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09/05/2020 - 08:32

Políticas viróticas e a ciência


As concepções políticas são muito variadas, estão superados os determinismos próprios das grandes correntes e ganham espaço governos de circunstâncias acidentais, como o de Jair Bolsonaro, que nada fazem e nada farão de estrutural para solucionar os problemas brasileiros. São tão aleatórios como os vírus. Inúmeros grupos sociais têm plúrimas culturas, modos de pensar idênticos ou semelhantes, que, se vitoriosos ocasionalmente em eleições, tomam como verdadeiros, e falsas todas as demais cognições sobre a coisa pública.

Transcreve-se, para democratizar, ligeira análise de Yuval Noah Harari, que reflete com absoluta exatidão o momento político em que vive o Brasil:

"Um número cada vez maior de estudiosos vê as culturas como um tipo de infecção ou parasita mental, sendo os humanos seus hospedeiros involuntários. Os parasitas orgânicos, como os vírus, vivem dentro do corpo de seus hospedeiros. Eles se multiplicam e se espalham de um hospedeiro a outro, alimentando-se deles, enfraquecendo-os e, às vezes, até os matando. Contanto que os hospedeiros vivam o bastante para transmitir o parasita, este pouco se importa com a condição em que seu hospedeiro se encontra. Da mesma forma, as ideias culturais vivem dentro da mente dos humanos. Elas se multiplicam e se disseminam de um hospedeiro a outro, às vezes enfraquecendo os hospedeiros e até mesmo os matando. Uma ideia cultural - tal como a crença no paraíso cristão nos céus ou no paraíso comunista aqui na Terra - pode forçar um ser humano a dedicar sua vida a espalhá-la, às vezes tendo a morte como preço. O humano morre, mas a ideia se espalha. Segundo essa abordagem, as culturas não são conspirações de algumas pessoas para tirar vantagem de outras (como os marxistas tendem a pensar). Ao contrário, as culturas são parasitas mentais que surgem acidentalmente e, depois, tiram vantagem de todas as pessoas infectadas por elas." (Escrito de 2011, "in" "Sapiens", 12a. ed., p. 251).

Não poucas vezes essa concepção virótica das tendências políticas foi ridicularizada por renomados acadêmicos, replicada de unidades de informação chamadas "memes", completa o autor. Uma analogia biológica tacanha.

Não se nega, porém, que as culturas jorram sozinhas, sem preocupação pelo bem da humanidade. Tal como o coronavírus que nos trouxe imprevista esganadura, a história recente acumulou nacionalismos xenófobos, fontes de guerras, ódio, opressão, fome e genocídios. E também se multiplica geograficamente.

Noutra parte, considerem-se as corridas armamentistas, ao fim das quais tudo continua como dantes no quartel de Abrantes, exceto as indústrias bélicas que se enriquecem. E melhor é classificá-las como resultado de uma dinâmica própria, não como decisões conscientes de coletividades organizadas.

O fato é que, independentemente do nome, memética ou outros, o processo civilizatório não esteve voltado para o bem-estar humano.

Por volta de 1500, quando nossa terra foi "descoberta", eclodiu a Revolução Científica. É um produto dessa revolução que nos permite resistir contra o coronavírus, a ciência microbiológica. Sua evolução, contudo, não deixa de sofrer trancos e subir barrancos. Observe-se, relativamente ao que hoje mais nos interessa, que só em 1674 (174 anos depois), vimos as espécies a que pertence o Covid-19 atual, por um microscópio caseiro que espantou seu dono, Anton van Leeuwehock, ao constatar milhares de criaturas minúsculas dando voltas em uma gota d'água.

Seguiu a ciência seu rumo fundado na simplicidade de reconhecimento da própria ignorância. Ao contrário da jactância de Tomás Edson, para quem depois da invenção da lâmpada elétrica nada mais era necessário, os cientistas contemporâneos nunca se dão por satisfeitos, sempre sublinham que estão a raios-luz do pleno conhecimento. É bem provável que a atividade cognitiva ininterrupta marque os séculos e milênios vindouros, se vierem, e até quando não sabemos.

Por hoje, atentemos ao estado de espírito dos cientistas que se dedicam a outras investigações e análises não relacionadas ao coronavírus. Qual seu impulso para conhecer novas galáxias, desenvolver energia atômica para fins pacíficos, criar mais robôs, desvendar como o capitalismo se processará dentro de alguns anos e aperfeiçoar as comunicações já revolucionárias, a contabilidade e o direito?

Esse micro-organismo que abalou o mundo equivale a uma bomba de altíssima potência, destronou inteligências consagradas e espalhou destroços no reino das academias. O caminho da esperança é a adoção de um sincretismo entre as várias especialidades científicas, inédito, porém necessário e emergencial: direcionar os conhecimentos da física, da química, da astrologia, da robótica etc, para sustentar as buscas, os estudos e as medidas experimentais no terreno microbiológico. O mundo inteiro pode concentrar-se nessa simbiose das ciências, se nossa ética se indignar contra uma única morte, que poderia ser evitada por meio da inteligência humana.

. Por: Amadeu Garrido de Paula, poeta e ensaista literário, é advogado, atuando há mais de 40 anos em defesa de causas relacionadas à Justiça do Trabalho e ao Direito Constitucional, Empresarial e Sindical. Fundador do Escritório Garrido de Paula Advocacia e autor dos livros: “Universo Invisível” e “Poesia & Prosa sob a Tempestade”. Ambos à venda na Livraria Cultura.

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