aplicacao-botox

15/06/2026

Estética injetável impulsiona Brasil ao topo dos tratamentos não cirúrgicos

Com mais de 351 mil aplicações de toxina botulínica e 176 mil de ácido hialurônico em 2024, o país consolida posição entre os maiores mercados do setor.

O Brasil realizou 3.123.758 procedimentos estéticos em 2024, entre cirúrgicos e não cirúrgicos, segundo o relatório anual da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS).

O número coloca o país no topo do ranking mundial de cirurgias plásticas e em segundo lugar global nas intervenções minimamente invasivas, atrás apenas dos Estados Unidos.

Por trás desse volume está uma mudança de comportamento que o mercado vinha observando há anos. Os procedimentos que antes pertenciam ao universo das celebridades migraram para consultórios dermatológicos e clínicas especializadas, alcançando um público mais amplo e mais jovem.

A injeção de substâncias como a toxina botulínica e o ácido hialurônico deixou de ser exceção e passou a integrar a rotina de cuidados de boa parte dos brasileiros.

O avanço tem peso econômico. O setor movimenta consultórios, indústria farmacêutica, importadores de insumos e uma cadeia de serviços que cresce em ritmo próprio.

Ao mesmo tempo, a expansão acelerada trouxe um problema que o mercado ainda tenta resolver: a multiplicação de estabelecimentos sem qualificação para acompanhar a demanda.

Os números que explicam o tamanho do mercado — O relatório da ISAPS referente a 2024 registrou 2.354.513 cirurgias plásticas estéticas no Brasil, o maior volume do mundo, à frente de Estados Unidos, Japão e México. Somadas as intervenções não cirúrgicas, o total chegou a 3.123.758 procedimentos no país.

No grupo das intervenções não cirúrgicas, a toxina botulínica lidera com folga. Foram 351.488 aplicações em 2024, o equivalente a 45,7% desse tipo de procedimento.

O ácido hialurônico aparece em seguida, com 176.069 aplicações e participação de 22,9%. Juntas, as duas substâncias respondem por mais de dois terços de tudo o que se aplica fora do centro cirúrgico.

Os dados acompanham um movimento global. No mundo, a ISAPS contabilizou mais de 17,4 milhões de cirurgias e 20,5 milhões de procedimentos não cirúrgicos em 2024, com crescimento de 42,5% no acumulado de quatro anos.

A toxina botulínica somou 7,8 milhões de aplicações no planeta e seguiu como o procedimento não cirúrgico mais realizado, mesmo com recuo em relação ao ano anterior.

Foram mais de 6,6 milhões de mulheres e 1,2 milhão de homens em todo o mundo, o que mostra que a procura ultrapassou a divisão por gênero.

Por que a toxina botulínica domina a procura — A liderança da toxina botulínica tem explicação técnica. O produto age relaxando de forma seletiva os músculos responsáveis pelas rugas dinâmicas, aquelas que se formam com o movimento da face, como as linhas da testa e ao redor dos olhos.

O efeito aparece em poucos dias e dura, em média, quatro meses, o que torna a aplicação um compromisso periódico para quem deseja manter o resultado.

A versatilidade ampliou o alcance do tratamento. Além do uso estético, a substância é aplicada em casos de sudorese excessiva, bruxismo e enxaqueca crônica, o que a aproxima também da medicina funcional. Essa combinação de finalidades ajuda a explicar por que a demanda se mantém alta entre públicos de perfis distintos.

A escolha do profissional, porém, pesa no resultado. De acordo com a especialista em toxina botulínica em Goiânia, Dra. Mariana Cabral, doses conservadoras e marcação anatômica precisa são o que separam um resultado natural de um rosto com expressões travadas. O objetivo da técnica atual não é eliminar o movimento, mas suavizar marcas sem apagar a expressão.

Esse cuidado ganhou relevância à medida que o procedimento se popularizou. A busca por resultados discretos, conhecida no setor como beleza natural, virou padrão de qualidade e afastou a estética dos exageros que marcaram a fase inicial dos injetáveis. O paciente que antes queria um efeito visível passou a pedir o contrário: que ninguém perceba que algo foi feito.

O ácido hialurônico e a lógica da reposição — Se a toxina botulínica atua sobre o movimento, o ácido hialurônico trabalha com volume. A substância é um componente natural da pele, onde se concentra cerca de 56% do total presente no corpo, e funciona como uma espécie de reservatório de água que mantém o tecido hidratado e firme.

