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24/12/2020 - 05:57

A vacina e a democracia


Uma democracia não morre de uma vez. Ela derrete aos poucos pelo anacronismo das políticas públicas, desconfiança com as instituições e insatisfação popular. Nosso telhado de vidro não esconde a dificuldade de se vacinar a população nesse país continental, que teima em persistir nos mesmos erros.

Sou prudente, sobrevivemos 21 anos de ditatura instalada depois de um golpe de Estado. Desde 1985 a democracia brasileira segue arrimada em compromissos e concessões. O povo acompanha e segue o baile.

Uma série de movimentos antidemocráticos vem mostrando a urgência de se recosturar o pano democrático, rasgado. Se não dá para atenuar as forças do capital sobre o trabalho, super afetado com a reforma trabalhista, com as promessas de caixa da reforma da previdência que pelo menos, cessem o infantilismo da guerra política em torno da vacina.

A paródia da vacina, alarga-se a cada dia e o povo segue morrendo como se isso fosse questão de segunda ordem. Nessa democracia holográfica, a verdade está no programa de Tom Cavalcanti, aliás, imperdível.

O povo está morrendo de medo de que essa vacina não chegue nunca. Se é “vachina” ou vacina pouco importa. A esta altura não nos interessa a origem, queremos apenas tomar a danada da vacina.

A briga piegas, imoral dos governantes e o excesso de burocracia, só rememora “o governo da esperança”. Nesse governo, de um lado ficam os manda chuvas, de outro, os esperantes: o povo, de braço pronto para agulhada que nunca chega. Somos os esperantes da Pfizer, Curevac ou o que for.

A população esperante, espera e aqui não há redundância, que a democracia cumpra sua missão, e que haja concorrência real entre as diferentes versões do interesse público.

“O sol nas bancas de revistas”, cantado por Caetano Veloso é a esperança do povo brasileiro que tem direito a ser poupado dos esquadrões burocráticos que querem transformar a questão da saúde em campanha eleitoral é mero fetiche.

Não há espaços para que esse sol não seja para todos, existe uma parcela considerável de cidadãos esclarecidos. Nesse cenário de incompetência com o gerenciamento da questão da vacina, o famigerado governo da esperança, vai provocando conflitos de toda ordem, pela falta de posição e coerência. E claro religa ideias: nova constituinte.

Preocupado em confiar-lhes o seu futuro e a sua imunização, o povo se torna apático, desconfiado e triste. Em meio ao campo das incertezas é preciso ancorar providências e reduzir ambiguidades.

O que se vê por aí são Estados lutando para tentar convencer o povo, cada um a seu modo e de forma customizada de que a vacina “um dia chegará”. Muito mais preocupados com seus mandados, ou com as negociações sempre lucrativas dos contratos relacionados com a vacina para a Covid-19, ou com o ego - que os leva a externar posições públicas sempre divergentes aos seus oponentes potenciais- vemos que realmente a democracia, vai aos poucos se erodindo.

O início pode ser imperceptível. Políticos mantêm assentos no Congresso, tudo parece estar funcionando bem. E os passos, grandes, parecem insignificantes. Mas se não for remendada, torna-se meramente teórica, a democracia não existe na prática.

Já sofremos demais em aspectos de corrupção que insiste em durar em vários aspectos de nossa vida, já passamos por duas reformas trabalhistas, reforma previdenciária e já vimos a educação ser tratada como quarta grandeza. Ou seja, o Brasil adota uma retórica que não cola mais.

Ainda que a democracia seja sempre um ideal e que seu conceito envolva um grande dinamismo, há sempre um termômetro. Esse termômetro é a insatisfação popular; que hoje refuta as enganadoras miragens e déjà vu dos governantes.

Democracia não é basquete de rua. Não dá para ficar jogando a bola na rede e dando trombada. Estamos bastante castigados e por isso não inventem nossos próprios pecados, como fizeram com as reformas. Queremos apenas viver e não sermos culpados. Apenas vacinem-nos. É o que queremos e precisamos.

. Por: Maria Inês Vasconcelos, advogada, especialista em Direito do Trabalho, professora universitária e escritora.

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