O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central divulgou a taxa Selic decidiu no dia 17 de junho (quarta-feira), reduzir a taxa básica de juros da economia, a Selic, em 0,25 ponto percentual, de 14,50% para 14,25% ao ano.
— O ambiente externo permanece incerto em função da indefinição sobre os termos do acordo para cessar os conflitos armados no Oriente Médio e as consequências dos efeitos já materializados desses conflitos até o momento, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities—diz a nota do Banco Central.
Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores mostra aceleração da atividade econômica no primeiro trimestre do ano, com setores mais cíclicos voltando a desempenhar papel significativo, e mercado de trabalho ainda com sinais de resiliência. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes aceleraram, distanciando-se adicionalmente da meta para a inflação, superando seu limite superior na última leitura.
Inflação 2026 e 2027 acima da meta — As expectativas de inflação para 2026 e 2027 apuradas pela pesquisa Focus permanecem em valores acima da meta, situando-se em 5,30% e 4,10%, respectivamente. A projeção de inflação do Copom para o quarto trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária, situa-se em 3,7% no cenário de referência.
Riscos — Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, permanecem mais elevados que o usual. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se (i) uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado, com horizontes mais longos incorporando impactos potenciais de segunda ordem de choques de oferta, relacionados ao petróleo e seus derivados, e a efeitos climáticos sobre a produtividade agrícola e custos de energia; (ii) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais positivo; (iii) uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada; e (iv) estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo, que tenham como resultado o crescimento da atividade econômica acima do produto potencial, enfraquecendo parte dos canais usuais de transmissão da política monetária. Entre os riscos de baixa, ressaltam-se (i) uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada do que a projetada, tendo impactos sobre o cenário de inflação; (ii) uma desaceleração global mais pronunciada decorrente dos choques de comércio e do petróleo, e de um cenário de maior incerteza; e (iii) uma redução nos preços das commodities com efeitos desinflacionários.
— O Comitê segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza. Os indicadores correntes de atividade econômica mostram recuperação em relação ao último trimestre de 2025, mantendo-se consistentes com uma trajetória de desaceleração no acumulado de 2026. O cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, e pressões no mercado de trabalho— ressalta.
— Nesse momento, as projeções de inflação apresentam distanciamento adicional em relação à meta no horizonte relevante para a política monetária. Ao mesmo tempo, a incerteza acerca dessas projeções permanece mais elevada que o usual, em função da falta de clareza sobre a trajetória dos condicionantes dos modelos de projeção analisados— continua.
— O período prolongado de manutenção da taxa básica de juros em patamar contracionista propiciou evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica. Em decorrência da dinâmica dos riscos associados à evolução dos preços, o Comitê reafirma que a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta— complementa.
Na avaliação do Comitê, o grau de restrição acumulado pela política monetária permite diferentes trajetórias de taxas de juros compatíveis com a convergência da inflação para a meta. Os modelos de projeção, utilizando essas trajetórias da taxa básica entre seus condicionantes, estão sujeitos a incertezas acima das usuais na conjuntura atual. Essas incertezas se somam ao cenário de choques de oferta, o que fundamenta a graduação, ao menos parcial, de seus efeitos sobre a dinâmica futura de preços.
Nas simulações atuais, a trajetória de política monetária necessária para assegurar a convergência da inflação à meta, no atual horizonte relevante, implicaria que as taxas de inflação projetadas a partir do horizonte relevante vigente na próxima reunião estariam situadas abaixo da meta. Nessas condições, o Comitê avalia que trajetórias alternativas garantindo a convergência da inflação à meta no primeiro trimestre de 2028, o horizonte relevante a partir de sua próxima decisão, são compatíveis com a suavização na variação dos agregados macroeconômicos.
O Comitê julgou apropriado, nesse momento, dar sequência ao ciclo de calibração da política monetária, reduzindo a taxa básica de juros para 14,25% ao ano.
Cautela: — No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego — conclui o comunicado do Copom..