A comparação usada por dermatologistas é direta: se o colágeno são os tijolos da pele, o ácido hialurônico é o material que preenche os espaços e mantém tudo estável.

A produção natural começa a cair a partir dos 25 anos. Com o tempo, a perda se traduz em rugas, redução de volume facial e ressecamento.

O preenchimento injetável repõe parte dessa substância em regiões específicas, das maçãs do rosto ao contorno da mandíbula, dos lábios às olheiras. A lógica deixou de ser apenas corretiva e passou a incluir a reposição do volume perdido com a idade.

Segundo levantamento sobre as aplicações injetáveis de ácido hialurônico, o Brasil ocupa o segundo lugar mundial em volume desse procedimento. O mesmo material aponta que o perfil do paciente mudou: parte expressiva da procura hoje vem de pessoas entre 30 e 40 anos, com intenção preventiva, e não apenas de quem busca reverter sinais já instalados.

Um diferencial técnico ajuda a explicar a confiança no produto. Diferentemente de preenchedores permanentes, como o PMMA, o ácido hialurônico é absorvido pelo organismo ao longo de seis a 18 meses e pode ser dissolvido com uma enzima específica em caso de complicação ou resultado insatisfatório.

Estudo publicado no Brazilian Journal of Health Review, a partir da análise de 43 publicações científicas, classificou a substância como geralmente segura, com efeitos adversos em sua maioria transitórios e de gravidade leve a moderada.

A expansão que atraiu clínicas clandestinas — O crescimento da demanda teve um efeito colateral. A facilidade aparente dos procedimentos injetáveis atraiu profissionais sem formação adequada e estabelecimentos sem estrutura para atender uma emergência. Quando a aplicação dá errado, o problema raramente está no produto, e sim em quem o aplicou.

Os números da fiscalização ilustram o quadro. Dados do Instituto Municipal de Vigilância Sanitária do Rio de Janeiro apontam que as interdições de clínicas clandestinas de estética cresceram 600% entre 2021 e 2023.

Complicações como edema, hematomas, nódulos, infecções e, em casos graves, obstrução vascular estão descritas na literatura médica e se concentram em aplicações feitas fora de ambiente qualificado.

A Sociedade Brasileira de Dermatologia e a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica convergem em um ponto: quando o procedimento é feito por profissional habilitado, com produto registrado na Anvisa e em local adequado, os riscos são baixos e os resultados, previsíveis.

O alerta das entidades mira o ponto mais frágil da expansão, que é a velocidade com que novos prestadores entraram no mercado sem o preparo correspondente.

O que o paciente deve verificar antes de decidir — A primeira recomendação dos especialistas é checar o registro do profissional no Conselho Regional de Medicina e o título de especialista reconhecido pela SBD ou pela SBCP. A consulta é simples e pode ser feita pela internet, nos sites dos conselhos regionais.

Na avaliação, o profissional deve analisar a estrutura óssea, a qualidade da pele e o grau de perda de volume antes de propor qualquer intervenção.

Não existe protocolo único. O tipo de gel, a concentração e a região de aplicação variam conforme a anatomia de cada rosto, e a tentativa de reproduzir um rosto visto nas redes sociais costuma render resultados artificiais.

A manutenção também entra na conta. Como os injetáveis são absorvidos pelo organismo, os resultados não são permanentes, e o custo se acumula ao longo do tempo.

Profissionais da área reforçam que o preenchimento e a toxina botulínica não substituem cuidados básicos, como fotoproteção diária, hidratação e acompanhamento médico regular.

Um mercado que amadurece — O setor de estética no Brasil deixou de crescer apenas em volume. A mudança mais relevante está no comportamento do consumidor, que passou a pesquisar, comparar e cobrar segurança antes de marcar um procedimento. O paciente de hoje chega ao consultório com perguntas que há dez anos não fazia.

Os números da ISAPS indicam que a tendência deve continuar, com preferência por intervenções de menor risco, recuperação rápida e resultado previsível. O ácido hialurônico e a toxina botulínica se encaixam nessa lógica por serem reversíveis, versáteis e de aplicação relativamente simples quando feita por mãos qualificadas.

O desafio que resta é de ordem prática. Cabe ao mercado e às entidades de fiscalização garantir que a expansão da demanda venha acompanhada de qualificação profissional na mesma proporção.

Para o paciente, a régua continua sendo a mesma de qualquer decisão de saúde: informação, credenciais verificadas e expectativas realistas.