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09/07/2026

Venda de cimento cresce 2,3% no 1S26

A alta é ante o mesmo período no ano passado. Impulsionada por habitação, infraestrutura e mercado de trabalho aquecido.

A comercialização de cimento no Brasil acumulou alta de 2,3% no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano passado, totalizando 32,9 milhões de toneladas. Apenas no mês de junho, foram vendidas 5,8 milhões de toneladas, o que representa um aumento de 7,7% frente a 2025, segundo o Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC). Na análise do despacho por dia útil (253,6 mil toneladas), há um aumento de 3,0% sobre junho do ano passado e uma retração de 0,1% em relação a maio.

O desempenho positivo do semestre foi impulsionado pelo mercado de trabalho aquecido, com o desemprego fechando o trimestre até maio em 5,6% — menor taxa para o período desde 2012 — e a população ocupada atingindo a marca histórica de 102,7 milhões de pessoas, o que sustentou a massa salarial em nível elevado.

No mercado imobiliário, o programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) segue como principal indutor de vendas, representando 50% dos lançamentos imobiliários no 1° trimestre do ano e registrando alta de 10% nas vendas. A entrada da classe média no programa (Faixa 4), a partir de abril, e a revisão da meta governamental para três milhões de moradias até o final de 2026 têm potencial para gerar um incremento de 5 milhões de toneladas no consumo de cimento.

Paralelamente, a infraestrutura tem aberto novas perspectivas de demanda com a aceleração de projetos rodoviários em pavimento rígido de concreto (whitetopping). A tecnologia se consolida como uma solução mais econômica, durável e alinhada às novas diretrizes de redução de emissões do Ministério dos Transportes.

Apesar dos avanços, o setor enfrenta forte escalada nos custos operacionais. No mercado externo, o frete marítimo e o coque de petróleo sofreram aumentos na ordem de 30% em 2026. Internamente, a alta do diesel onerou o frete rodoviário em 25%, e estima-se que uma eventual alteração da jornada de trabalho para 5×2 (40 horas semanais) possa incrementar os custos trabalhistas em cerca de 15%. A atividade industrial cimenteira opera nas 24 horas dos 365 dias do ano.

O cenário de crédito e renda também acende alertas. A estimativa de que a taxa Selic encerre o ano em 14%, diminuindo o ritmo dos cortes, encarece o financiamento habitacional e amplia a concorrência dos ativos financeiros frente aos imobiliários.

Soma-se a isso o impacto no orçamento familiar gerado pelo avanço das plataformas de apostas online (“bets”), que subtraíram R$ 143,8 bilhões do comércio nos últimos dois anos e colocaram 269 mil famílias na inadimplência, competindo diretamente com os recursos antes destinados à autoconstrução e reformas. A indústria de cimento vem alertando quanto ao agravamento do endividamento e da inadimplência alavancado pelas apostas on-line há mais de dois anos, sem a correspondente ação governamental que coíba essa prática. O setor também vê com preocupação o desvio do FGTS de sua finalidade essencial (financiar imóveis) para a quitação de dívidas em programas como o “Novo Desenrola”.

Diante desse panorama, as expectativas encerraram o semestre com sinais mistos. A confiança do consumidor manteve-se estável, amparada pelo emprego e por renegociações de dívidas, enquanto a confiança da indústria avançou, refletindo a atenuação de conflitos no Oriente Médio e a acomodação internacional do petróleo. Em contrapartida, a construção civil registrou pessimismo, pressionada por custos, desaceleração da atividade e severa escassez de mão de obra qualificada.

Na agenda ambiental, as iniciativas de transição energética e descarbonização seguem avançando de forma consistente. O coprocessamento, tecnologia implementada pela indústria do cimento, envolvendo desde biomassas, resíduos industriais e Combustível Derivado de Resíduos Urbanos (CDRU), já alcança cerca de 30% de substituição térmica com a utilização de 3 milhões de toneladas de resíduos. Isso corresponde a uma vez e meia o descarte anual de uma cidade como o Rio de Janeiro, evitando, adicionalmente, toda a emissão de cerca de 2,8 milhões de toneladas de CO₂ na atmosfera.

O Roadmap Net Zero 2050 lançado na COP30 segue avançando em pilares como matérias-primas e combustíveis alternativos, eficiência energética, Soluções baseadas na Natureza (SbN), captura e uso de carbono. Ao mesmo tempo, o setor vem trabalhando com o Ministério da Fazenda, por meio da Secretaria Extraordinária de Mercado de Carbono, na estruturação e regulamentação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE).

— O setor encerra o primeiro semestre com um desempenho positivo. A queda do desemprego e a massa salarial em níveis históricos foram fatores importantes para essa performance. A habitação, principalmente o Programa Minha Casa, Minha Vida, aliada à aceleração dos projetos rodoviários em pavimento rígido e vias em concreto, foram preponderantes para o nosso crescimento.

O cenário econômico exige cautela: o avanço da inflação, a elevação das projeções da taxa de juros (Selic), e o endividamento recorde da população continuam restringindo severamente a capacidade de crédito e o consumo das famílias. Mesmo assim, o setor mantém sua perspectiva de fechar o ano com aumento próximo a 2%— coclui José Eduardo Ramos, presidente da Cimento Nacional e do Conselho Diretor do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC) / Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP).