Em seu relatório semanal Brazil Weekly, o Rabobank avaliou no dia 11 de agosto (terça-feira), que o Comitê de Política Monetária (Copom) deve interromper o ciclo de cortes da Selic em 14% e retomar a flexibilização apenas em abril de 2027, diante da persistência das expectativas de inflação desancoradas e das incertezas no cenário externo. O relatório ainda analisa os efeitos do cenário geopolítico, o desempenho da indústria e a resiliência da balança comercial brasileira.
— Externamente, nos EUA a criação de empregos surpreendeu negativamente em julho, com perda líquida de 23 mil vagas (mercado: +80 mil) e revisões baixistas dos meses anteriores, enquanto a queda da participação na força de trabalho reduziu o desemprego para 4,1% (mercado: 4,2%), reforçando a percepção de desaceleração do mercado de trabalho.
Domesticamente, o Copom decidiu reduzir novamente em 25 p.b. a taxa básica Selic, levando a 14% a/a, em comunicado com tom hawkish com relação à continuidade da desancoragem das expectativas de inflação. Nossa visão: o conflito entre EUA e Irã permanece no radar e, o cenário segue marcado por elevada incerteza. O petróleo Brent continua volátil, estabilizando-se próximo dos US$ 90. O dólar terminou a semana anterior cotado a R$ 5,0587 implicando uma apreciação semanal de 0,48% do real frente à moeda americana, o sexto melhor desempenho entre 24 moedas emergentes. Com a expectativa de menor diferencial entre juros locais e externos ao longo de 2026 e eventual recuperação do dólar globalmente em meio a um frágil quadro fiscal doméstico em um ano eleitoral, esperamos que o dólar volte a R$ 5,35 até o fim do ano.
Em decisão unânime, o Copom reduziu a Selic em 25 p.b., a 14%. Porém, adotou tom hawkish ao reforçar a assimetria altista do balanço de riscos, a persistência da desancoragem das expectativas e as incertezas vindas do cenário externo. Neste momento, mantemos o call de que o Copom não promova mais cortes em 2026 e só retome o ciclo de cortes na reunião de abril de 2027.
Produção industrial (PI) recua no mês de junho registrando a pior queda no ano. Em junho, a PIM apresentou um valor de -1,8% m/m (mercado: -0,9% m/m; Rabobank: -0,9% m/m; mai-26: -0,9% m/m; jun-25: 0,8% m/m). Em base anual, a produção industrial subiu 1,7% a/a (mercado: 3,0%; Rabobank: 3,0%; mai-26: 0,2%; jun-25: -1,3%).
Apesar do recuo mensal, a balança comercial continua resiliente, sustentando uma sequência de superávits. Em julho, a balança comercial registrou um superávit de US$ 7,1 bilhões (mercado: 8,4 bi; Rabobank: 8,9 bi; mai-26: 7,7 bi; jun-25: 5,9 bi).
As exportações totalizaram US$ 34,1 bilhões, enquanto as importações somaram US$ 27,1 bilhões.
No Brasil, o principal destaque da semana é o IPCA de julho, esperado em 0,0% m/m ou 4,4% a/a pelo Rabobank. Também serão divulgados os resultados de atividade referentes a junho. O indicador de Serviços, as Vendas do Varejo restrito e ampliado. Na região, a Colômbia divulga, na segunda-feira, o IPC de julho, seguido pelos dados de atividade na sexta-feira. Por fim, o Peru anuncia sua decisão de política monetária na quinta-feira, com expectativa de manutenção da taxa de juros em 4,25% ao ano.
Copom: Ainda há espaço para cortes em 2026? Em decisão unânime, o Copom reduziu a taxa Selic em 25 p.b., para 14%, em linha com nossa expectativa e a da maior parte do mercado. O Comitê justificou a continuidade do processo de cortes (“calibração”) ao concluir que a trajetória de juros implícita no cenário de mercado segue compatível com a convergência da inflação para patamar ao redor da meta ao longo do horizonte relevante (primeiro trimestre de 2028). Desta forma, o Copom entendeu que ainda havia espaço para um ajuste adicional da taxa básica sem comprometer o processo de desinflação.
