Mesmo em meio a ciclos de polarização política, os Estados Unidos preservam um arcabouço jurídico sólido, independência institucional e o maior mercado de capitais do planeta. A inteligência artificial segue concentrada em território americano e o sistema universitário mantém liderança global. Em termos relativos, que é como o investidor sofisticado analisa riscos, poucas jurisdições oferecem combinação semelhante junto com qualidade de vida.
E há um instrumento para os brasileiros extraírem o melhor daquele país: o programa EB-5. Criado em 1990 pelo Congresso norte-americano, permite que investidores estrangeiros e suas famílias (cônjuge e filhos solteiros menores de 21 anos) obtenham a residência permanente mediante um aporte de US$ 800 mil, em áreas de emprego-alvo, em um negócio que gere, pelo menos, 10 empregos para trabalhadores americanos. Somente em 2025, os aportes globais atingiram US$ 4,07 bilhões no programa. E o Brasil consolidou-se como o 6º país que mais obteve residência permanente nos EUA via EB-5 na última década.
Mas devido a um gargalo regulatório, agora é o período ideal para os interessados em obter o visto de investidor EB-5 começarem os trâmites. É que novos entrantes podem se deparar com uma questão regulatória que exige atenção imediata: em setembro pode se fechar uma janela de oportunidade técnica. Porém, considerando a análise das condições atualmente vigentes, como o valor mínimo de aporte e critérios de elegibilidade, o recomendável é iniciar o quanto antes – daí meu alerta.
Para entender melhor, eu explico em detalhes. A Lei de Reforma e Integridade de 2022 (RIA) estabeleceu a cláusula de grandfathering, que garante que investidores com aplicações protocoladas até 30 de setembro de 2026 tenham seus processos avaliados pelas regras vigentes, independentemente de mudanças futuras no programa. Quem postergar a decisão poderá não ter os benefícios atuais, que deverão endurecer ainda mais durante a gestão de Donald Trump.
Brasileiros entre os top 10, com mais de 2 mil vistos — Cabe observar que a maturidade do investidor brasileiro em relação ao EB-5 é notável. Desde 2016, o Brasil figura consistentemente entre as 10 principais nacionalidades a obter o visto, à frente de vizinhos como México e Venezuela e em linha com potências como Coreia do Sul e Taiwan.
Esse interesse é retroalimentado por uma demanda educacional crescente. Somos hoje a 10ª nação que mais envia estudantes para os EUA, com mais de 17,2 mil alunos matriculados no ano fiscal 2024/2025 – um crescimento de 2,4% em comparação ao período de 2023/2022, de acordo com o portal IIE Open Doors.
Com 20,8% desses estudantes focados em cursos de Administração de Empresas em 2025, percentual que corresponde a cerca de 8,5 mil vistos, o Green Card deixa de ser apenas um documento de moradia para se tornar um ativo de competitividade no mercado de trabalho norte-americano para jovens que querem continuar naquele país após os estudos – sem as amarras de patrocínios corporativos. Para esse grupo, o EB-5 é a ponte para a estabilidade – que está com o caminho livre, por ora –, e com um enorme potencial de ter um fluxo maior do que o registrado até então.
Previsibilidade é ponto de atenção — São muitos os pontos a favor do visto de investidor EB-5, e sua resiliência é comprovada, entre outros, pelos números pós-pandemia da Covid-19, quando o mercado assistiu a uma recuperação vigorosa. O volume de investimentos quase dobrou de 2023 para 2024, saltando de US$ 2,09 bilhões para US$ 3,87 bilhões – uma alta superior a 85%.
O cenário atual é de crescimento consistente: as aplicações para o visto saltaram 90% entre 2023 e 2024, mantendo a curva ascendente em 2025. No entanto, vale enfatizar que para o brasileiro a mensagem é de urgência estratégica. A janela que se encerra em setembro de 2026 não é, portanto, apenas um prazo burocrático, mas o limite da previsibilidade jurídica.
O EB-5 segue como uma das vias mais estruturadas para a residência permanente nos EUA. Mas o ativo mais valioso neste momento não é o capital; é a previsibilidade.
• Por: Marcelo Gorenstein, diretor da LCR Capital Partners no Brasil e América Latina. É especializado em programas de imigração por investimentos, como o Golden Visa de Portugal e Granada, além de atuar no Programa de Visto EB-5.