. Quem paga é a família que atrasa o cartão e o empresário que não consegue capital de giro. E o pior é que as autoridades têm uma visão míope do assunto, questionando, por exemplo, o crédito parcelado sem juros, a única saída que muitos têm para situações urgentes, quando o verdadeiro problema está nas linhas abusivas de crédito bancário —completa.
Apostas drenam o consumo —Estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgado em abril, estima que as apostas online tiraram R$ 143 bilhões do varejo entre janeiro de 2023 e março de 2026. O valor equivale às vendas de Natal de 2024 e 2025 somadas. Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), as bets também levaram 270 mil famílias à inadimplência severa, com atrasos de mais de 90 dias.
—Esse dinheiro saía do bolso do brasileiro para o comércio e para o restaurante do bairro. Agora vai para as bets. E muita gente que aposta hoje é quem atrasa a conta de luz amanhã— afirma o presidente da Abrasel.
O peso recai sobre quem tem menos. Segundo o Serasa, 78% dos endividados ganham até dois salários mínimos. É o mesmo público que sustenta o prato feito, o self-service e a lanchonete, a maior parte dos negócios do setor.
Empresas também estão no limite — O aperto chega aos estabelecimentos. Pesquisa da Abrasel feita em agosto mostra que 37% dos bares e restaurantes têm pagamentos em atraso. Os impostos federais aparecem em 75% desses casos, seguidos pelos estaduais (51%) e pelos empréstimos bancários (32%).
Com o cliente endividado, o empresário não consegue repassar custos. Nos últimos 12 meses, 36% dos estabelecimentos não reajustaram preços. Entre os que reajustaram, a maioria ficou no nível da inflação ou abaixo dela.
—O setor está segurando preço para não perder cliente. Essa margem tem limite. Se o endividamento das famílias continuar subindo, a conta vai chegar ao faturamento, e depois ao emprego —conclui Solmucci.