A decisão foi votada por Gabriel Muricca Galípolo (presidente), Ailton de Aquino Santos, Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Izabela Moreira Correa, Nilton José Schneider David, Paulo Picchetti, e Rodrigo Alves Teixeira, membro do Copom.
. Continuidade da queda dos juros depende de credibilidade fiscal, aponta Firjan: — Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro reitera que o fortalecimento da credibilidade fiscal é fundamental para garantir a continuidade do processo de flexibilização monetária de forma estruturada e crível.
A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) em reduzir a taxa Selic, de 14,50% para 14,25% ao ano, e dar continuidade ao processo de flexibilização monetária é positiva para a atividade econômica. No entanto, a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) ressalta que o nível dos juros segue em patamar restritivo, penalizando a capacidade de investimentos e a competitividade do setor produtivo.
— O contexto pelo qual passa a indústria nacional é desafiador. Além da elevação dos custos de insumos e dos fretes, decorrentes da instabilidade geopolítica global, o alto — e persistente — custo de capital é fator fundamental que reduz a competitividade dos produtos brasileiros no mercado interno e externo — aponta o economista-chefe da Firjan, Jonathas Goulart.
De acordo com a federação, esse cenário adverso é percebido principalmente pela indústria de transformação, que permanece 16% abaixo de seu máximo histórico, segundo dados do IBGE. Embora o atual cenário externo imponha desafios econômicos adicionais à economia, a construção de condições favoráveis ao crescimento sustentável depende, sobretudo, de fatores domésticos.
Nesse sentido, a Firjan reitera que o fortalecimento da credibilidade fiscal é fundamental para garantir a continuidade do processo de flexibilização monetária de forma estruturada e crível. “Somente com harmonia entre a política fiscal e monetária será possível atrair investimentos e aumentar a produtividade e a competitividade do setor industrial — acrescenta Goulart.
. Vitor Kayo, economista sênior da Nomad analisa a redução do Copom — O Copom cortou a Selic em 0,25 p.p., para 14,25% a.a., mas entregou um comunicado mais duro, reconhecendo a piora do cenário doméstico desde abril. A projeção de inflação para 2026 saltou de 4,6% para 5,2%, e a estimativa para o 4º trimestre de 2027, horizonte relevante da política monetária, subiu de 3,5% para 3,7%, aproximando-se do teto da meta. Pela primeira vez, o BC citou explicitamente os estímulos à demanda, numa referência ao impulso fiscal eleitoral, como fator de risco inflacionário, além de reconhecer que a inflação corrente superou o limite superior da meta na última leitura.
No cenário externo, a linguagem evoluiu: o BC passou a reconhecer os “efeitos já materializados” dos conflitos no Oriente Médio, em contraste com a “indefinição sobre a duração” mencionada em abril. No doméstico, a atividade acelerou no primeiro trimestre, com setores mais cíclicos voltando a crescer, o mercado de trabalho segue resiliente e as expectativas Focus para 2026 chegaram a 5,30%, acima até da nova projeção do próprio Copom.
O Comitê reafirmou serenidade e cautela, sem sinalizar direção para agosto. Com projeções de inflação deterioradas, atividade acima do esperado e expectativas desancoradas, o BC deixa claro que os próximos passos dependem da evolução dos dados, elevando a barra para novas reduções— conclui o economista sênior da Nomad.
. O economista do banco BV, Carlos Lopes, comenta a decisão do Copom e destaca que o Banco Central manteve o ciclo de cortes da Selic mesmo diante de um balanço de riscos mais desafiador, indicando preferência por continuar reduzindo os juros.
—Uma avaliação sobre a decisão do Copom, acho que como esperado, o Copom decidiu por um corte de 0,25%, embora fosse a aposta majoritária dos economistas, inclusive a nossa (do banco BV), havia uma expectativa de que o Banco Central pudesse decidir por uma pausa nesse momento, não foi o caso, eles optaram por um corte de 0,25%. Embora no documento, no comunicado, o Banco Central reconheça diversos pontos de piora no cenário, então um cenário externo mais incerto, com materialização já de alguns impactos, no ambiente doméstico uma atividade mais forte, uma inflação também mais elevada, uma projeção de inflação mais elevada para o final do horizonte e no final de 27 a 3,70, ou seja, uma inflação que nas projeções do Banco Central não convergem para a meta.
