O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu em reunião no dia 29 de abril (quarta-feira) reduzir a taxa básica de juros da economia, a Selic, em 0,25 ponto percentual, —de 14,75% para 14,50% ao ano—.
De acordo com o Comitê, o ambiente externo permanece incerto, em função da indefinição a respeito da duração, extensão, e desdobramentos dos conflitos geopolíticos no Oriente Médio, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities.
Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores segue apresentando, conforme esperado, trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, enquanto o mercado de trabalho ainda mostra sinais de resiliência. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes aceleraram, distanciando-se adicionalmente da meta para a inflação.
— As expectativas de inflação para 2026 e 2027 apuradas pela pesquisa Focus permanecem em valores acima da meta, situando-se em 4,9% e 4,0%, respectivamente. A projeção de inflação do Copom para o quarto trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária, situa-se em 3,5% no cenário de referência— ressalta o Comitê.
— Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, permanecem mais elevados que o usual, perante a indefinição acerca dos conflitos no Oriente Médio. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se (i) uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado, com horizontes mais longos incorporando impactos potenciais de segunda ordem de restrições de oferta de petróleo e seus derivados; (ii) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais positivo; e (iii) uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada. Entre os riscos de baixa, ressaltam-se (i) uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada do que a projetada, tendo impactos sobre o cenário de inflação; (ii) uma desaceleração global mais pronunciada decorrente dos choques de comércio e do petróleo, e de um cenário de maior incerteza; e (iii) uma redução nos preços das commodities com efeitos desinflacionários— continua.
— O Comitê segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza. Os indicadores correntes de atividade econômica mostram recuperação em relação ao último trimestre de 2025, mantendo-se consistentes com uma trajetória de desaceleração no acumulado de 2026, enquanto o cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, e pressões no mercado de trabalho—complementa.
— O Comitê considera os impactos dos conflitos no Oriente Médio de forma prospectiva, em particular seus efeitos sobre a cadeia de suprimentos global e os preços de commodities que afetam direta e indiretamente a inflação no Brasil. Nesse momento, as projeções de inflação apresentam distanciamento adicional em relação à meta no horizonte relevante para a política monetária. Ao mesmo tempo, a incerteza acerca dessas projeções foi elevada consideravelmente, em função da falta de clareza sobre a duração dos conflitos e de seus efeitos sobre os condicionantes dos modelos de projeção analisados. O Comitê julgou apropriado dar sequência ao ciclo de calibração da política monetária, na medida em que o período prolongado de manutenção da taxa básica de juros em patamar contracionista propiciou evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica, criando condições para que ajustes no ritmo e extensão dessa calibração, à luz de novas informações, sejam possíveis de forma a assegurar o nível compatível com a convergência da inflação à meta— frisa o Copom.
— O Copom decidiu reduzir a taxa básica de juros para 14,50% ao ano e entende que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego—observa.
— No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo —conclui.
Para esta decisão, votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Gabriel Muricca Galípolo (presidente), Ailton de Aquino Santos, Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Izabela Moreira Correa, Nilton José Schneider David e Paulo Picchetti.
. Corte de 0,25 pontos percentuais na Selic preserva a Renda fixa e eleva cautela com Ativos, dizem analistas: — A sequência de cortes modestos indica mais uma calibração de política do que um ciclo claro de estímulo. Os efeitos sobre crédito, consumo e atividade tendem a ser contidos no curto prazo, funcionando mais como sinalização do que como impulso efetivo— aponta Peterson Rizzo, gerente de R.I da Multiplike.
— A redução dos juros pelo Copom e a manutenção pelo Fed nesta Superquarta sinalizam que o ciclo começa a virar, com a inflação mostrando sinais mais consistentes de desaceleração. Ainda assim, é um movimento inicial, feito com cautela, indicando uma transição gradual de um ambiente restritivo para um cenário mais estimulativo. Na prática, isso tende a destravar o crédito aos poucos, melhorar o consumo e dar fôlego à atividade econômica. Para o mercado de FIDCs, o impacto é duplo: por um lado, o carrego tende a diminuir ao longo do tempo; por outro, a melhora nas condições econômicas reduz o risco de crédito e amplia a demanda por financiamento, criando um ambiente mais favorável para originação e expansão das operações. O ponto de atenção segue no cenário externo. A escalada do conflito no Oriente Médio e a alta do petróleo podem pressionar novamente a inflação, o que pode limitar ou desacelerar o ritmo de cortes. Isso reforça que, mesmo com o início da queda de juros, o ciclo deve ser conduzido com prudência e sujeito a revisões ao longo do caminho—releva Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos.
