— O comprometimento de renda das famílias chegou a 28,9%, no maior nível da série histórica, e a inadimplência do crédito livre alcançou 6,4%, sendo 7,8% entre pessoas físicas e 4,2% entre empresas — aponta Valdir Piran Jr., CEO do Grupo Intra.
— O ponto central está na composição do crescimento. O PIB avançou 0,5% no segundo trimestre, mas o consumo das famílias recuou 0,4%. A expansão ficou concentrada na agropecuária e na indústria extrativa, enquanto serviços avançaram pouco e segmentos mais sensíveis aos juros, como indústria de transformação e construção, recuaram. O número agregado foi positivo, mas a demanda doméstica perdeu força. O emprego continua funcionando como amortecedor. A desocupação caiu para 5,3% e a população ocupada atingiu 103,3 milhões, porém emprego e capacidade financeira não são a mesma coisa. O comprometimento de renda das famílias chegou a 28,9%, no maior nível da série histórica, e a inadimplência do crédito livre alcançou 6,4%, sendo 7,8% entre pessoas físicas e 4,2% entre empresas. Uma parcela crescente da renda está sendo direcionada ao pagamento de juros e dívidas, o que ajuda a explicar a queda do consumo mesmo com um mercado de trabalho forte. Esse contraste já aumenta a seletividade na concessão. Entre as famílias, devem enfrentar mais dificuldade os clientes com elevado comprometimento de renda, atrasos recentes e dependência de modalidades sem garantia, como cartão rotativo e crédito pessoal. Nas empresas, o risco se concentra em tomadores com baixa cobertura de juros, vencimentos curtos, necessidade recorrente de refinanciamento, margens comprimidas ou forte concentração de recebíveis. O próprio Comef identificou menos empresas com crescimento do lucro líquido e mais companhias com elevação da despesa financeira. Para quem concede crédito, crescimento de receita isolado perdeu capacidade de explicar a qualidade do tomador. Hoje pesam mais o caixa livre após o serviço da dívida, o cronograma de amortizações, a qualidade dos recebíveis, as garantias e a capacidade de atravessar alguns trimestres de capital caro. A economia ainda mostra resiliência, mas o risco financeiro de famílias e empresas aumentou. O crédito continua disponível para bons tomadores; para os perfis mais frágeis, a tendência é de spreads maiores, prazos menores e estruturas mais protegidas — continua Valdir Piran Jr., CEO do Grupo Intra.
— Conseguir uma ocupação não significa recuperar imediatamente a capacidade de tomar crédito. Embora o desemprego tenha caído para 5,3%, a população ocupada tenha atingido o recorde de 103,3 milhões e o PIB tenha crescido 0,5% no segundo trimestre, o consumo das famílias recuou 0,4%. A inadimplência no crédito livre, por sua vez, chegou a 6,4%, alcançando 7,8% especificamente entre as pessoas físicas. O mercado de trabalho melhora a entrada de renda, mas muitas famílias ainda carregam parcelas contratadas em momentos anteriores, recorrem ao rotativo ou renovam dívidas em um ambiente no qual a Selic permanece em 14%. Além disso, as incertezas globais envolvendo energia, inflação e comércio exterior dificultam uma queda mais rápida dos juros domésticos. Por isso, a seletividade tende a ocorrer menos pela faixa de renda isolada e mais pela relação entre renda livre, valor da prestação, histórico de pagamento e estabilidade do fluxo financeiro. Clientes com grande parte do orçamento comprometida, renda informal ou sazonal, atrasos recentes e dívidas sem garantia devem encontrar condições mais restritas. Nesse cenário, garantias reais podem ganhar importância porque reduzem a perda esperada da operação e permitem discutir prazo, taxa e valor de maneira mais aderente à capacidade de pagamento. O crédito precisa ser usado como instrumento de reorganização e planejamento, especialmente quando substitui obrigações curtas e caras por uma estrutura compatível com a renda e com o patrimônio do tomador— afirm Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco.
