O Comitê de Política Monetária (Copom), divulgou no dia 18 de março (quarta-feira), que o ambiente externo tornou-se mais incerto, em função do acirramento de conflitos geopolíticos no Oriente Médio, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities.
De acordo com o Copom, em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores segue apresentando, conforme esperado, trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, enquanto o mercado de trabalho ainda mostra sinais de resiliência. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes seguiram apresentando algum arrefecimento, mas mantiveram-se acima da meta para a inflação.
As expectativas de inflação para 2026 e 2027 apuradas pela pesquisa Focus permanecem em valores acima da meta, situando-se em 4,1% e 3,8%, respectivamente. A projeção de inflação do Copom para o terceiro trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária, situa-se em 3,3% no cenário de referência.
Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, que já se encontravam mais elevados do que o usual, se intensificaram após o início dos conflitos no Oriente Médio. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se (i) uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado; (ii) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais positivo; e (iii) uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada. Entre os riscos de baixa, ressaltam-se (i) uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada do que a projetada, tendo impactos sobre o cenário de inflação; (ii) uma desaceleração global mais pronunciada decorrente do choque de comércio e de um cenário de maior incerteza; e (iii) uma redução nos preços das commodities com efeitos desinflacionários.
Expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, e pressões no mercado de trabalho. — O Comitê segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza. Os indicadores do final de 2025 mostraram desaceleração na atividade econômica, enquanto o cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, e pressões no mercado de trabalho.
O Comitê considera os impactos dos conflitos no Oriente Médio de forma prospectiva, em particular seus efeitos sobre a cadeia de suprimentos global e os preços de commodities que afetam direta e indiretamente a inflação no Brasil. Nesse momento, as projeções de inflação apresentam distanciamento adicional em relação à meta no horizonte relevante para a política monetária. Ao mesmo tempo, a incerteza acerca dessas projeções foi elevada consideravelmente, em função da falta de clareza sobre a duração dos conflitos e de seus efeitos sobre os condicionantes dos modelos de projeção analisados. O Comitê julgou apropriado dar início ao ciclo de calibração da política monetária, na medida em que o período prolongado de manutenção da taxa básica de juros em patamar contracionista propiciou evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica, criando condições para que ajustes no ritmo dessa calibração, à luz de novas informações, sejam possíveis de forma a assegurar o nível compatível com a convergência da inflação à meta.
O Copom decidiu reduzir a taxa básica de juros para 14,75% ao ano e entende que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego.
Cautela — No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo.
Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Gabriel Muricca Galípolo (presidente), Ailton de Aquino Santos, Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Izabela Moreira Correa, Nilton José Schneider David, Paulo Picchetti e Rodrigo Alves Teixeira.
. Firjan vê início da queda da Selic como positivo para a indústria, mas condiciona avanço a rigor fiscal — Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro alerta, porém, que sem o pilar da responsabilidade fiscal, não será possível alcançar um patamar de juros capaz de destravar o investimento.
A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) avalia como positivo a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa Selic de 15% para 14,75% ao ano. Esse movimento é coerente com a manutenção das expectativas inflacionárias dentro das metas previstas para os próximos anos e com o arrefecimento gradual do mercado de trabalho.
—Ainda assim, o atual patamar de juros permanece significativamente restritivo, sobretudo para a indústria de transformação, que segue enfrentando dificuldades para sustentar o investimento e recuperar competitividade —avalia o presidente da Firjan, Luiz Césio Caetano.
O início da redução dos juros, mesmo que cauteloso, representa um alívio para a indústria, que enfrenta, além dos entraves internos, pressões adicionais sobre custos e cadeias logísticas globais decorrentes dos conflitos geopolíticos. Em um ambiente internacional de rápidas transformações, em que novos acordos comerciais exigem maior robustez produtiva, a federação ressalta a importância de fortalecer os fundamentos domésticos.
Mesmo em um contexto de incerteza associado ao ciclo eleitoral, o compromisso com uma agenda estrutural crível de contenção de gastos é condição necessária para reduzir o risco-país e abrir espaço para juros menores de forma sustentável. —Sem o pilar da responsabilidade fiscal, não será possível alcançar um patamar de juros capaz de destravar o investimento e devolver à indústria o fôlego necessário para competir no cenário global — aponta o economista-chefe da Firjan, Jonathas Goulart.
. Copom inicia ciclo de cortes com tom cauteloso em meio a cenário de elevada incerteza, comentário da Helena Veronese, economista-chefe da B.Side Investimentos: — Em uma das reuniões mais desafiadoras dos últimos meses, o Copom decidiu reduzir a taxa Selic em 0,25 p.p., para 14,75% ao ano, em decisão unânime e amplamente esperada pelo mercado.
O comunicado indica que o ciclo prolongado de política monetária contracionista tem produzido os efeitos esperados sobre a atividade econômica, que segue em trajetória de moderação. Ainda assim, a inflação permanece acima da meta, as expectativas continuam desancoradas e o mercado de trabalho segue resiliente, indicando que o processo de convergência ainda não está completo.
