Durante muito tempo, o investidor brasileiro concentrou seus esforços em buscar rentabilidade. A lógica era relativamente simples: identificar oportunidades capazes de gerar retornos acima da inflação e superar os principais indicadores do mercado. Hoje, no entanto, essa visão está mudando. Mais do que multiplicar patrimônio, cresce o interesse por estratégias capazes de preservá-lo, protegê-lo de riscos e garantir sua continuidade para as próximas gerações.
Existe uma diferença importante entre possuir ativos relevantes e ter um patrimônio verdadeiramente protegido. Essa percepção vem ganhando força entre investidores de diferentes perfis, principalmente aqueles que já acumularam patrimônio e passaram a olhar para questões como diversificação internacional, planejamento sucessório e proteção patrimonial.
Essa mudança acompanha uma tendência global. O World Wealth Report 2025, da Capgemini, mostra que a riqueza dos indivíduos de alta renda (High Net Worth Individuals – HNWIs) cresceu 4,2% em 2024, enquanto a população desse grupo avançou 2,6%. Mas o dado mais emblemático do estudo é outro: até 2048, cerca de US$83,5 trilhões deverão ser transferidos entre gerações, no maior processo de sucessão patrimonial da história. Esse cenário vem impulsionando investidores em todo o mundo a estruturarem seus patrimônios com foco em proteção, eficiência tributária e planejamento sucessório.
O relatório da UBS reforça essa transformação. O Global Wealth Report 2025 revela que a riqueza privada mundial alcançou US$471 trilhões em 2024 e que o mundo ganhou mais de 680 mil novos milionários em dólares em apenas um ano. A instituição estima ainda que outros 5,34 milhões de pessoas se tornarão milionárias até 2029. Outro dado chama atenção: existem atualmente cerca de 52 milhões de pessoas com patrimônio entre US$1 milhão e US$5 milhões, grupo que mais do que quadruplicou desde o ano 2000 e que hoje concentra aproximadamente US$107 trilhões em riqueza.
Esse movimento também aparece no mercado imobiliário e nos investimentos globais. Segundo o The Wealth Report 2025, da Knight Frank, o número de pessoas com patrimônio superior a US$10 milhões cresceu 4,4% em 2024, com destaque para a América do Norte, que registrou alta de 5,2%. O estudo aponta que o avanço da riqueza deverá ser acompanhado por uma demanda crescente por estruturas de proteção patrimonial e planejamento sucessório, principalmente diante das mudanças regulatórias observadas em diversos países.
No Brasil, esse movimento também é perceptível. Dados do Banco Central mostram que os brasileiros mantêm mais de US$650 bilhões em ativos no exterior, entre investimentos financeiros, participações societárias e imóveis. A internacionalização do patrimônio deixou de ser uma estratégia restrita às grandes fortunas e passou a fazer parte do planejamento de empresários, famílias e investidores que buscam reduzir riscos, proteger seu patrimônio em moedas fortes e ampliar suas possibilidades de investimento.
Esse interesse faz sentido diante do cenário econômico dos últimos anos. Inflação persistente, juros elevados, volatilidade cambial, conflitos geopolíticos e mudanças frequentes nas políticas fiscais reforçaram a importância de distribuir riscos entre diferentes mercados. Concentrar todo o patrimônio em um único país significa estar excessivamente exposto às oscilações econômicas, políticas e regulatórias daquela região.
Esse ponto ficou ainda mais evidente com as recentes mudanças no ambiente tributário. Alterações relevantes, como as trazidas pela Reforma Tributária e pela nova tributação de lucros e dividendos, mostram na prática que as regras podem mudar, e mudam. Para o investidor, isso reforça uma lição estrutural: um patrimônio inteiro submetido a um único conjunto de regras carrega um risco que independe da qualidade dos ativos. Diversificar entre jurisdições é uma forma de reduzir essa exposição.
O patrimônio deixa de ser visto apenas como um conjunto de ativos financeiros e passa a ser tratado como um legado que precisa ser preservado ao longo do tempo.
Mais do que uma resposta às mudanças tributárias, essa transformação representa uma evolução na forma como o brasileiro enxerga a riqueza.
No cenário internacional, essa cultura já está consolidada há décadas. No Brasil, embora ainda esteja em processo de amadurecimento, ela avança rapidamente, impulsionada pelo acesso à informação, pela digitalização dos investimentos e pelo crescimento da riqueza privada. Diversificar globalmente deixou de ser apenas uma estratégia para potencializar retornos. Tornou-se uma ferramenta essencial para preservar patrimônio, proteger o legado familiar e garantir que a riqueza construída ao longo de uma vida continue gerando valor para as próximas gerações.
• Por: Cristiano Maschio, CEO da DCEX.