Dizer que toda mudança é positiva nem sempre se traduz em verdade. O sonho de qualquer marca é se consolidar em seu universo de atuação – independentemente de qual seja esse universo. Qualquer modificação precisa ser rigorosamente estudada, detalhadamente avaliada, sob risco de perder valor e perder a sua essência. O cinema nos mostra bem na prática esse cenário de arriscadas modificações.
Recentemente, a confirmação de que a atriz Meryl Streep, de 77 anos, dará voz a Aslan na nova adaptação de As Crônicas de Nárnia dirigida por Greta Gerwig para a Netflix — com orçamento robusto de US$ 200 milhões e estreia agendada para fevereiro de 2027 — joga luz sobre um fenômeno cada vez mais frequente: a alteração profunda do núcleo de significado de marcas já consolidadas.
Pela primeira vez na história da franquia, o leão criado por C. S. Lewis como uma imagem literária de Cristo terá voz feminina. A escolha gerou reações imediatas, com críticos apontando o movimento como uma descaracterização da intenção original do autor. A discussão, contudo, transcende a simples troca de elenco. Lewis nunca tratou Aslan como um mero enfeite narrativo; em carta a uma mãe preocupada, o escritor pontuou que amar o leão era, no fundo, amar o próprio Cristo. Tocar no gênero ou na essência da figura central de Nárnia é mexer no eixo estrutural de uma obra que atravessou gerações com uma identidade firmemente estabelecida.
O caso de Nárnia não é isolado, mas parte de uma esteira recorrente de mudanças em grandes franquias e marcas históricas. Em Cleópatra, a Netflix retratou a rainha — pertencente à dinastia ptolomaica, de origem grega e descendente de um general de Alexandre, o Grande — como uma mulher negra. O Egito reagiu formalmente, acusando a produção de falsificação histórica e produzindo um documentário de resposta.
Em outro longa clássico, o aguardado remake Branca de Neve da Disney substituiu o clássico enredo de amor salvador por uma narrativa centrada em discursos de empoderamento e trocou o príncipe por um ladrão, resultando em um retumbante fracasso de bilheteria e virando um dos maiores tropeços recentes do estúdio.
O tropeço também foi sentido pelo longa A Pequena Sereia, versão de 2023, em que a Ariel desenhada branca e ruiva em 1989, fixada no imaginário de três gerações, ganhou uma versão interpretada por uma atriz negra. O filme também apresentou um desempenho comercial abaixo do esperado em diversos mercados internacionais fora dos Estados Unidos.
Outro exemplo de modificação de identidade nas telas é a série da Amazon A Terra-média, baseada no universo de J.R.R. Tolkien, que preencheu lacunas de obras nas quais possuía direitos parciais com tramas e personagens inéditos, provocando uma queda vertiginosa de audiência entre a primeira e a segunda temporadas.
A ironia sutil e marcante reside no fato de que C.S. Lewis e J.R.R. Tolkien eram amigos íntimos, cristãos convictos que utilizaram a mitologia para debater a fé, e hoje veem suas criações fundamentais sendo redimensionadas sob a mesma ótica corporativa simultaneamente.
Obras como essas que atravessaram gerações com uma identidade estabelecida passaram a ser reescritas não pelo autor, mas por decisão de estúdio, diretor ou comitê. E isso não é novidade, é o uso mais antigo do cinema: entre 1934 e 1968, Hollywood seguiu um código moral que proibia mostrar uma lista inteira de comportamentos, e ele moldou o que o mundo via na tela por três décadas. Na Guerra Fria, os filmes americanos exportaram o modo de vida americano pra meio planeta.
O audiovisual sempre foi a ferramenta mais eficiente para normalizar valores, porque ele não argumenta: ele emociona e repete. O instrumento é o mesmo há cem anos. O que muda é quem está segurando o volante e que pauta resolve empurrar.
Contudo, há uma leitura de mercado que ninguém admite: polêmica virou estratégia. Na era do streaming, que vive de engajamento, uma escolha controversa garante meses de conversa gratuita antes da estreia. Às vezes, a mudança não é convicção. É campanha de lançamento.
A fronteira invisível que separa a adaptação criativa da descaracterização reside no objeto da mudança. Modificar figurinos ou ambientações é parte natural do processo de traduzir uma mídia para outra. Alterar, contudo, o núcleo de significado que o autor concebeu de propósito modifica a natureza da mensagem.
Lewis escreveu sobre um leão para falar de fé a crianças que talvez nunca abrissem uma Bíblia. Ele partiu sem imaginar que, décadas mais tarde, estúdios decidiriam ressignificar o que sua criação representa. O audiovisual continuará moldando valores e imaginários coletivos. A questão central que permanece para o público não é se essas transformações continuarão ocorrendo, mas se o espectador será capaz de percebê-las quando elas atingirem as histórias que ama.
Os exemplos recentes de Nárnia, Branca de Neve, Ariel, Cleópatra e o universo de Tolkien revelam uma lição incontornável para a indústria do entretenimento e para a gestão de marcas consolidadas: o público não consome apenas produtos audiovisuais, mas sim os valores e a herança afetiva construídos ao longo de décadas. Quando estúdios e comitês criativos priorizam agendas externas em detrimento do núcleo de significado que deu origem a essas obras, rompe-se o pacto de confiança com o consumidor.
O reflexo dessa desconexão aparece de forma implacável nas bilheterias e na queda de audiência, provando que o público vota com o bolso e rejeita o que percebe como um distanciamento da identidade original. Em última análise, marcas centenárias ou clássicos literários são ativos de valor imensurável justamente pela coerência de sua essência; quando tentam reescrever sua própria história ignorando o que as tornou icônicas, correm o sério risco de alienar aqueles que sustentaram seu legado. Até onde uma adaptação pode ir antes de virar outra obra? A resposta, impressa no descontentamento dos fãs e nos fracassos comerciais recentes, é que o limite invisível é ultrapassado exatamente no momento em que a marca decide deixar de ser ela mesma.
• Por: Victor Fortunato. especialista em posicionamento de marcas, estrategista de branding e autor do livro Branding pra BraSileiro.