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02/09/2026

Geopolítica da transição

O país precisa transformar potencial em influência.

O sistema internacional atravessa uma reconfiguração estrutural profunda. A crescente disputa por hegemonia entre Estados Unidos e China, aliada ao imperativo de transição energética e à corrida pela soberania em inteligência artificial, redefiniu os eixos do poder global. Nessa nova arquitetura geopolítica, a segurança energética e a disponibilidade de insumos tecnológicos deixaram de ser meros temas econômicos e passaram a constituir elementos centrais da alta estratégia dos Estados.

O Brasil encontra-se diante de uma encruzilhada histórica: não como espectador passivo, mas como um ator pivotal. A questão premente que se impõe à diplomacia e às elites políticas do país é saber se teremos a maturidade estratégica para negociar nosso futuro com altivez ou se repetiremos o erro histórico do alheamento frente às grandes transformações internacionais.

As evidências empíricas e geoeconômicas demonstram que o Brasil reúne condições ímpares para alterar qualitativamente sua inserção no cenário global. Enquanto os centros tradicionais de poder enfrentam complexos dilemas para descarbonizar suas matrizes e suprir a crescente demanda computacional dos centros de dados de inteligência artificial, o Brasil apresenta um ativo de inestimável valor diplomático: aproximadamente 88% de sua geração elétrica provém de fontes limpas e renováveis, contra uma média global que mal supera o patamar de 30%. Essa assimetria positiva confere ao país uma vantagem competitiva e negociadora sem paralelo para a atração de indústrias de ponta e infraestrutura de tecnologia crítica.

No plano geológico, a convergência entre transição tecnológica e segurança de suprimentos transforma nosso subsolo em um vetor de projeção de poder. O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras — estimada em mais de 21 milhões de toneladas —, além de deter mais de 90% das reservas globais de nióbio e depósitos altamente estratégicos de lítio de alta pureza no Vale do Jequitinhonha, além de expressivas jazidas de níquel e cobre. Insumos dessa natureza constituem o cerne das cadeias de valor dos semicondutores, veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas de defesa de última geração. Deter a posse desses recursos significa possuir as alavancas do novo arranjo produtivo mundial.

Sob a ótica da diplomacia econômica, o desafio fundamental é superar de forma definitiva o modelo tradicional de exportador primário. Negociar com Washington, Pequim ou Bruxelas exige abandono da passividade em favor de uma estratégia soberana e pragmática: o acesso aos recursos e ao mercado brasileiro deve estar condicionado à transferência efetiva de tecnologia, adensamento das cadeias produtivas locais e processamento de valor agregado em território nacional. Trata-se de instrumento político para consolidar a autonomia industrial e tecnológica do país.

O Brasil dispõe dos elementos necessários para sentar-se à mesa das grandes potências não como fornecedor de commodities, mas como formulador geopolítico. Infelizmente, cabe aos nossos líderes políticos, que estão muito aquém desta tarefa, desenhar um projeto de Estado denso e articulado, capaz de converter nosso potencial estratégico em influência diplomática concreta e desenvolvimento real. Neste ponto reside o grande desafio das próximas gerações. Sem lideranças de qualidade, perderemos a corrida geopolítica desta transição, nos tornando mais uma vez expectadores da nova ordem que se desenha.

Por: Márcio Coimbra, CEO da Casa Política e presidente-executivo do Instituto Monitor da Democracia. Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.