Em períodos marcados por juros elevados, inflação resistente e incertezas sobre o cenário econômico nacional e global, o comportamento dos consumidores tende a mudar. Em vez de priorizar decisões imediatas, muitas famílias e empresas passam a adotar uma postura mais cautelosa, focada na preservação do orçamento e no planejamento financeiro de longo prazo. Nesse contexto, o consórcio ganha espaço como uma alternativa alinhada a uma nova lógica de consumo menos impulsiva e mais estratégica.
Os números confirmam essa tendência. De acordo com a Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC), nos cinco primeiros meses do ano foram comercializadas mais de 2,36 milhões de cotas, um crescimento de 14% em relação ao mesmo período de 2025. Já os créditos comercializados ultrapassaram R$ 232,94 bilhões, alta de 24,9% sobre os R$ 186,55 bilhões registrados no ano anterior. Ao mesmo tempo, o número de participantes ativos superou a marca de 13 milhões em maio de 2026, evidenciando a confiança crescente dos brasileiros na modalidade.
Esse avanço ocorre em um ambiente econômico que continua impondo desafios para consumidores e empresas. Apesar dos sinais de recuperação em alguns setores, o acesso ao crédito permanece caro e restrito. Com a taxa Selic em 14% ao ano, as linhas tradicionais seguem pressionadas, com o crédito imobiliário se aproximando de 19% ao ano, enquanto o financiamento de veículos pode alcançar 27%. Na prática, isso significa que decisões importantes, como a aquisição de um imóvel, a renovação de uma frota ou a compra de equipamentos para expansão dos negócios, acabam impactadas por um custo financeiro elevado que compromete o planejamento de longo prazo.
Diante dessa realidade, é observada uma mudança significativa no perfil do consumidor. Se em momentos de maior estabilidade a rapidez na aquisição costuma ser um fator decisivo, em cenários de incerteza cresce a valorização de soluções que proporcionem previsibilidade. Ou seja, o objetivo deixa de ser apenas comprar e passa a ser comprar de forma sustentável, sem comprometer excessivamente o orçamento.
É justamente aqui que o consórcio se destaca. Por não contar com a incidência de juros, a modalidade se torna uma alternativa mais econômica para quem pode planejar suas aquisições com antecedência. Em vez de assumir parcelas impactadas pelo elevado custo do crédito, o participante contribui mensalmente para a formação de um fundo comum e concorre à contemplação por meio de sorteios ou lances, mantendo o foco na construção patrimonial de maneira equilibrada. Mais do que uma forma de aquisição, o consórcio consolidou-se como uma ferramenta de planejamento, tornando-se relevante para quem busca segurança nas decisões orçamentárias.
Assim, a modalidade deixa de ser vista como uma opção para quem pode esperar e passa a ser reconhecida como uma escolha inteligente para quem deseja obter crédito. Trata-se da consolidação de uma ferramenta que nasceu da necessidade de viabilizar conquistas e que, ao longo das décadas, evoluiu e passou a ocupar uma posição estratégica na gestão financeira de milhões de brasileiros.
É certo que, as incertezas econômicas continuarão influenciando decisões de consumo e investimento. Entretanto, nesse cenário, fica evidente que, soluções que oferecem previsibilidade, flexibilidade e menor custo tendem a ganhar relevância. Planejar tornou-se tão importante quanto adquirir. E é nessa combinação entre disciplina, visão de longo prazo e construção patrimonial que o consórcio amplia seu espaço como um dos principais instrumentos de acesso ao crédito e de realização de projetos no Brasil.
• Por: Guilherme Carrasco, vice-presidente executivo da Ademicon. Economista com MBA em Finanças pela Universidade Federal do Paraná, possui ampla experiência no mercado financeiro e de capitais, com passagens por Itaú Unibanco, Aqua Capital e Positivo Tecnologia.