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09/04/2026

Apagões no Brasil: como a tecnologia pode transformar a gestão das redes elétricas

Eventos climáticos extremos, como tempestades e ventos intensos, têm sido frequentemente apontados como os principais responsáveis pelas interrupções no fornecimento de energia no Brasil. Embora esses fatores de fato exerçam pressão crescente sobre a infraestrutura, eles não explicam, por si só, a recorrência e a duração de muitos apagões. O problema é mais profundo e, em grande parte, estrutural.

Ao longo dos últimos anos, o setor elétrico brasileiro evoluiu em diversos aspectos, mas ainda enfrenta um desafio central: a falta de visibilidade completa e integrada sobre a rede. Em um sistema de distribuição de energia, saber exatamente onde estão os ativos, qual é o estado de cada componente e como a rede se comporta em tempo real não é apenas uma vantagem operacional — é uma necessidade crítica.

Quando essa visibilidade não existe, as concessionárias operam de forma reativa. Em vez de antecipar falhas e agir preventivamente, acabam respondendo a eventos já em curso, o que aumenta o tempo de interrupção e amplia os impactos para a população.

O gargalo invisível: sistemas que não conversam — Um dos principais entraves para essa visibilidade está na fragmentação tecnológica. Muitas concessionárias ainda operam com múltiplos sistemas, como plataformas geoespaciais, sistemas de gestão da distribuição, sistemas corporativos e ferramentas de monitoramento que não se comunicam de forma eficiente.

Esse cenário cria silos de informação que dificultam a tomada de decisão. Dados importantes ficam dispersos, inconsistentes ou inacessíveis no momento em que são mais necessários. O resultado é um processo mais lento para identificar a origem de falhas, mobilizar equipes e restabelecer o serviço.

Na prática, isso significa que o tempo de resposta a uma interrupção não depende apenas da complexidade do problema, mas também da capacidade da organização de acessar e interpretar informações críticas rapidamente.

Tecnologia como base da operação — Nesse contexto, a tecnologia deixa de ser um suporte e passa a ocupar o centro da operação. Sistemas de Informação Geográfica (GIS) desempenham um papel fundamental ao oferecer uma representação precisa e estruturada da rede elétrica.

Esses sistemas permitem mapear cada elemento da infraestrutura (postes, transformadores, cabos) e entender como todos esses componentes se conectam. Quando bem implementados, tornam-se a base sobre a qual outras soluções operacionais se apoiam.

A integração do GIS com sistemas de monitoramento em tempo real e plataformas analíticas amplia ainda mais essa capacidade. Com dados atualizados e conectados, as concessionárias conseguem detectar anomalias antes que se transformem em falhas, priorizar atendimentos com base em critérios geográficos e operacionais e reduzir significativamente o tempo de resposta a incidentes.

O papel da inteligência artificial — A evolução recente da inteligência artificial adiciona uma nova camada de capacidade a esse ecossistema. No entanto, seu impacto está diretamente condicionado à qualidade dos dados disponíveis. Sem uma base consistente, precisa e integrada, o potencial da IA é limitado.

Quando essa base existe, a inteligência artificial passa a atuar como um multiplicador de eficiência. É possível identificar padrões que não seriam perceptíveis em análises tradicionais, prever falhas com base em histórico de operação e condições ambientais, e otimizar a alocação de recursos durante eventos críticos.

Aplicações práticas incluem a antecipação de falhas em equipamentos, a definição de rotas mais eficientes para equipes de manutenção e a análise simultânea de múltiplas variáveis para apoiar decisões em tempo real. Mais do que automatizar processos, a IA amplia a capacidade humana de interpretar dados complexos e agir com maior precisão.

Lições de mercados mais maduros — Experiências internacionais mostram que o uso consistente de tecnologia pode transformar significativamente a gestão de redes. Em mercados como Canadá e Estados Unidos, o GIS é tratado como o núcleo da operação, e não como uma ferramenta secundária.

As decisões de manutenção, expansão e resposta a emergências são baseadas em dados georreferenciados confiáveis, e a integração entre sistemas é uma prioridade. Plataformas diferentes operam de forma conectada, permitindo que informações circulem com fluidez entre áreas técnicas e operacionais.

Esse nível de maturidade tecnológica não elimina completamente as falhas, mas reduz sua frequência e, principalmente, o tempo necessário para resolvê-las.

O desafio brasileiro— No Brasil, o cenário é marcado por um contraste. De um lado, há profissionais altamente qualificados e uma matriz energética diversificada. De outro, persistem desafios relacionados à cultura organizacional, à integração tecnológica e ao investimento.

Ainda é comum que sistemas geoespaciais sejam tratados apenas como ferramentas de mapeamento e não como plataformas estratégicas de gestão de ativos e inteligência operacional. Além disso, a integração entre sistemas de diferentes fornecedores exige conhecimento especializado, o que nem sempre está disponível internamente.

A questão do investimento também é relevante, mas precisa ser analisada sob outra perspectiva. O custo das interrupções — em multas regulatórias, perda de receita e impacto na satisfação do consumidor — frequentemente supera o custo de adoção de tecnologias mais avançadas.

Nesse sentido, o maior desafio não é a inexistência de soluções, mas a capacidade de implementá-las de forma eficiente e integrada.

Um caminho possível — A tecnologia necessária para transformar a gestão das redes elétricas já existe e vem sendo utilizada com sucesso em diferentes partes do mundo. O avanço depende, sobretudo, de uma mudança de abordagem: enxergar dados, integração e inteligência operacional como elementos centrais da estratégia, e não como camadas adicionais.

Ao ampliar a visibilidade sobre a rede, integrar sistemas e utilizar inteligência artificial de forma estruturada, as concessionárias podem migrar de um modelo reativo para um modelo preditivo. Nesse cenário, os apagões deixam de ser eventos inevitáveis e passam a ser, cada vez mais, situações gerenciáveis com menor impacto e maior capacidade de resposta.

Por: Walter Cherfem, veterano em Smallworld com mais de dez anos de experiência. Especialista em Magik, VMDS e SWMFS, entregou atualizações críticas para concessionárias globais e é o visionário técnico por trás do portfólio de produtos da MagikDev.