Ele também cita uma expectativa de inflação que tem descolado. Embora a ressalte é que a incerteza ao redor dessas expectativas aumentaram e mesmo diante de todos esses pontos de piora ele ainda assim decide por um corte de 0,25% e a justificativa dele é que pela primeira vez ele antecipa uma extensão do horizonte relevante então ele já antecipa dizendo que nas condições atuais lá no primeiro trimestre de 2028 algo que não era divulgado antes e não seria divulgado nesse momento normalmente, a inflação estaria convergindo para a meta e portanto ele poderia fazer esse corte de 25.
Além disso ele não sinaliza uma pausa mais adiante, tudo isso diante de todos esses riscos e dado essa decisão do Banco Central e essa sinalização futura nos leva a acreditar que o Banco Central tem uma preferência nesse momento por continuar no ciclo de corte de juros. A próxima decisão está em aberto, mas ele tem sinalizado ou nos parece sinalizar essa preferência por continuar reduzindo a Selic.
Na nossa avaliação daqui até a próxima reunião em agosto, a gente deve acumular mais notícias negativas, tanto no âmbito de política fiscal, inflação, dados de atividade econômica, ainda sinalizando uma atividade aquecida, uma inflação pressionada e um fiscal ainda em expansão e tudo isso então deve favorecer uma visão no Banco Central por uma pausa no processo de ajuste.
Então hoje a gente tem no cenário uma Selic parando a 14,25, parando no patamar atual até o final do ano, a gente mantém esse cenário, mas reconhecendo uma probabilidade maior, uma chance maior de que ele siga cortando, dada essas sinalizações, mesmo diante desses diversos pontos de piora no balanço de riscos e no cenário— conclui a análise.
. Economista-chefe da MAG Investimentos, Felipe Rodrigo de Oliveira, comenta a decisão do Copom: — Conforme esperado, o Copom cortou a taxa Selic em 0,25 ponto percentual para 14,25% a.a. Importante salientar no comunicado a mudança no balanço de riscos, onde houve o acréscimo de mais um componente de risco altista para o cenário inflacionário, risco esse relacionado a estímulos à demanda agregada, que gerem crescimento acima do potencial, enfraquecendo os canais usuais de transmissão da política monetária.
Também merece destaque a piora da projeção de inflação no horizonte relevante, que mostrou um maior distanciamento da meta, passando de 3,5% para 3,7% (meta de 3,0%). Por fim, outro ponto relevante, foi o parágrafo onde nas simulações do BC, o nível de taxa de juros necessário “para assegurar a convergência da inflação à meta, no atual horizonte relevante, implicaria que as taxas de inflação projetadas a partir do horizonte relevante vigente na próxima reunião estariam situadas abaixo da meta”.
Dessa forma, o Copom entendeu que “trajetórias alternativas garantindo a convergência da inflação à meta no primeiro trimestre de 2028, o horizonte relevante a partir de sua próxima decisão, são compatíveis com a suavização na variação dos agregados macroeconômicos”. Tendo em vista o exposto, entendemos que aumentou a probabilidade de manutenção da Selic estável na reunião de agosto. Esperaremos a ata desta reunião, que será divulgada na próxima terça, para a atualização do nosso cenário de juros— conclui o economista.