—O cenário atual mostra um ciclo econômico ainda frágil no Brasil, com o Copom já tendo iniciado a flexibilização, mas operando sob um ambiente de inflação resiliente e riscos externos elevados. A sequência de cortes modestos indica mais uma calibração de política do que um ciclo claro de estímulo. Os efeitos sobre crédito, consumo e atividade tendem a ser contidos no curto prazo, funcionando mais como sinalização do que como impulso efetivo. A inflação ainda pressionada limita uma transmissão mais forte da política monetária. A escalada do conflito no Oriente Médio, ao manter o petróleo em níveis elevados, adiciona assimetria relevante ao cenário. Isso pode dificultar a manutenção das reduções da Selic e reforçar uma postura ainda mais cautelosa nos próximos meses — adiantaPeterson Rizzo, gerente de R.I da Multiplike.
—A decisão de corte de juros pelo Copom e manutenção pelo Fed indica que o ciclo começa a entrar em uma fase mais construtiva, com sinais mais consistentes de desaceleração inflacionária. Ainda assim, é um movimento inicial e calibrado, mostrando que os bancos centrais seguem atentos a riscos que podem interromper esse processo. Para a economia, o efeito tende a ser gradual, com melhora nas condições de crédito, estímulo ao consumo e retomada mais consistente da atividade ao longo do tempo. No crédito estruturado, isso abre espaço para aumento da demanda por capital e maior dinamismo nas operações, embora o retorno nominal comece a se ajustar à medida que as taxas recuam. Por outro lado, o cenário externo segue como variável crítica. A alta do petróleo, impulsionada por tensões no Oriente Médio, pode reintroduzir pressão inflacionária e levar a uma condução mais lenta dos cortes. Isso reforça a importância de estruturas de crédito bem montadas, com foco em previsibilidade e proteção, em um ambiente que ainda combina oportunidade com incerteza — frisa Gustavo Assis, CEO da Asset Bank.
—O corte de 0,25 ponto percentual na Selic, de 14,75% para 14,50%, confirma que o Banco Central segue em seu ciclo de calibração, ainda que em ritmo conservador exigido por um ambiente inflacionário que não dá folga, com o IPCA-15 de abril em 0,89% e a projeção do IPCA de 2026 já em 4,86%, acima do teto da meta de 4,5%. O comunicado deve manter um tom mais duro do que o da reunião anterior, sinalizando cautela sobre os próximos passos sem comprometer nada para junho, o que é tecnicamente correto diante de um petróleo Brent acima de US$ 112 por barril e de um Estreito de Ormuz praticamente fechado, rota por onde passa cerca de 20% do comércio global de energia. Para o crédito e o consumo, a transmissão de um corte dessa magnitude é lenta, porque os juros reais no Brasil ainda seguem muito elevados, mas o sinal importa e sustenta a confiança de empresas e famílias sobre a trajetória da taxa. Para o investidor, o momento ainda favorece renda fixa atrelada ao IPCA e pós-fixados, com a bolsa reagindo positivamente em setores mais sensíveis a juros, como varejo e construção, mas sem uma reprecificação mais agressiva do Ibovespa enquanto o canal de crédito permanecer restritivo— acentua André Matos, CEO da MA7 Negócios.
—A decisão do Copom de reduzir a Selic em 0,25 p.p., confirma a mudança de ritmo do ciclo de flexibilização, agora mais cauteloso diante de um ambiente mais adverso, com inflação ainda pressionada, especialmente por commodities e serviços, e um cenário externo mais restritivo. As notícias de hoje reforçam que o mercado já havia ajustado expectativas para cortes menores, refletindo a combinação de inflação resiliente, incerteza fiscal e juros elevados nos EUA, o que limita o espaço para afrouxamento mais agressivo. Na prática, o corte tem menos relevância pelo movimento em si e mais pela sinalização: já que o Banco Central mantém o ciclo, mas condicionado aos dados, indicando uma trajetória mais lenta e incerta para a queda dos juros, o que preserva a atratividade da renda fixa e exige maior seletividade em ativos de risco em um contexto de custo de capital ainda elevado— enfatiza Sidney Lima, Analista da Ouro Preto Investimentos.