— O crescimento da economia ainda não chegou plenamente ao orçamento das famílias porque emprego forte não significa, necessariamente, maior renda disponível. Com juros elevados, endividamento alto e inadimplência no crédito livre, uma parcela maior da renda está comprometida com dívidas, o que ajuda a explicar a queda no consumo mesmo com o mercado de trabalho aquecido. Esse quadro aumenta a seletividade dos bancos, principalmente para clientes já endividados, com renda instável, histórico de atrasos ou maior comprometimento da renda. Na prática, o crédito tende a ficar mais restrito e caro justamente para os perfis mais vulneráveis, reforçando a desaceleração do consumo e exigindo maior seletividade também do investidor na exposição ao risco de crédito — indica Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.
— O Brasil vive uma assimetria entre a renda gerada pela economia e a renda que efetivamente permanece no caixa das famílias. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, o desemprego caiu para 5,3% e o número de ocupados chegou ao recorde de 103,3 milhões. Apesar disso, o consumo das famílias recuou 0,4% e a inadimplência no crédito livre atingiu 6,4%. A combinação mostra que emprego e produção avançaram, mas juros, parcelas e dívidas antigas absorveram parte relevante dessa melhora. Com a Selic em 14% e um cenário internacional marcado por capital mais caro, volatilidade nas commodities e menor crescimento, quem concede crédito passa a exigir mais informação antes de assumir risco. O problema é que os modelos tradicionais nem sempre capturam adequadamente consumidores com pouca informação cadastral, profissionais de renda variável, pequenos fornecedores, negócios sazonais ou empresas dependentes de poucos clientes. A resposta não precisa ser simplesmente fechar a oferta de crédito. Empresas de varejo, indústria, franquias e marketplaces possuem dados sobre frequência de compra, pagamentos, recorrência, cancelamentos e comportamento de clientes e fornecedores. Quando essas informações são estruturadas com governança, compliance e critérios claros, tornam possível analisar o fluxo real de cada tomador, em vez de depender apenas de uma fotografia cadastral. O embedded finance ganha relevância justamente por aproximar o crédito do contexto em que a renda e as transações são geradas, permitindo uma concessão mais individualizada, mensurável e sustentável— considera Letícia Moschioni, sócia da Finscale.
— Uma economia pode crescer sem produzir alívio financeiro imediato para a população quando a expansão está concentrada em setores e componentes que não chegam diretamente ao orçamento doméstico. O PIB avançou 0,5% no segundo trimestre e o país atingiu 103,3 milhões de pessoas ocupadas, com desemprego de 5,3%. Mesmo assim, o consumo das famílias caiu 0,4% e a inadimplência no crédito livre subiu para 6,4%. O PIB mede a produção corrente, enquanto a capacidade de pagamento depende também do estoque de dívidas, do custo dos contratos, da estabilidade da renda e do comprometimento mensal do orçamento. A Selic em 14% amplia a diferença entre essas duas realidades, ao encarecer a renovação de passivos e reduzir a renda disponível após o pagamento das obrigações. Externamente, oscilações nos preços de energia, no câmbio e no comércio global acrescentam volatilidade às taxas de mercado e ao custo de captação. Nesse ambiente, a análise de crédito deixa de se apoiar apenas no nome do tomador ou no valor da garantia e passa a considerar a arquitetura completa da operação. Empresas com informações financeiras pouco consistentes, descasamento entre o prazo da dívida e a geração de caixa, baixa rastreabilidade dos recebíveis ou governança insuficiente tendem a enfrentar maior dificuldade de acesso ao crédito. Estruturas com mecanismos de segregação patrimonial, quando aplicáveis, regras claras de pagamento, garantias bem constituídas, monitoramento e administração fiduciária contribuem para tornar riscos pouco visíveis mais transparentes e mensuráveis, permitindo que o crédito continue circulando com maior segurança— mensura Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos.
