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18/09/2026

A ilusão da IA sem fundação de dados

Todos querem ser AI-first. Poucos param para perguntar se a casa está pronta para receber a IA.

A corrida pela inteligência artificial acelerou nos últimos dois anos, empurrada pela onda de IA generativa. Empresas de todos os portes abriram orçamento, contrataram ferramentas e anunciaram iniciativas. E aí vem a parte incômoda. Boa parte desses projetos não entrega o que prometeu.

O motivo raramente é a tecnologia. É a fundação.

A IA não chega para organizar a casa. Ela chega para escalar o que já existe. Se o que existe são dados incompletos, sistemas desconectados e nenhuma governança, ela vai escalar exatamente isso. Caos vira caos automatizado, só que mais rápido e com um verniz que parece sofisticado.

A Gartner projeta que ao menos 30% dos projetos de IA generativa serão abandonados após a prova de conceito até o fim de 2025. Qualidade de dados ruim aparece no topo das razões. Um estudo da Rand com líderes de projeto apontou que mais de 80% das iniciativas de IA falham, o dobro da taxa dos projetos de TI que não usam IA. E a maioria dos profissionais de dados ainda gasta a maior parte do tempo limpando e preparando informação, não gerando valor com ela.

A conta do dado ruim não é abstrata. A Gartner estima que a má qualidade de dados custa em média 12,9 milhões de dólares por ano para cada organização. Esse dinheiro some em retrabalho, decisão errada e projeto que não sai do papel. Colocar IA em cima disso só acelera o prejuízo.

Isso não é detalhe técnico. É estratégia.

Um exemplo comum. Uma empresa quer usar IA para prever demanda e planejar estoque. O histórico de vendas está no ERP, parte das informações vive em planilhas soltas, o WMS não conversa com o financeiro e cada área classifica produto de um jeito. A empresa contrata o modelo mais moderno do mercado. O que ele faz é aprender a bagunça e devolver previsão com cara de precisão. O erro continua, agora automatizado e com aparência de ciência.

Dados são o insumo da IA. Modelo nenhum corrige uma base torta. Se a informação que alimenta o algoritmo está fragmentada, duplicada ou sem padrão, o resultado vai ser resposta inconsistente, análise imprecisa e automação que erra com confiança. O modelo não sabe que está errado. Ele repete o que a base ensinou.

Maturidade em dados também não se resolve comprando plataforma. Envolve processo definido, integração entre áreas e uma cultura que confia na informação para decidir. É trabalho de organização, não de compra. Tão simples quanto isso, e tão difícil quanto isso.

Essa é a parte que separa quem prospera de quem gasta muito e colhe pouco. Empresas que estruturam a base antes de acelerar em IA não estão sendo conservadoras. Estão sendo estratégicas. Elas conseguem resultado mais consistente, ganham eficiência operacional de verdade, reduzem risco e escalam projeto com segurança. Segundo a McKinsey, organizações orientadas por dados chegam a ter 23 vezes mais chance de conquistar clientes do que as que decidem no achismo.

Não queira o castelo grandioso antes de olhar o que tem embaixo. Madeira podre, pedra solta, estrutura que não aguenta o próprio peso. Melhor uma casa simples sobre coluna de pedra do que um palácio sobre um alicerce que racha no primeiro volume de verdade.

A IA não substitui uma estratégia de dados. Ela depende dela. O sucesso do projeto está amarrado à qualidade da informação que entra, e nenhuma ferramenta nova muda essa conta.

Então a pergunta que vale fazer não é qual modelo de IA você vai usar. É se os seus dados estão prontos para sustentar o que você quer construir.

Se a resposta for não, o trabalho começa aí.

Por: Valdemir Silveira, CEO e fundador da Apipass e sócio da nstech. Com mais de 20 anos de experiência em tecnologia, construiu sua trajetória liderando projetos complexos de integração e transformação digital na América Latina. À frente da Apipass, tem conduzido o reposicionamento da empresa para além do iPaaS, consolidando-a como uma plataforma de dados e integração — a fundação que viabiliza operações inteligentes e o uso de IA nas empresas. Reconhecido por traduzir temas técnicos em linguagem acessível ao negócio, Valdemir atua na interseção entre estratégia, tecnologia e operação, com foco em resolver problemas reais de grandes empresas. Também participa ativamente do ecossistema de inovação como membro das verticais de manufatura e varejo da Acate. Sua visão é direta: sem uma base sólida de dados, a inteligência artificial não sai do papel.