—A manutenção de juros pelo Fed, junto ao corte pelo Copom nesta Superquarta indica uma mudança de direção no ciclo, com a inflação dando sinais mais consistentes de arrefecimento. Ainda é um movimento inicial, mas que sugere transição de um ambiente restritivo para um cenário mais favorável à retomada. Para o investidor, isso altera a lógica de alocação. A renda fixa tende a perder parte da atratividade ao longo do tempo, enquanto a renda variável ganha espaço, especialmente em estratégias de longo prazo. Nesse contexto, ETFs se tornam uma ferramenta eficiente para capturar essa mudança, oferecendo diversificação e exposição ao crescimento com menor risco específico. Na economia, o impacto é de melhora gradual no crédito, estímulo ao consumo e recuperação da atividade. No entanto, o cenário externo ainda exige atenção. A alta do petróleo, influenciada pelo conflito no Oriente Médio, pode pressionar a inflação e desacelerar o ritmo de cortes, reforçando a importância de uma estratégia equilibrada e de longo prazo — sugere Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações.
— A decisão de corte de juros pelo Copom e manutenção pelo Fed sinaliza que o ciclo começa a virar, com a inflação dando espaço para uma política monetária menos restritiva. Ainda é um movimento inicial, mas já indica um ambiente mais favorável à retomada de crescimento. Para empresas e startups, isso tende a reduzir o custo de capital e reativar o apetite por investimento, com impacto positivo sobre crédito, consumo e atividade ao longo do tempo. O dinheiro volta a circular com mais força, e projetos que estavam represados ganham viabilidade. Mas esse cenário ainda não está garantido. A alta do petróleo, impulsionada pelo conflito no Oriente Médio, pode reverter parte desse alívio inflacionário e desacelerar o ritmo de cortes. Isso reforça que o ciclo de queda de juros deve ser gradual e exige das empresas uma combinação de estratégia, eficiência e timing para capturar as oportunidades— reforça João Kepler, CEO da Equity Group.
Flávio Serrano, economista-chefe do Banco Bmg analisa a decisão do Copom do Banco Central de cortar a taxa Selic em 0,25 pontos percentuais. O Copom cortou a taxa básica de juros para 14,50 ao ano, no dia 29 de abril (quarta-feira).
— O Banco Central decidiu cortar a taxa básica de juros em 0,25 pontos percentuais para 14,50% ao ano conforme amplamente esperado pelos agentes. As maiores dúvidas estavam relacionadas à comunicação, principalmente em relação ao balanço de riscos para o cenário inflacionário. O Banco Central decidiu manter o balanço de riscos inalterado, apenas adicionando os potenciais efeitos (tanto de alta como de baixa) do choque do petróleo sobre a inflação. A mensagem do Comitê seguiu muito parecida com a mensagem da reunião anterior, reforçando serenidade e cautela na condução da política monetária. Os próximos passos do processo de calibração da taxa básica de juros deverão incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo. A decisão e o comunicado de hoje não afetam nossa visão sobre o cenário mais provável para a taxa de juros. Na nossa avaliação, o BC seguirá cortando de 0,25 pontos percentuais em 0,25 pontos percentuais enquanto o cenário permitir e a Selic deverá encerrar o ano perto de 13,00% ao ano— conclui Flávio Serrano, economista-chefe do Banco Bmg, em sua análise.
. CBIC: — Mesmo com queda da Selic, juros elevados comprometem expansão do setor e reduz o ritmo dos investimentos para o crescimento econômico — A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) considera positiva a nova redução da taxa Selic anunciada pelo Comitê de Política Monetária (Copom), que passou de 14,75% ao ano para 14,50% ao ano. Trata-se da segunda queda consecutiva da taxa básica de juros, em um cenário ainda marcado por fortes incertezas internacionais, pressão inflacionária e elevada volatilidade econômica.
Apesar do movimento de redução, a taxa de juros permanece em um patamar muito elevado para a realidade da economia brasileira e continua sendo um dos principais entraves ao avanço do investimento produtivo no País. Juros altos desestimulam a expansão da atividade econômica, limitam novos projetos, encarecem o crédito e direcionam recursos para o mercado financeiro em detrimento do setor produtivo.
