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19/05/2020 - 09:01

A comunidade científica no enfrentamento da pandemia

O mundo vive um momento crítico e, para seu enfrentamento e superação as nações tem mobilizado todos os recursos de que dispõem e buscado ampliá-los, sobretudo os científicos e tecnológicos, para dar respostas emergenciais aos problemas do presente. Ciência e Tecnologia, cada uma com seus tempos e processos, tem mostrado seu caráter estratégico, e desta vez, inequivocamente, para salvar vidas.

Já foram muitas as pandemias que assolaram a humanidade, pelo menos desde a Praga Antonine (165 d.C) que se estendeu por 15 anos e provocou cerca de 5 milhões de mortes. Se olharmos apenas a partir do século XX, logo no seu início as nações se viram diante da Gripe Espanhola (1918-9) que se estima ter provocado 50 milhões de mortes. Entre a Gripe Espanhola e a atual SARS-CoV-2 ocorreram ao menos sete outras pandemias, sendo as mais recentes a Gripe Suína (2009-10), a SARS (2002-3), a Ebola (2014-6) e a MERS (2015 – atual).

Embora haja um aprendizado acumulado do enfrentamento das epidemias e pandemias, a atual tem revelado aspectos novos, desafiando a comunidade científica, visto que em poucos meses alcançou escala global, contaminou até agora mais de 4 milhões de pessoas (dados oficiais) e causou mais de 300 mil mortes. Nunca se viveu uma pandemia que se alastrasse nessa velocidade, impusesse paralização de dezenas de cidades simultaneamente pelo mundo, que forçasse ao confinamento em suas casas milhões de pessoas e afetasse radicalmente tantas atividades econômicas e a vida social em todo o mundo. Das pandemias anteriores um ensinamento importante foi o de que os melhores resultados foram obtidos quando houve maior cooperação e engajamento dos diferentes agentes sociais, destacadamente governos e instituições da sociedade civil, com objetivo compartilhado de superação da crise.

Desta crise uma lição que parece já se afirmar como inescapável é a de que a máxima econômica das vantagens comparativas não pode ser a única fonte de orientação para a administração de áreas como a da saúde pública, que requer concepção estratégica. Ter 90% da produção mundial de importantes e numerosos insumos médico-hospitalares concentrados numa única nação revelou-se trágico numa crise sanitária global que faz lembrar os alertas do pensador francês Paul Virilio sobre os riscos de um “acidente integral” ou “lockdown global” e da falta de concepção estratégica preventiva.

Tratando-se de uma crise sanitária para a qual a única saída efetiva é a criação de uma vacina e medicamentos para o tratamento da doença, impõe-se como essencial o fator humano representado pelos cientistas da área médica. Sim nosso futuro está dependente mais uma vez da ciência, da pesquisa, da capacidade humana de criar soluções para problemas. Nesse momento, o principal alento é saber que há milhares de profissionais da medicina engajados nisso. Merece destaque a iniciativa global coordenada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) anunciada no último 24 de abril, que conta com o engajamento de governos, centros de pesquisa e grandes empresas, com o objetivo de desenvolver uma vacina e tratamento contra o novo coronavírus. A expectativa é de arrecadar 7,5 bilhões de euros nesse início da empreitada.

Além de iniciativas nessa escala, têm sido importantes as respostas locais que vem se multiplicando em diversos países, como é o caso do Brasil. Universidades brasileiras com seus capacitados pesquisadores e programas permanentes de pesquisa têm dado bons exemplos de como a comunidade científica nacional pode contribuir no enfrentamento de crises como a atual. O mapeamento da sequencia completa do genoma viral SARS-CoV-2 por pesquisadores brasileiros do Instituto Adolfo Lutz, da USP e com a parceria da Universidade Oxford (Reino Unido), logo no início da pandemia na América Latina, foi um exemplo do que podemos fazer, mesmo em contexto tão adverso para a pesquisa no Brasil.

Outros exemplos podem ser destacados, como o de pesquisadores da Escola Polítécnica da USP que prontamente se mobilizaram para o desenvolvimento de um respirador de baixo custo que já foi aprovado em testes com humanos e batizado de Inspire. A Unicamp também tem envolvido vários departamentos da universidade em projetos como o conduzido pelo NEPO (Núcleo de Estudos de População) no campo da economia criativa, articulando pessoas de diferentes grupos sociais na confecção de máscaras de tecido, resgatando valores de solidariedade e empatia e gerando renda.

