A relação entre os hormônios da tireoide e o aumento de peso.
A ideia de que “se eu como pouco, não deveria engordar” parece simples, mas o funcionamento do organismo é muito mais complexo. O peso corporal não depende apenas da quantidade de alimentos ingeridos. Gasto energético, composição corporal, atividade física, sono, medicamentos, genética, idade e condições de saúde também interferem nesse equilíbrio. Entre os fatores médicos que podem contribuir para o ganho de peso está o funcionamento inadequado da tireoide.
A tireoide é uma pequena glândula localizada na região anterior do pescoço, mas exerce influência sobre praticamente todo o organismo. Ela produz principalmente os hormônios tiroxina (T4) e triiodotironina (T3), que participam da regulação do metabolismo, da temperatura corporal e do funcionamento de órgãos como coração, músculos e cérebro. O T4 é convertido em T3 nos tecidos, e o T3 exerce grande parte dos efeitos biológicos dos hormônios tireoidianos.
Quando a produção desses hormônios diminui, ocorre o hipotireoidismo. Uma das consequências é a redução do gasto energético em repouso, o chamado metabolismo basal. Em termos simplificados, o organismo passa a utilizar menos energia para manter suas funções básicas. Isso pode favorecer o aumento de peso, especialmente quando associado a outros fatores, como sedentarismo e alterações na alimentação.
Entretanto, existe um ponto importante e frequentemente ignorado nas discussões sobre emagrecimento: o hipotireoidismo geralmente não explica sozinho grandes aumentos de peso. Segundo a American Thyroid Association, boa parte do peso adquirido em decorrência do hipotireoidismo pode estar relacionada à retenção de sal e água, e não exclusivamente ao aumento da gordura corporal. Em muitos pacientes, o ganho atribuído à tireoide fica na faixa de alguns quilos, variando de acordo com a intensidade da doença.
Isso ajuda a explicar por que duas pessoas podem seguir dietas aparentemente semelhantes e apresentar resultados muito diferentes. O organismo de cada indivíduo possui características metabólicas próprias. Além disso, uma pessoa pode estar consumindo menos alimentos e, ainda assim, apresentar baixo gasto energético, pouca massa muscular, menor nível de atividade física ou alterações metabólicas que dificultem a perda de peso.
Outro equívoco comum é considerar qualquer dificuldade para emagrecer como sinal de hipotireoidismo. Cansaço, constipação, sensação de frio, dificuldade de concentração e ganho de peso podem ocorrer nessa doença, mas são sintomas relativamente inespecíficos e também aparecem em diversas outras condições. Por isso, não é adequado concluir que uma pessoa tem hipotireoidismo apenas porque está acima do peso ou não consegue emagrecer.
É justamente nesse ponto que surge outra expectativa equivocada: a ideia de que utilizar hormônio da tireoide fará qualquer pessoa emagrecer. Não é assim. A reposição hormonal tem como objetivo corrigir a deficiência hormonal e restaurar o funcionamento normal do organismo, e não provocar emagrecimento em pessoas que não apresentam hipotireoidismo.
Quando o tratamento normaliza os níveis hormonais, alguns pacientes perdem parte do peso adquirido durante a doença, principalmente aquele relacionado à retenção de líquidos. Porém, a perda de peso costuma ser modesta. O uso de hormônio tireoidiano em doses excessivas com a finalidade de emagrecer, por outro lado, pode ser perigoso. O excesso de hormônios pode provocar palpitações, ansiedade, insônia, perda de massa muscular e óssea e alterações do ritmo cardíaco, além de não oferecer uma solução sustentável para a obesidade.
A pergunta “por que engordo mesmo comendo pouco?” não tem uma única resposta. Em alguns casos, a tireoide pode estar envolvida; em outros, será necessário investigar sono, atividade física, composição corporal, medicamentos, alimentação, outras doenças e diferentes fatores metabólicos. A avaliação individualizada é fundamental para separar uma alteração hormonal real de uma explicação que, embora popular, pode não corresponder à realidade clínica.
Mais do que procurar um “hormônio para emagrecer”, compreender o funcionamento do organismo permite tratar corretamente aquilo que realmente está alterado. Quando existe hipotireoidismo, a reposição hormonal é tratamento de uma doença e não uma fórmula para perder peso.
• Por: Izabelle Gindri, cientista, especialista em saúde hormonal, PhD em Engenharia Biomédica pela UTD (University of Texas, Dallas), farmacêutica, cofundadora e CEO da bio meds Brasil.