No entanto, o principal elemento novo veio do ambiente externo. A escalada das tensões no Oriente Médio elevou de forma relevante a incerteza global, intensificando riscos que já eram considerados elevados para a inflação. Entre os vetores altistas, o Comitê destacou a possibilidade de câmbio mais depreciado, maior persistência da inflação de serviços e uma desancoragem mais prolongada das expectativas. Por outro lado, riscos baixistas também foram elencados, como uma desaceleração mais intensa da atividade doméstica, um enfraquecimento global mais pronunciado e eventual queda nos preços das commodities.
O comunicado também deu peso significativo aos impactos potenciais do conflito sobre a cadeia global de suprimentos e os preços de commodities, reforçando a leitura de um ambiente marcado por elevada volatilidade e incerteza, que exige maior cautela por parte da política monetária.
Em relação aos próximos passos, o Copom optou, como esperado, por não fornecer um guidance explícito. O Comitê destacou o aumento da incerteza nas projeções e reforçou que a condução da política monetária seguirá dependente da evolução do cenário, em especial dos desdobramentos do conflito no Oriente Médio. Ainda assim, ao afirmar que julgou apropriado “dar início ao ciclo de calibração”, o Banco Central sinaliza que, na ausência de choques adicionais, a tendência é de continuidade do processo de flexibilização — ainda que em ritmo e extensão incertos.
O que achamos — O Copom adotou uma postura equilibrada ao cumprir o guidance da reunião anterior e iniciar o ciclo de cortes, sem perder de vista o ambiente significativamente mais adverso. O comunicado reforça, ao longo de todo o texto, os riscos associados ao cenário externo — especialmente via preços de commodities e possíveis disrupções nas cadeias globais — e seus impactos potenciais sobre a inflação doméstica.
As projeções de inflação do Comitê seguem ligeiramente abaixo das da Focus, mas ainda acima da meta e com algum deterioro em relação à reunião anterior, o que justifica a manutenção de um tom cauteloso.
A decisão de não oferecer forward guidance explícito nos parece acertada. Em um ambiente de elevada incerteza geopolítica, comprometer-se com um ritmo de cortes poderia reduzir a flexibilidade necessária à condução da política monetária. Por outro lado, a sinalização de início do ciclo de flexibilização sugere que, no cenário base atual, o Banco Central ainda enxerga espaço para a continuidade dos cortes.
Em síntese, o comunicado reconhece os avanços decorrentes do período prolongado de juros elevados, mas enfatiza que o cenário atual — marcado pela guerra e pela volatilidade nos preços do petróleo — exige prudência. O caráter condicionado da comunicação reforça a dependência de dados e evita compromissos com o ritmo de flexibilização, deixando claro que, enquanto persistirem as incertezas externas, a condução da política monetária seguirá necessariamente cautelosa — conclui a análise, Helena Veronese, economista-chefe da B.Side Investimentos.
. Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval, sobre o Copom: — O Copom cortou a Selic em 0,25%, para 14,75, como a gente esperava há bastante tempo. Não revisamos com esses últimos eventos do Oriente Médio. A gente acreditava que o Banco Central, a despeito de qualquer coisa, deveria e iria começar o ciclo de forma mais conservadora. Em relação à comunicação do Banco Central, obviamente caracteriza o cenário externo como mais incerto. A gente sabe que as implicações desse cenário incerto, principalmente sobre o petróleo, inflação e assim por diante, na ótica da atividade doméstica fala que continua moderando, mas o mercado de trabalho está resiliente, no entanto, a gente tem a impressão de que o Banco Central está preocupado com os efeitos defasados da política monetária sobre uma atividade que já desacelerou e essa seria uma das razões iniciar o ciclo de cortes.
Depois passa para o diagnóstico da inflação, onde fala que a inflação teve alguma melhora. Quando faz a discussão do choque do petróleo, nas projeções, traz que a incerteza é muito grande, e que mesmo que isso puxe para cima as projeções, é necessário olhar isso com algum tipo de ressalva. E aí quando a gente confronta, parece que o Banco Central deu mais peso para as questões de atividade, para a inflação, que seguiu com alguma melhora, vis-a-vis um choque que sabe que é inflacionário, mas que é altamente incerto. Então se você tem o plano de fazer o ciclo de juros, de calibrar a política monetária, porque tem espaço para isso e há um choque de incerteza, o que você deve fazer não é abandonar o plano, pelo menos foi isso que o Banco Central indicou. É seguir em uma velocidade mais devagar, e aí por isso o 25. Então, quando ele vê o choque, o tamanho da incerteza, mas tendo razões para iniciar o ciclo, o choque não foi suficiente para abortar o ciclo. A sinalização do Banco Central, na nossa opinião, é de que imerso a esse nível de incerteza, ele vai fazer de forma mais devagar, sendo cauteloso nesse sentido.
Então, quando a gente vislumbra o próximo corte, na nossa opinião, com o conflito ainda acerrado, o preço de petróleo pressionado, a probabilidade é do Banco Central seguir com o ritmo de 25. Agora, se tiver uma melhora do cenário, se o preço de petróleo voltar a cair para patamares anteriores ao conflito, eventualmente o Banco Central pode vir com corte de 50. Então, obviamente, está muito dependente do preço de petróleo, mas a gente acha que cenário onde conflito é relativamente solucionado e preço de petróleo volta, 50 voltaria para a mesa. Bom, nosso cenário base segue sendo de 25%, mas com essa ponderação para 50% na próxima— conclui a análise o economista-chefe Rafael Cardoso do Daycoval.