— O dado cheio do PIB conta apenas metade da história. A economia cresceu 0,5% no segundo trimestre, o desemprego recuou para 5,3% e a população ocupada alcançou o recorde de 103,3 milhões de pessoas. Ainda assim, o consumo das famílias caiu 0,4% e a inadimplência no crédito livre chegou a 6,4%. Isso ocorre porque a melhora do emprego aumenta o fluxo de renda, mas não elimina imediatamente o estoque de dívidas acumulado pelas famílias. Uma parcela maior do salário continua comprometida com juros, parcelas e renegociações, especialmente quando a Selic permanece em 14% ao ano. No ambiente internacional, a desaceleração da atividade, as tensões comerciais e o choque de energia mantêm os riscos inflacionários e elevam o prêmio exigido de países emergentes, limitando a velocidade de redução dos juros brasileiros. A seletividade, portanto, não significa simplesmente menos crédito, mas uma precificação mais rigorosa do risco. Consumidores com renda variável, alto comprometimento mensal ou uso recorrente de linhas rotativas e empresas muito dependentes de refinanciamento, com baixa previsibilidade de caixa, tendem a encontrar spreads maiores, prazos menores e exigência adicional de garantias. Para investidores, esse cenário reforça a importância de diferenciar rendimento nominal de retorno ajustado ao risco, avaliar a qualidade dos emissores e combinar liquidez, diversificação e gestão ativa na alocação patrimonial— considera Gustavo Assis, CEO da Asset.
— A resposta está na composição do crescimento, e ela é quase autoexplicativa, porque a economia cresceu 0,5% no trimestre enquanto o consumo das famílias caiu 0,4%. Ou seja, o que puxou o PIB não foi o brasileiro consumindo, foi outra coisa, então o avanço aparece na estatística sem passar pela mesa de ninguém. E a explicação de por que o consumo caiu com emprego recorde está no orçamento doméstico, porque emprego recorde não é o mesmo que renda disponível. Tem mais gente trabalhando, com renda por pessoa praticamente parada, boa parte da absorção em vínculo mais frágil, e uma fatia maior do salário indo para pagar dívida antiga. Não por acaso a ata do Comef desta semana registra que o comprometimento de renda das famílias atingiu o maior nível da série histórica, e que o problema está concentrado nas linhas mais caras, como rotativo de cartão e empréstimo pessoal sem garantia. Sobre seletividade, ela já aumentou e vai aumentar mais, porque o próprio Banco Central disse que o cenário exige cautela e diligência adicionais e está preparando medidas. Quem tende a sentir primeiro é quem já está com a renda muito comprometida, quem tem renda informal e não consegue comprovar, e quem depende justamente das linhas caras. No lado das empresas o filtro é parecido, com o Comef apontando menos companhias aumentando lucro e mais companhias com despesa financeira em alta, então a régua fica mais dura para quem tem dívida curta e não tem garantia para oferecer—salienta André Matos, CEO da MA7 Capital.
—Os números mostram uma aparente contradição: a economia cresce e o mercado de trabalho segue muito forte, mas o balanço financeiro das famílias continua pressionado. O PIB avançou 0,5% no segundo trimestre, o desemprego caiu para 5,3% e a população ocupada atingiu o recorde de 103,3 milhões. Ainda assim, o consumo das famílias recuou 0,4%. Isso acontece porque emprego e renda são apenas uma parte da equação. De acordo com os dados, quase 29% da renda das famílias já está comprometida com o pagamento de dívidas, enquanto o custo do crédito permanece elevado. Em julho, a inadimplência no crédito livre chegou a 6,4%, maior nível da série histórica, alcançando 7,8% entre pessoas físicas e 4,2% entre empresas. Assim, mesmo uma família empregada pode ter pouca capacidade adicional de consumo ou de assumir uma nova dívida, além da concorrência de outros destinos para a renda, como as apostas online. Esse quadro naturalmente aumenta a importância da qualidade do tomador na concessão de crédito. Mais do que simplesmente reduzir a oferta, as instituições tendem a diferenciar melhor risco, prazo, garantias e previsibilidade de fluxo de caixa. Famílias com elevado comprometimento de renda, histórico recente de atraso ou maior dependência de modalidades caras tendem a enfrentar condições mais restritivas. Entre as empresas, o efeito deve ser maior para negócios muito dependentes de capital de giro e refinanciamento, com baixa geração de caixa ou poucas garantias ou muito sensíveis a taxa de juros. No setor imobiliário, essa seleção aparece de forma ainda mais clara: capital próprio, velocidade de vendas, qualidade dos recebíveis, nível de alavancagem e capacidade de geração de caixa passam a determinar não apenas o custo, mas também o acesso ao funding. O balanço das incorporadoras tem demonstrado esse cenário com o aumento do estoque de imóveis prontos e aumento da parcela de pro-soluto. O dado central, portanto, não é apenas quanto a economia cresce, mas quanto desse crescimento consegue efetivamente recompor a capacidade de pagamento de famílias e empresas — enfatiza Cassio Viana de Jesus, CIO da Pilar Capital.
