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21/07/2026

O que um aporte de R$ 700 milhões ensina sobre construção de empresas

Quando uma empresa anuncia a entrada de um grande fundo de investimento, a atenção do público costuma se concentrar no valor da operação. Foi o que aconteceu com a VOLL, depois de receber um aporte de R$ 700 milhões liderado pela Warburg Pincus, um dos maiores fundos de private equity do mundo. Mas, olhando de dentro, o aspecto mais relevante dificilmente é apenas o tamanho do cheque. O que realmente merece reflexão é o motivo pelo qual um investidor daquele porte decide apostar em um negócio.

Fundos como esse analisam centenas de empresas todos os anos e avaliam crescimento, mas esse está longe de ser o único critério. O que eles procuram é a capacidade de uma empresa continuar crescendo de forma consistente, preservando sua qualidade de execução mesmo quando a operação ganha escala, novos mercados e novos desafios.

Essa percepção muda a forma de enxergar a própria jornada empreendedora. Em vez de construir uma empresa para captar investimentos, faz mais sentido construir um negócio que gere valor de maneira contínua. Quando isso acontece, o capital passa a ser consequência e não objetivo.

No caso da VOLL, uma das decisões mais importantes foi não esperar o momento “certo” para atender grandes empresas. Desde o início, optamos por desenvolver uma solução preparada para organizações com milhares de colaboradores, estruturas complexas de governança e políticas rígidas de viagens e despesas. Por outro lado, foi um caminho mais exigente. Atender esse perfil de cliente significa lidar com requisitos elevados de segurança da informação, conformidade, integração tecnológica e disponibilidade operacional. Em compensação, cada novo desafio obrigava a empresa a amadurecer mais rapidamente.

Essa escolha também ensinou outra lição importante: crescer não significa apenas conquistar clientes, mas aprender continuamente com eles. A evolução da VOLL aconteceu muito menos por ideias que surgiram dentro da empresa e mais pela convivência diária com organizações que apresentavam problemas novos e demandavam soluções melhores. A plataforma nasceu voltada para mobilidade corporativa e passou a incorporar reservas de hotéis, passagens aéreas, locação de veículos e gestão de despesas porque os próprios clientes ampliavam a conversa e mostravam onde ainda existiam ineficiências. O desenvolvimento do produto sempre acompanhou necessidades reais.

Outro fator que costuma receber menos atenção do que deveria é a cultura. Existe uma tendência de associar empresas de tecnologia exclusivamente ao software que desenvolvem. Mas, os softwares evoluem, os produtos mudam e as funcionalidades são copiadas. O que sustenta uma empresa durante muitos anos é a forma como as pessoas trabalham e tomam decisões.

Nesse quesito, as experiências nos segmentos de hotelaria, locação de veículos e turismo corporativo nos ajudaram e influenciaram profundamente nossa visão, pois entendemos que atendimento não depende apenas de processos bem desenhados, mas da disposição genuína de resolver o problema de quem está do outro lado do “balcão”. Essa lógica foi levada para a construção da VOLL. Hoje, mesmo com centenas de profissionais distribuídos por diferentes cidades do Brasil, a empresa continua medindo o sucesso pela experiência entregue aos clientes. O NPS se tornou um indicador estratégico justamente porque crescimento sem satisfação não representa um crescimento sustentável.

A mesma lógica vale para a inteligência artificial. Nos últimos anos, tornou-se comum apresentar IA como sinônimo de inovação, mas a experiência mostra que a tecnologia só faz diferença quando melhora algum indicador concreto do negócio. Na VOLL, os agentes de inteligência artificial foram desenvolvidos para encontrar oportunidades de redução de custos em passagens aéreas, hospedagem e despesas de viagem sem alterar a experiência do usuário. A tecnologia deixa de ser um fim em si mesma para cumprir aquilo que realmente importa: tornar a operação mais eficiente para empresas e viajantes.

Existe ainda uma percepção equivocada de que um grande investimento resolve os principais desafios de uma empresa. Na realidade, acontece o oposto: quanto maior o parceiro, maior o nível de responsabilidade. O acesso a mais capital amplia a capacidade de investir em tecnologia, contratar talentos, acelerar a expansão e assumir projetos mais ambiciosos, mas também aumenta a expectativa sobre a qualidade da execução.

Talvez por isso exista uma tendência de tratar grandes rodadas de investimento como troféus. Elas rendem fotografias, manchetes e reconhecimento, mas representam algo muito maior. Quando um investidor desse porte aposta em uma empresa, ele está sim premiando o que ela construiu até aqui, mas também demonstrando confiança na sua capacidade de continuar evoluindo. É esse compromisso que realmente começa no dia em que o investimento é anunciado.

Por: Luiz Moura, empresário do setor de viagens corporativas, co-fundador da VOLL, membro do conselho da Associação Latino Americana de Eventos e Viagens Corporativas (Alagev) e conselheiro de Turismo da FecomércioSP. Escreve sobre viagens, gestão e comportamento humano. Luiz Moura é empreendedor com mais de 20 anos de atuação na interseção entre turismo e tecnologia. É co-fundador e Diretor de Negócios da VOLL, maior plataforma mobile-first de gestão de viagens e despesas corporativas da América Latina, além de uma referência no desenvolvimento do setor de viagens corporativas.

Especialista em Marketing pela Fundação Dom Cabral, ocupa cadeiras no Conselho de Turismo da FecomércioSP e no Conselho Executivo da Associação Latino-Americana de Gestão de Eventos e Viagens Corporativas (Alagev). Viajante frequente e observador atento do comportamento humano em movimento, escreve e fala sobre inovação, transformação digital, liderança empreendedora e o futuro das viagens corporativas.