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20/02/2020 - 07:52

Com pesquisa e inovação setor cacaueiro do Sul da Bahia vive renascimento

Causa admiração processos de superação de crises cujos resultados evidenciam saltos qualitativos em relação à realidade pré-crise. É esse o caso do setor cacaueiro do Sul da Bahia que, passados os difíceis anos em que a vassoura-de-bruxa dizimou 2/3 da produção local de cacau a paisagem regional voltou a irradiar as cores da confiança e da pujança.

Milhares de propriedades ativas de pequenos e médios produtores, novas técnicas de cultivo e manejo, feiras atraindo expositores e visitantes de diferentes estados do país e do exterior, agroindústrias e novos centros de pesquisa são alguns dos elementos que compõem essa nova paisagem regional e que sinalizam que muito está por vir.

Uma das conquistas do setor, resultante de ação organizada com visão estratégica empreendida por diferentes agentes foi o reconhecimento em 2018 pelo INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial) da Indicação Geográfica (IG) do Sul da Bahia na modalidade Indicação de Procedência (IP) para as amêndoas de cacau.

De acordo com o INPI a Indicação Geográfica (IG) “é um ativo de propriedade industrial usado para identificar a origem de um determinado produto ou serviço, quando o local tenha se tornado conhecido, ou quando certa característica ou qualidade desse produto ou serviço se deva à sua origem geográfica.” Ainda conforme o mesmo instituto “a proteção concedida por uma IG, além de preservar as tradições locais, possui o potencial de diferenciar produtos e serviços, melhorar o acesso ao mercado e promover o desenvolvimento regional, gerando efeitos para produtores, prestadores de serviço e consumidores.”  A região abrangida por essa IG do Sul da Bahia se estende por 61.460 km², abarcando mais de oitenta municípios. Essa conquista, fruto de quase dez anos de trabalho, deu novo impulso para projetos na região.

O que de mais importante e promissor deve ser observado nesse renascimento do setor cacaueiro no Sul da Bahia é que, ele se deu envolvendo os diversos atores da cadeia produtiva. O governo do Estado da Bahia e de alguns municípios, através de suas agências e instituições oficiais como o SEBRAE e a CEPLAC tiveram papel destacado nesse processo mas o que fez a diferença foram as iniciativas e engajamento de pequenos e médios produtores de cacau, empresários da indústria e de serviços e uma gama de outros profissionais, destacadamente pesquisadores com estudos voltados ao mapeamento e compreensão dos desafios presentes em cada elo da cadeia produtiva.

Traço também marcante dessa nova organização do setor tem sido a conscientização e adoção dos princípios de sustentabilidade, em seus pilares econômico, ambiental e social, pelos diferentes agentes da cadeia. Nesse particular há muito ainda a ser feito.

Essa nova organização do setor cacaueiro na Bahia, inspirada no conceito de rede, apresenta semelhanças com processos que vem ocorrendo em determinadas regiões de países europeus como Itália e Inglaterra e que tem merecido importantes estudos acadêmicos e apoio para seu desenvolvimento dada a sua potencialidade para equacionar sérios problemas característicos do atual estágio do capitalismo globalizado.

Essa nova forma de organização é sustentada por interações entre variados agentes locais como produtores, fornecedores, clientes, distribuidores bem como a própria comunidade, criando mecanismos de cooperação onde é fluente a troca de conhecimentos e tecnologias que criam valor compartilhado.

Nesse ecossistema, as universidades e centros de pesquisa cumprem papel fundamental criando parcerias para a qualificação de mão-de-obra, desenvolvimento de processos e certificação de produtos.

No Sul da Bahia, a Universidade Estadual de Santa Cruz que mantém linhas de pesquisa sobre a cadeia do cacau, sedia desde 2017 em seu Parque Científico e Tecnológico o CIC (Centro de Inovação do Cacau) que realizando análises de amêndoas de cacau e chocolate propicia um monitoramento da qualidade do cacau brasileiro valorizando o produto nos mercados nacional e internacional.

A diferenciação do produto vem permitindo a um número crescente de produtores escapar da dependência do mercado de commodities e investir na segmentação, do qual o bean-to-bar é um dos melhores exemplos.

O CIC é dirigido pelo biólogo Cristiano Villela Dias, doutor em Genética e Biologia Molecular e conta em sua equipe com os experientes biólogos e pesquisadores Adriana Reis e Samuel Saito também doutores em suas áreas de especialização. Dida Moreno, especialista em gestão de marketing pela Fundação Getúlio Vargas e recentemente incorporada à equipe do CIC, entusiasta do atual momento que vive o setor cacaueiro do Sul da Bahia avalia que: “a realidade é que os produtores de cacau inovadores estão com a sua autoestima elevada, em constante contato com novas tecnologias para o cultivo do cacau especial, em que a mais importante é a análise físico-química das amêndoas que aponta a qualidade do cacau e orienta como o produtor pode tornar a sua amêndoa adequada para entrar no mercado do cacau especial, que pode ser comercializada por 170 % a mais que o cacau Bulk.”

Um ambiente que estimula o desenvolvimento de mecanismos de cooperação, transferência de conhecimentos, complementaridade e exploração de sinergias, promove ganhos para todos agentes da cadeia e, ainda mais importante, promove o desenvolvimento econômico e social de toda uma região.

É isso o que está em curso no setor cacaueiro do Sul da Bahia e vem atraindo atenção e investimentos, podendo fazer dele modelo para o desenvolvimento de outros tantos setores produtivos no Brasil.

. Por: Arnaldo Francisco Cardoso, pesquisador e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie – São Paulo. Estuda cadeias produtivas e cadeias de valor.

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