— Emprego recorde não significa, necessariamente, dinheiro disponível para consumir ou investir. O Brasil encerrou o trimestre até julho com desemprego de 5,3% e 103,3 milhões de pessoas ocupadas, enquanto o PIB avançou 0,5% no segundo trimestre. Ao mesmo tempo, o consumo das famílias recuou 0,4% e a inadimplência no crédito livre alcançou 6,4%. Parte da explicação está na qualidade e na estabilidade da renda, já que uma parcela relevante das ocupações permanece informal, e outra parte está no custo de carregar dívidas antigas com juros elevados. No cenário global, a combinação de crescimento mais lento, tensões comerciais, energia cara e maior incerteza geopolítica aumentou o preço do capital e encurtou a tolerância dos investidores a projetos sem geração clara de caixa. A Selic em 14% reforça esse movimento no Brasil ao elevar o custo de oportunidade de qualquer investimento. Na concessão de crédito, profissionais com renda irregular, consumidores com dívidas rotativas e empresas dependentes de novas captações para sustentar despesas correntes devem enfrentar análises mais rigorosas. No venture capital, a seletividade assume outra forma. O mercado passa a valorizar startups com receita recorrente, margem consistente, baixa necessidade de capital, governança e capacidade de prolongar o caixa disponível. Não se trata do fim do capital para inovação, mas de uma mudança na pergunta feita pelo investidor. Além de saber quanto a empresa consegue crescer, será preciso entender quanto capital ela consome para produzir esse crescimento—sugere Antônio Patrus, diretor da Bossa Invest.
— O brasileiro está mais empregado, mas continua destinando parte crescente da renda para financiar o passado. Essa é a principal explicação para o PIB ter avançado 0,5% no segundo trimestre, o desemprego ter recuado para 5,3% e a população ocupada ter alcançado 103,3 milhões, enquanto o consumo das famílias caiu 0,4% e a inadimplência no crédito livre atingiu 6,4%. O emprego melhora a renda corrente, mas os juros elevados atuam de maneira cumulativa sobre cartões, empréstimos e renegociações. Com a Selic em 14%, a parcela da renda destinada ao serviço da dívida permanece alta, reduzindo a percepção de melhora econômica no cotidiano. O ambiente externo também exige cautela. Choques de energia, tensões comerciais e trajetórias diferentes de inflação e juros nas principais economias aumentam a volatilidade do dólar, das bolsas e dos títulos de longo prazo. No crédito, isso fortalece a seleção de tomadores com renda previsível, baixo endividamento e maior capacidade de absorver oscilações. Pessoas com concentração de dívidas de curto prazo, renda instável ou pouca reserva de emergência tendem a enfrentar condições mais exigentes. Para o investidor, a mesma lógica de seletividade deve valer na construção da carteira. Manter liquidez, diversificar emissores, moedas e geografias e evitar concentração excessiva em um único cenário econômico são formas de reduzir a dependência tanto dos juros brasileiros quanto das oscilações de um mercado específico — ensina Fábio Murad, consultor da Wiser Asset.