A Construção Civil, setor estratégico para o desenvolvimento nacional, sente diretamente os efeitos desse cenário. O ambiente de juros elevados compromete a capacidade de expansão do setor e reduz o ritmo dos investimentos necessários para sustentar o crescimento econômico do País.
A CBIC considera que o Brasil precisa atingir patamares de investimento mais próximos da média global, de 25,6%, mas o percentual ficou em 16,8% no ano passado. Esse cenário evidencia a necessidade de políticas econômicas que estimulem o investimento produtivo e garantam condições mais favoráveis para a retomada do crescimento sustentado.
Embora a inflação continue exigindo atenção, especialmente diante do aumento dos preços de alimentos, transportes e das incertezas geopolíticas internacionais, é fundamental que o País avance gradualmente para um ambiente de juros mais compatível com suas necessidades de desenvolvimento.
A continuidade do ciclo de redução da Selic é importante, mas o Brasil precisa acelerar a construção de um cenário macroeconômico que favoreça o investimento, a produção e a competitividade. A construção civil seguirá contribuindo de forma decisiva para esse processo, desde que existam condições adequadas para ampliar os investimentos e impulsionar o crescimento econômico sustentável— conclui a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) .
. Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, analisa as decisões do Copom e Fed: — O dia 29 de abril(quarta-feira), expôs, com rara clareza, o desalinhamento entre as duas maiores engrenagens monetárias do mundo. Enquanto o Brasil iniciou um ajuste técnico, quase cirúrgico, reduzindo a Selic para 14,50% ao ano, o Federal Reserve optou pela inércia. Não por convicção absoluta, mas por divisão interna. E o mercado, como sempre, leu além do comunicado.
No Brasil, o corte de 0,25 ponto percentual veio dentro do esperado, mas carregado de um recado mais relevante que o número. O Banco Central deixou explícito que não há espaço para entusiasmo. A inflação segue acima da meta, com expectativas em 4,9% para 2026 e 4,0% para 2027, enquanto o próprio Copom projeta 3,5% apenas no fim de 2027. Em outras palavras, cortar não significa afrouxar. Significa calibrar.
A decisão foi unânime, mas o tom foi conservador. O Banco Central reconhece desaceleração da atividade, porém mantém o radar ligado para três vetores críticos: inflação de serviços resiliente, câmbio pressionado e risco geopolítico contaminando commodities. O Brasil reduz juros com o pé no freio. E isso explica por que ainda carrega um dos maiores juros reais do planeta.
Do outro lado, nos Estados Unidos, o Federal Reserve manteve a taxa entre 3,50% e 3,75%. Mas o dado que realmente importou não foi a manutenção. Foi a divisão. O maior número de votos dissidentes em mais de três décadas sinaliza um Fed fragmentado em um momento em que o mundo exige direção. Quando o consenso desaparece, a política monetária deixa de ser previsível e passa a ser interpretativa.
A leitura do mercado foi imediata. Se o Fed está dividido, o risco de erro aumenta. E se o risco de erro aumenta, o prêmio exigido sobe. Isso ajuda a explicar o movimento global de aversão ao risco observado no dia. Bolsas caíram, curvas de juros abriram e o dólar voltou a pressionar moedas emergentes.
O pano de fundo é ainda mais delicado. O petróleo disparou, com o Brent superando US$ 120 por barril e o WTI avançando mais de 8%. Esse movimento não é apenas uma variável de commodities. Ele é um vetor direto de inflação global. Energia mais cara contamina cadeias produtivas, pressiona custos e limita o espaço de cortes de juros no mundo inteiro.
No Brasil, o impacto foi claro. O Ibovespa caiu 2,05%, encerrando aos 184.750 pontos, apagando ganhos recentes e registrando o sexto pregão consecutivo de queda. A Vale recuou 5,87%, pressionada por resultados fracos, enquanto o Santander caiu 2,65% após balanço abaixo das expectativas. Nem mesmo a alta da Petrobras, impulsionada pelo petróleo, foi suficiente para sustentar o índice.
O câmbio também reagiu. O dólar subiu 0,4%, voltando ao patamar de R$ 5. O movimento não é isolado. Ele reflete um reposicionamento global diante de incertezas simultâneas. Geopolítica, juros americanos indefinidos e inflação persistente criam um ambiente onde o capital exige mais proteção e menos exposição.