. Flávio Serrano, economista-chefe do Banco Bmg comenta o corte da taxa básica de juros em 0,25 pontos percentuais para 14,25% ao ano: — O comitê de política monetária decidiu cortar a taxa básica de juros em 0,25p.p. para 14,25% a.a., conforme o esperado. Em função do nível elevado de incerteza do cenário econômico, a principal dúvida para a decisão de hoje estava na comunicação do BC: qual seria a mensagem apresentada no comunicado? O Banco Central manteve a decisão aberta para o próximo encontro. E para a decisão de hoje, justificou o corte, apesar do maior número de riscos potenciais de alta em relação aos de baixa para a inflação, com o argumento de que o horizonte relevante na próxima reunião do Copom será o primeiro trimestre de 2028, e não mais o quarto trimestre de 2027. Assim, se o BC colocasse a taxa básica no nível necessário para trazer a inflação para a meta no final de 2027, ela já estaria abaixo da meta no início de 2028. Na nossa visão, apesar da piora do cenário inflacionário, o BC deverá cortar novamente a tava básica de juros no encontro de agosto, levando a Selic para 14,00% a.a. Olhando mais adiante, a taxa terminal do clico de calibração dependerá, em grande medida, da evolução das expectativas da pesquisa Focus. Se pararem de piorar, o Copom poderá estender o ciclo. Caso contrário, provavelmente será forçado a interromper o processo. Nosso cenário base contempla o BC parando no nível de 14,00% e voltando a cortar no final de 2026, com a taxa Selic terminando o ano em 13,50% a.a.— conclui a análise.
. Copom reconhece piora do cenário, mas mantém espaço para novos cortes: Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval, avalia a decisão: — O Comitê faz um diagnóstico correto, cita o cenário externo com as suas incertezas, avalia a atividade econômica no primeiro trimestre como forte, devido a itens cíclicos, que é o que a gente realmente viu acontecer, pontua que a inflação corrente piorou, e quando a gente olha o modelo do Banco Central, as projeções dele ficaram um pouco acima daquilo que imaginávamos. Achamos que viria com 3,5 para final de 2027, veio 3,3 e também teve uma Copom em um item extra no balanço de riscos e uma atualização no choque de energia e da parte de El Ninõ, que também vão em direção um pouco pior.
Mas a despeito disso, desse diagnóstico que o Banco Central faz, ele realizou o corte de juros, como a gente imaginava, e diz que, para futuro, quando faz as simulações e assim por diante, dado que o grau de aperto atualmente é bastante intenso, ele teria espaço para seguir com a flexibilização da política monetária. Então, um ponto que chama a atenção, que já era nosso cenário base, que a gente tinha muita dúvida em como que o Banco Central comunicaria isso, é a piora do cenário, mas mesmo assim com espaço para uma flexibilização. E a forma com que o Banco Central encontrou foi esse destaque, falando das simulações e estendendo horizonte relevante paro primeiro trimestre de 2028.
Qual a implicação dessa comunicação em nosso cenário para a taxa de juros para o futuro? Já tínhamos que, no nosso cenário base, o ciclo continuaria num pace de 0,25 em 0,25, o que nos parece que está bastante alinhado com a comunicação que o Banco Central fez hoje, levando a Selic ao final do ano para 13,25. Então, as nossas primeiras impressões do Banco Central da decisão do Copom vai na direção esperada, um banco central que reconhece a piora do cenário, mas que pondera que a despeito disso, dado o alto grau de aperto, ainda tem espaço para seguir com algumas flexibilizações— analisa RafaelCardoso, economisa-chefe do Daycoval.
. Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos comenta a decisão do Copom de manter a Selic em 14,75% ao ano e os sinais transmitidos pelo Banco Central ao mercado: — O Banco Central entregou uma das comunicações mais confusas dos últimos anos.
A decisão de manter a Selic em 14,25% ao ano já era amplamente esperada pelo mercado. O problema não foi a decisão. Foi a mensagem.
A divulgação ocorreu com atraso incomum de aproximadamente meia hora, em um dos momentos mais aguardados do semestre. Em política monetária, forma também é conteúdo. Quando o mercado espera clareza e recebe atraso, o primeiro ativo negociado é a confiança.
O comunicado tenta sustentar simultaneamente três narrativas. A primeira é que a inflação continua distante da meta. A segunda é que os juros já estão suficientemente restritivos. A terceira é que o Banco Central não sabe, neste momento, se precisará voltar a subir juros ou se poderá iniciar cortes adiante. Individualmente, cada argumento faz sentido. Juntos, produziram uma comunicação que deixou mais dúvidas do que respostas.