Entre as universidades privadas, merece destaque as ações da Universidade Presbiteriana Mackenzie, neste ano em que completa 150 anos de sua fundação. Coerente com a reponsabilidade que compreende ter com a sociedade, além da sua tradicional missão de ensinar e qualificar profissionais para o mundo do trabalho vem engajando pesquisadores de várias áreas do conhecimento e de suas diferentes unidades (Higienópolis, Alphaville, Campinas, Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba) numa força-tarefa, com atuação em rede, coordenada por sua Coordenadoria de Fomento à Pesquisa (CFP) que hoje conduz cerca de 50 projetos.

Desses projetos, destacam-se o MackShield e o MackBreathe, que como informa o portal da universidade “a Escola de Engenharia (EE) da UPM vem desenvolvendo esses projetos para a produção de máscaras que são escudos faciais para profissionais da saúde e protótipos de respiradores mecânicos de baixo custo respectivamente”.

Essas ações têm um olhar para os problemas imediatos vividos pelo país no contexto da pandemia, mas estende também esse olhar para o futuro, engajando professores e estudantes para a continuação da pesquisa e das atividades de extensão pensando no pós-pandemia. Para isso, a UPM além dos recursos próprios que destina sistematicamente para a pesquisa vem buscando a captação de novos recursos junto a agências de fomento e iniciativa privada.

Desde o início das medidas de isolamento social a UPM mobilizou todos seus recursos e novos investimentos para o oferecimento de aulas e atividades on-line para sua comunidade de estudantes e pesquisadores desde o nível do ensino fundamental, passando pelo médio, superior e pós-graduação.

Além das aulas, os docentes têm envidado esforços para o oferecimento de atividades que envolvam seus estudantes com a realidade vivida pelo país e os desafios que se colocam para os diferentes atores sociais. Uma dessas atividades que já vem sendo realizada há anos é a produção do jornal Macknífico, que reúne alunos do 9º ano do Fundamental II realizando pesquisas e divulgando informações para a comunidade estudantil. No contexto da pandemia, esses jovens estudantes têm realizado reuniões por meio de plataformas digitais, debatendo temas propostos pela professora Alice Costa, como o das fake news que se tornou nos últimos tempos um vírus também muito nocivo para as sociedades.

Outra atividade ilustrativa desses esforços foi uma pesquisa que estudantes do 4º semestre do curso de Administração, no campus Alphaville, desenvolveram no âmbito da disciplina Princípios de Empreendedorismo, por mim conduzida. Com o objetivo de aplicar conceituação sobre empreendedorismo e tipo de empreendedor, os estudantes identificaram ações empreendidas por diferentes agentes, inseridas no contexto da pandemia e isolamento social. As pesquisas revelaram iniciativas em diferentes campos com desenvolvimento de novos produtos e processos como máscaras confeccionadas com matéria-prima de reciclagem, álcool em spray, métodos rápidos de vacinação, serviço hoteleiro com dispositivos de segurança sanitária, escudo acrílico de isolamento, totem detector de temperatura (febre), novos mecanismos de higienização das mãos, entre outros.

Atividades de ensino-aprendizagem como essa dão maior significação ao conhecimento científico, propiciando a aplicação de conceitos para a compreensão e possibilidade de intervenção qualificada sobre a realidade.

A capacidade humana de aprender com a história se revelou ao longo dos tempos uma importante ferramenta para sua sobrevivência e desenvolvimento. A ciência como produção social preza por isso. Às instituições e aos homens que ocupam postos de decisão caberá conduzir as mudanças que se mostraram necessárias no enfrentamento de mais essa grave crise. Renovar a confiança nessa capacidade de avanço e, ao mesmo tempo, de correção de rumos e valores, bem como na força que advém da cooperação, de diferentes atores sociais, fará a diferença no caminho e resultados obtidos pelas sociedades diante de mais essa pandemia que enfrentamos e da qual poderemos sair fortalecidos.

. Por: Arnaldo Francisco Cardoso, professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Alphaville.

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