O que emerge desse cenário não é um simples ajuste de mercado. É uma mudança de regime. Bancos centrais não estão mais conduzindo o ciclo com clareza linear. Estão reagindo a choques simultâneos, muitas vezes conflitantes. E nesse ambiente, o erro mais comum não é escolher o ativo errado. É interpretar errado o contexto.
No fim, o mercado não está tentando adivinhar quem vai cortar juros primeiro. Está tentando entender quem ainda tem controle. E, curiosamente, essa resposta nunca esteve tão dispersa— analisa Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos.
. Copom e Fed, analisa economista do banco BV: — Essa decisão pode ser entendida como mais dovish, no sentido de que ela mantém a sinalização de um ajuste que vai continuar, ainda que com calma e serenidade, como diz o Banco Central, o que deve se traduzir em um ritmo de 25. Isso deve continuar ao menos por algumas reuniões. O que a gente lê aqui do comunicado é que o Banco Central entende o choque atual como temporário. Afinal, as projeções dele de inflação para o final do horizonte, final do quarto trimestre de 2027, subiram pouco, para 3,5%.
Então o Banco Central, grosso modo, está transparecendo ali, que entende que esse choque é temporário. E em função do grande. Do alto nível de juros ou da distância ali para o que ele possa considerar um juro neutro ser muito grande, ele tem bastante espaço para fazer esse ajuste, essa calibração ao longo desse processo. Então por entender que o choque é temporário e que tem bastante espaço para fazer esse ajuste, o banco central fica confortável em seguir nesse ritmo de ajuste pelas próximas reuniões e é isso que ele sinalizou.
Acho que isso reduz a expectativa de parte do mercado de que ele pudesse ser mais cauteloso nesse momento, seja sinalizando uma pausa ou seja sinalizando que talvez só a próxima reunião e não para frente, mas ele optou pela alternativa de sinalizar que esse ajuste. Deve continuar ainda por bastante tempo, ainda que nesse ritmo mais moderado. Nesse cenário a gente mantém a nossa avaliação de que a taxa de juros deve continuar sendo reduzida em 25 pontos por reunião até o final do terceiro trimestre para então só acelerar e ir para um ritmo de 50 pontos, encerrando o ano em 12,5. Eu fico à disposição para qualquer dúvida.
Federal Reserv (Fed) — A decisão em si não trouxe surpresa, mas o que chamou atenção foi o dissenso , o fato de quatro diretores não terem concordado com a decisão final. Um deles, o Miran, indicado pelo Trump, chegou a sugerir um corte de 25 pontos-base, enquanto o Fed optou por manter a taxa. Além disso, outros três diretores se posicionaram contra o viés de baixa indicado pelo Fed. Ou seja, mesmo com o cenário atual, conflito no Oriente Médio e pressões sobre o preço do petróleo, o comitê ainda sinaliza um viés de cortes de juros, como sugerido pela maioria.
Por um lado, isso pode ser interpretado como um Fed mais pacífica— ainda indicando a possibilidade de ajustes adicionais, mantendo a expectativa de algum corte de juros ao longo do ano. Por outro lado, o movimento também revela preocupações relevantes dentro do comitê. Há uma leitura de que esse viés mais dovish pode estar otimista demais. À medida que a crise no Oriente Médio avança e novas informações sobre seus impactos na inflação dos Estados Unidos surgem, o Fed pode adotar uma postura mais cautelosa.
Nesse cenário, não se descarta a possibilidade de manutenção da taxa ao longo do ano, contrariando o que vinha sendo precificado pelo mercado até então. Em resumo, é uma decisão que reflete o momento de incerteza global. Mostra que parte dos diretores já não está tão confortável com o cenário atual.
Com a entrada do Warch como presidente do Fed, o mercado tende a ficar mais apreensivo em relação ao direcionamento da política monetária. O próprio Powell sempre foi um presidente que buscou consenso dentro do comitê — e, curiosamente, sua última reunião apresentou um dos maiores níveis de dissenso em mais de uma década. Isso coloca um desafio importante para o próximo presidente: lidar com um ambiente altamente volátil e, ao mesmo tempo, com um comitê dividido sobre qual deve ser a reação do Fed neste momento— conclui a análise, Carlos Lopes, economista do banco BV.