Ainda assim, a comunicação foi marcada por um tom mais cauteloso. O Copom voltou a destacar o aumento da incerteza e reiterou que o balanço de riscos segue assimétrico para cima. Em particular, a persistência da desancoragem das expectativas de inflação e a possibilidade de novos choques de oferta associados ao petróleo e às condições climáticas seguem limitando o espaço para uma flexibilização mais acelerada da política monetária.
Diante desse cenário, o Comitê optou por não fornecer forward guidance para os próximos passos, reforçando que futuras decisões dependerão da evolução dos dados e da materialização dos riscos observados no horizonte prospectivo.
O Copom manteve a avaliação de que o ambiente externo permanece incerto. Os conflitos no Oriente Médio seguem adicionando volatilidade aos preços de commodities e aos mercados financeiros globais, enquanto as dúvidas sobre o ritmo de desaceleração da economia americana e da condução da política monetária internacional continuam exigindo cautela por parte de economias emergentes. No balanço de riscos, permanecem vetores altistas associados à depreciação cambial, enquanto riscos baixistas continuam ligados a uma desaceleração global mais intensa e a uma eventual queda dos preços de commodities.
No cenário doméstico, o Comitê reconheceu sinais de moderação da atividade econômica e da inflação na margem, mas destacou que o processo ocorre de forma gradual. As medidas de inflação subjacente desaceleraram para níveis ligeiramente inferiores ao teto da banda da meta, enquanto a inflação cheia continua acima desse patamar. Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho segue aquecido e a atividade continua resiliente, ainda que com sinais mistos entre os diferentes setores da economia.
Apesar da melhora observada nas expectativas de inflação para 2026, houve deterioração para horizontes mais longos. As expectativas de inflação feitas pelo mercado para 2026 baixaram de 5,3% a 5,0% ao fim de 2026, mas subiram de 4,1% a 4,2% ao fim de 2027 e de 3,7% a 3,8% ao fim de 2028 (de 4,0% a 4,1% no primeiro trimestre de 2028, o novo horizonte relevante). Já as projeções do BCB baixaram de 5,2% para 5,1% em 2026, mas subiram de 3,7% para 3,8% em
2027 enquanto a projeção do próprio Copom para o horizonte relevante (primeiro trimestre de 2028) permaneceu em 3,2%. O Banco Central interpretou esse movimento como evidência de que o processo de reancoragem das expectativas continua incompleto.
Os próximos passos do Copom dependerão, em grande medida, da evolução dos conflitos no Oriente Médio e dos seus impactos sobre os preços de ativos e commodities. No plano doméstico, o Comitê parece menos confiante de que a moderação gradual da atividade e da inflação será suficiente para promover uma reancoragem mais consistente das expectativas.
Por ora, mantemos nossa avaliação de que o Copom deverá interromper o ciclo de cortes em 14% e retomar a flexibilização apenas em abril 2027, encerrando aquele ano com a Selic em 12,50%.
Na próxima semana, o Copom lançará mais luz sobre seu balanço de riscos e sua função de reação com a divulgação da ata desta reunião (terça-feira), quando o período de silêncio em torno da reunião pelos membros do Copom chegar ao fim— conclui a análise a Rabobank.
Enfim, na visão da Rabobank, o conflito entre EUA e Irã permanece no radar, mas sem escalada significativa. Enquanto o mercado ainda aguarda notícias concretas sobre as negociações entre as partes. Ainda assim, o cenário segue marcado por elevada incerteza. O petróleo Brent continua volátil, estabilizando-se próximo dos US$ 90. Esta retomada de preços de petróleo mais altos volta a trazer incerteza para a convergência de inflação à meta no horizonte relevante, sem mencionar que permanecemos com incerteza tarifária no comércio exterior global e maior probabilidade de El Niño no fim do ano. No Brasil, ainda contamos com potencial efeito da diminuição do carry-trade ao longo de 2026. Assim, o real brasileiro permanece à mercê das incertezas globais (p. ex.: potencial espaço menor de corte de juros americanos, dúvidas quanto à velocidade de desaceleração das economias dos EUA e China, riscos geopolíticos, potencial alta de juros no Japão) e locais (fortes dúvidas quanto à sustentabilidade do marco fiscal). Com expectativa de menor diferencial entre juros locais e externos ao longo de 2026 e eventual recuperação do dólar globalmente, estimamos que o dólar no fim de 2026 seja R$ 5,35.