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21/04/2020 - 09:41

A superação do destino pela transgressão


O ato de ler é uma experiência existencial que nos permite uma leitura do mundo, de nós mesmos e do Outro. Já a escrita, como ato de compartilhamento público se integra às formas do amor filosófico, que tem por intuito semear nas almas o bem, a beleza, a justiça e promessas de futuro. Escrevemos sempre para o Outro, que recebe a mensagem e criticamente a reelabora. Na contingência do isolamento social tenho lido, relido e escrito como ato de transgressão da solidão dos corpos e vontade de comunhão de almas.

Dentre outras, reli a coletânea Tempo do Desejo (1987) da qual o artigo Tempos do Édipo do psicanalista e sociólogo Manoel Tosta Berlinck convida o leitor a acompanhar uma bem sucedida reconstrução de linha do tempo trilhada pelos homens na construção do mundo que conhecemos e do próprio homem em constante construção. A linha do tempo culmina com a chegada do sujeito na psicanálise, aquele que “comete atos falhos, esquecimentos, que pronuncia frases de espírito e que, principalmente, sonha”, e que, como já fora antecipado pelo filósofo alemão Hegel, “não é pela Razão que o indivíduo se tornou humano, mas pelo Desejo”. E como Jacques Lacan sentencia que é o desejo que nos faz caminhar, acredito que só sairemos do difícil momento em que nos encontramos se recuperarmos a capacidade de desejar e de se engajar para sua realização.

A trajetória recontada por Berlinck aborda primeiramente o sujeito do Iluminismo que, em boa medida é o homem que veio sendo exaltado como modelo nos últimos três séculos, o homem da razão e da ordem, de uma razão linear, positivista, que construiu a ciência mas que, no final do século XIX passou a ser confrontado com aquilo que rejeitou e tentou expurgar na construção de si e que custou-lhe parte de sua humanidade.

No racionalismo francês do século XVI foi Descartes quem inaugurou a Filosofia Moderna com o cogito “Penso logo existo”. Para Descartes, o pensar leva à consciência, e o pensar é condição para ser.

Berlinck nos lembra que um traço constitutivo do Iluminismo pode ser encontrado na alegoria da caverna de Platão, vinte e cinco séculos atrás, onde se traçou o primeiro embate entre as trevas e as luzes do conhecimento.

E o que dizer do desfecho da alegoria quando o homem que sai da escuridão da caverna e experimenta as luzes, ao voltar para alertar os que continuavam na caverna, da ilusão das sombras, foi hostilizado e agredido, visto como perigoso? Os séculos se passaram e a missão de tirar o homem da caverna da ignorância e das falsas certezas continua inconclusa e, o que é pior, hoje temos movimentos de regresso às cavernas.

Na longa trajetória do homem é marcante a contribuição grega na passagem pelo século V, no desenvolvimento do teatro ateniense. Friedrich Nietzsche em seu “O nascimento da tragédia” nos propõe diferentes pensares sobre a tragédia grega sendo um deles a perspectiva da oposição e complementaridade entre o apolíneo (razão, ordem, perfeição, beleza) e o dionisíaco (loucura, caos, embriaguez, prazer). Na ousada e provocativa interpretação nietzscheana foi o racionalismo socrático, apolíneo, que levou a Grécia a sua decadência e não o dionisíaco da arte grega.

O referido artigo de Berlinck nos conduz a refletir numa perspectiva psicanalítica o herói trágico grego.

“O herói trágico será aquele que, consciente ou inconscientemente, transgride uma lei aceita pela comunidade e sancionada pelos deuses.

A ideia de transgressão é absolutamente central na tragédia: parece tratar-se de uma dinâmica específica entre, por um lado, lei e destino que a ordem pretende traçar é, por outro lado, a transgressão como forma de se superar o destino, que parece estar vinculada tanto à constituição da subjetividade como implicação da culpa. Mas tanto transgressão como destino constituem enigmas na trama da tragédia.”

Com Freud no final do século XIX o homem da razão, da ciência, da Revolução Industrial, do progresso econômico se viu posto em xeque. Para aquele homem arrogante de si, confiante de sua potência, foi revelado que ele se encontrava na verdade fragmentado, partido, alienado de si mesmo, ao rejeitar sua sombra. É ilustrativo disso a resposta de Freud a jornalistas que o aguardavam no aeroporto, em sua primeira viagem à América: “Eu lhes trago a peste”.

A peste, ou a ferida narcísica provocada por Freud foi a revelação do inconsciente. A revelação de que o homem que se orgulha por se pensar sapiens é também demens, é razão e desejo, e não está sempre no comando.

Pela clivagem da psicanálise não é o sujeito da verdade que interessa, mas sim a verdade do sujeito.

Vivemos um tempo de agudo desequilíbrio entre o mundo e o homem, uma inflexão, uma mudança de rumo se impõem como necessidade e para que ela se processe será preciso que um outro homem se apresente.

Já foi dito que só é pensada uma grande mudança social quando as condições para sua realização já estão dadas. Um dos propósitos do ciclo de palestras mencionado no início deste artigo foi o de estabelecer um diálogo construtivo entre a sociologia e a psicanálise, lembrando uma proposição de Freud de que a sociologia como ciência dedicada ao estudo do comportamento do homem em sociedade é também uma psicologia aplicada.

De acordo com Lacan, somos seres desejantes e é isso que nos faz caminhar. É hora de desejarmos um outro futuro, rompendo com um tempo que se apresenta como perpétuo e sem utopias. Mesmo ou justamente pela incompletude que é condição do próprio desejar, não podemos desistir do desejo de um outro tempo, construído por sujeitos capazes de combinar responsabilidade e coragem para ousar.

. Por: Arnaldo Cardoso, sociólogo e mestre em Ciência Política.

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