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17/12/2025

Acordo UE-Mercosul

Após mais de duas décadas de negociações, o Acordo de Associação entre o Mercosul e a União Europeia (UE) representa um marco histórico para o comércio brasileiro, criando um mercado combinado de quase 780 milhões de consumidores. A promessa de eliminar ou reduzir tarifas para mais de 90% dos produtos negociados abre um leque de oportunidades. Contudo, os benefícios não são distribuídos de forma homogênea entre todos os segmentos da economia. Fatores como as barreiras tarifárias atuais, a natureza estratégica dos produtos e a dinâmica das cadeias de valor globais determinam quais setores realmente colherão os frutos mais valiosos.

Enquanto setores como o de carnes se beneficiam de uma drástica melhoria de margem, outros, como papel e celulose e mineração, ganham em posicionamento estratégico e acesso a mercados premium. Já para os setores de calçados e bens de capital, o tratado representa, respectivamente, a derrubada de barreiras significativas e uma porta de entrada para as cadeias de valor mais sofisticadas do mundo. O sucesso na capitalização dessas oportunidades dependerá da capacidade de cada setor de se adaptar e competir em um novo e promissor cenário comercial. Este artigo detalha os cinco setores da economia brasileira que estão mais bem posicionados para se beneficiar deste novo cenário comercial.

Setor de Proteína Animal (Carnes): O Ganho de Margem Estratégico — O setor de proteína animal, especialmente o de carnes bovina e de aves, é frequentemente apontado como o grande vencedor do acordo, mas uma análise aprofundada dos números revela que o principal ganho não está no volume inicial, e sim na rentabilidade. Antes do acordo, as exportações de carne bovina para a UE enfrentavam um sistema complexo de cotas e tarifas proibitivas, que podiam superar 100%.

O acordo estabelece uma nova cota de 99.000 toneladas para a carne bovina do Mercosul, com uma tarifa intra-cota de apenas 7,5%. A grande revelação, no entanto, é que o Brasil, em 2025, já projeta exportar um volume entre 120.000 e 150.000 toneladas para a UE, superando a cota inicial [2]. Isso demonstra que o benefício mais significativo e imediato não é o aumento do volume, mas a drástica redução da tarifa. Produtos que hoje são inviáveis devido aos altos impostos passarão a competir em condições muito mais favoráveis, gerando uma expansão de margem extraordinária para os frigoríficos. Empresas como a Marfrig (MRFG3), que não possuem operações de abate na Europa e exportam diretamente do Mercosul, estão em uma posição privilegiada para capturar esse ganho de rentabilidade. A JBS (JBSS3) também se beneficia, embora seu ganho seja parcialmente mitigado por já possuir capacidade produtiva no continente europeu. O crescimento de volume virá a longo prazo, com o aumento gradual da cota em seis estágios anuais, podendo mais que dobrar.

Para a carne de aves, o cenário é semelhante. A cota de 180.000 toneladas com isenção total de tarifas é, na verdade, inferior ao volume que o Brasil já exporta para a UE (estimado entre 250.000 e 500.000 toneladas anuais). Novamente, o benefício reside na aplicação da tarifa zero a uma porção significativa desse comércio e no crescimento futuro da cota.

Setor de Papel e Celulose: O “Prêmio Verde” e a Facilitação Comercial — Para o setor de papel e celulose, onde o Brasil é uma potência global com empresas como Suzano (SUZB3) e Klabin (KLBN11), o benefício do acordo transcende as tarifas. A celulose, por ser um insumo industrial estratégico, já contava com tarifa de importação zero na União Europeia. O valor do acordo, portanto, está nos aspectos não-tarifários. A principal vantagem reside na facilitação do comércio, com a simplificação de procedimentos aduaneiros e a harmonização de regulamentos técnicos. Mais importante ainda é o pilar de sustentabilidade do acordo. A UE tem uma demanda crescente por produtos com certificação ambiental, e o tratado valoriza e reconhece esses padrões. Isso pode criar um “prêmio verde” para a celulose brasileira, que já é reconhecida como uma das mais sustentáveis do mundo, permitindo que os produtores acessem mercados mais exigentes e obtenham preços melhores por seu produto, fortalecendo sua posição competitiva contra produtores de outras regiões.

Setor de Mineração Estratégica: Fornecedor para a Transição Energética — Assim como no setor de celulose, o minério de ferro, principal produto da Vale (VALE3), já possui tarifa zero na UE. O benefício para o setor de mineração, portanto, não é tarifário, mas estratégico. A União Europeia está em plena transição energética e busca desesperadamente diversificar seus fornecedores de minerais críticos (como níquel, cobre e lítio), reduzindo sua forte dependência da China. O acordo com o Mercosul é visto como uma aliança estratégica para garantir o fornecimento desses insumos essenciais para a produção de baterias, veículos elétricos e tecnologias de energia renovável. O Brasil, com suas vastas reservas minerais, se posiciona como um parceiro fundamental. O tratado não apenas facilita o comércio, mas também sinaliza um alinhamento político que pode direcionar investimentos europeus para a exploração e o desenvolvimento da mineração sustentável no Brasil, garantindo uma demanda robusta e de longo prazo para as mineradoras brasileiras.

Setor de Calçados e Têxteis: A Derrubada de Barreiras Relevantes — Este é um dos setores onde o impacto da redução tarifária é mais direto e significativo. Atualmente, os calçados e produtos têxteis brasileiros enfrentam tarifas de importação elevadas para entrar na Europa, que variam de 8% a 17%. Essas barreiras reduzem consideravelmente a competitividade de marcas brasileiras no mercado europeu. O acordo prevê a eliminação completa dessas tarifas em um cronograma de desgravação de até 10 anos. Para um setor que depende de volume e preço competitivo, a remoção dessa barreira é transformadora. Empresas como a Alpargatas (ALPA4), dona da icônica marca Havaianas, e a Vulcabras (VULC3), terão a oportunidade de expandir sua presença no mercado europeu, competindo em pé de igualdade com produtores de outras regiões que já possuem acordos de livre comércio. O ganho de competitividade pode impulsionar as exportações e fortalecer a imagem das marcas brasileiras no cenário da moda global.

Setor de Bens de Capital (Máquinas e Equipamentos): Integração às Cadeias de Valor — O setor de bens de capital, que inclui máquinas e equipamentos elétricos, já desfrutava de tarifas de importação relativamente baixas na UE, geralmente na faixa de 0% a 5%. O acordo prevê a eliminação imediata para a maioria desses produtos. Embora o ganho tarifário direto seja modesto, o principal benefício para empresas como a WEG (WEGE3) é a maior integração às sofisticadas cadeias de valor europeias. A eliminação de barreiras regulatórias e a simplificação de normas técnicas facilitam a exportação de componentes do Brasil para serem integrados em produtos mais complexos na Europa. Isso é particularmente relevante para a WEG, que recentemente inaugurou uma fábrica em Portugal e pode otimizar sua produção, utilizando componentes brasileiros em sua montagem final na Europa. O acordo, portanto, funciona como um catalisador para que a indústria brasileira de alta tecnologia se torne uma fornecedora mais relevante e integrada ao parque industrial europeu.

Por: Fabrizio Gammino, sócio da Grownt.