O cenário doméstico ajuda a explicar a cautela. O IPCA segue acima do teto da meta. As expectativas de inflação permanecem desancoradas. O mercado de trabalho continua surpreendentemente resiliente. A renda cresce, o desemprego segue próximo de mínimas históricas e a atividade econômica desacelera menos do que muitos imaginavam. Em outras palavras: a economia brasileira continua forte demais para quem gostaria de declarar vitória contra a inflação.
Mas existe um componente ainda mais relevante. Pela primeira vez em muitos meses, o Banco Central passou a dedicar parte importante de sua comunicação ao risco fiscal. Isso não é detalhe técnico. É o centro da discussão. Quando o mercado questiona a trajetória da dívida pública, os juros de longo prazo sobem independentemente da vontade do Copom. O resultado é que a política monetária precisa trabalhar mais para produzir o mesmo efeito.
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve também optou pela manutenção dos juros, preservando a taxa entre 3,50% e 3,75%. O discurso de Jerome Powell foi firme ao reconhecer que a atividade continua sólida, o mercado de trabalho permanece saudável e a inflação ainda está acima do objetivo de 2%. A diferença é que o Fed transmitiu uma mensagem simples: ainda não há evidências suficientes para cortar juros.
No Brasil, a leitura ficou mais nebulosa. O Banco Central reconhece que a inflação continua elevada, admite que as expectativas seguem desancoradas, reforça preocupação com o ambiente fiscal, mas evita sinalizar qual será o próximo passo. É uma postura compreensível diante do nível de incerteza global, especialmente após a escalada das tensões no Oriente Médio. O problema é que mercados não precificam apenas dados. Eles precificam direção.
O que ficou da reunião não foi uma mensagem de aperto nem de alívio. Ficou a sensação de que o Banco Central acredita ter chegado ao destino, mas ainda não sabe se precisará voltar alguns quilômetros na estrada.
Para investidores, a conclusão é menos dramática do que parece. O Brasil continua oferecendo uma das maiores taxas reais de juros do mundo. A renda fixa segue carregando retornos historicamente elevados. O desafio não está em encontrar rendimento. Está em interpretar corretamente quando começará a próxima grande mudança de ciclo.
E talvez seja exatamente essa a mensagem que o mercado procurava na noite de ontem e não encontrou— conclui a análise Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos .
. Copom reduz Selic para 14,25% e sinaliza possível encerramento do ciclo de cortes: — Banco Central promove ajuste final nos juros, mas mantém discurso cauteloso diante da inflação e do cenário externo.
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano. A medida era esperada por parte do mercado e pode representar o último movimento do atual ciclo de flexibilização monetária.
Apesar da redução, o ambiente econômico segue marcado por desafios importantes. As expectativas de inflação permanecem acima da meta perseguida pelo Banco Central, enquanto o cenário internacional continua cercado de incertezas, especialmente diante das tensões geopolíticas no Oriente Médio e das dúvidas sobre os próximos passos da política monetária dos Estados Unidos.
—A decisão de hoje não deve ser interpretada como o início de um ciclo mais intenso de cortes. Pelo contrário, a redução de 0,25 ponto reforça a percepção de que o Banco Central está concluindo esse processo de forma gradual e bastante cautelosa— afirma Paulo Cunha, CEO da iHUB Investimentos.
Segundo o executivo, a autoridade monetária busca equilibrar o estímulo à atividade econômica com a necessidade de garantir a convergência da inflação para a meta nos próximos anos.
—O cenário atual ainda exige atenção. As expectativas de inflação seguem desancoradas e os riscos externos permanecem elevados. Por isso, a tendência é que o Banco Central adote um tom firme no comunicado, indicando que novas reduções dependerão de uma melhora consistente dos indicadores —explica.
Para os investidores, o foco agora passa a ser a comunicação da autoridade monetária. As sinalizações sobre a trajetória futura dos juros terão impacto direto sobre os mercados de renda fixa, câmbio e bolsa, além de influenciarem as decisões de consumo e investimento no segundo semestre.
—O comunicado deve deixar claro que o espaço para novos cortes está bastante limitado. O mercado buscará entender se este foi efetivamente o último ajuste do ciclo ou apenas uma pausa antes de futuras decisões —conclui Cunha.
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