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03/08/2019 - 07:43

Tusquets lança obra vencedora do prêmio francês Prix Gouncourt 2017

'A ordem do dia', do francês Éric Vuillard, narra dois eventos históricos ligados à ascensão do nazismo nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial.

Vencedor do prêmio Prix Goncourt 2017, o prêmio literário mais prestigiado da França, A ordem do dia chega ao Brasil em agosto pelo Tusquets, selo literário da Editora Planeta. Além do sucesso de crítica, o livro tornou-se um fenômeno de vendas, com mais de 500 mil cópias vendidas no mundo e teve seus direitos de publicação vendidos para mais de 30 países.

O escritor e cineasta Éric Vuillard narra, em passagens episódicas e com um grande elenco de personagens históricos, os bastidores de dois momentos-chave da Segunda Guerra Mundial: o apoio dado pelos maiores industriais da Alemanha a Hitler e a anexação da Áustria ao Reich.

O primeiro evento ocorre em 20 de fevereiro de 1933, quando o recém-nomeado chanceler da Alemanha, Adolf Hitler, conduz uma reunião para encorajar 24 líderes da indústria alemã – representando empresas, como Siemens, Shell, Allianz, BMW e Bayer – a investir no Partido Nazista. O argumento deles era de que o país clamava por estabilidade econômica e de que o socialismo nacional seria vantajoso para os negócios de todos.

Já em 12 de março de 1938, um dia repleto de situações e personagens, por vezes grotescos e ridículos, acontecia. Como pano de fundo, a anexação da Áustria – país de origem de Hitler - à Alemanha, que criaria assim o Terceiro Reich. O episódio não foi tão magnífico quanto à imprensa alemã retratou: problemas mecânicos, por exemplo, deixaram todos os tanques parados na estrada logo depois que eles cruzaram a fronteira com a vizinha Áustria.

O último capítulo dedica-se a Gustav Krupp, o industrial do aço que ilustra a capa do livro, responsável pela maior contribuição ao Partido Nazista em 1933: um milhão de marcos. O autor destaca como as grandes corporações lucraram com o trabalho escravo judeu e descreve as negociações para que as indenizações a sobreviventes do Holocausto fossem as menores possíveis. Após dois anos de discussões, Alfried – filho e sucessor de Gustav Krupp nos negócios – chegou ao valor de 1.250 dólares a cada sobrevivente, ação que deu uma notável publicidade à empresa.

Destaques e trechos: — Não ficção/Ficção: Vuillard trata de episódios e personagens reais da história, beirando à não ficção. O que dá o caráter literário à narrativa, entretanto, é a forte presença do estilo do autor no texto ao ampliar e aprofundar detalhes que não costumam encontrar espaço em nas abordagens mais amplas desse período histórico. Além disso, o escritor se permite a alguns exercícios de imaginação, como quando descreve Gustav Krupp, um dos maiores magnatas do aço, assombrado por um exército de fantasmas – os judeus mortos pelas condições de trabalho enfrentadas nos campos de concentração.

"Ele viu olhos enormes, figuras saíam das trevas. Desconhecidos. Ele sentiu um medo atroz. Ficou em pé, petrificado. Os empregados se imobilizaram. As cortinas pareciam de gelo. E ele teve a impressão de ver de verdade, de jamais ter visto tanto como nesse minuto. E o que ele viu, o que se ergueu lentamente da sombra, eram dezenas de milhares de cadáveres, os trabalhadores forçados, aqueles que a SS tinha fornecido para suas fábricas".

Passado ressoa no presente: O livro resgata episódios históricos importantes para entender a ascensão do nazismo. É difícil ler A ordem do dia sem fazer paralelos com a atualidade, especialmente no que diz respeito ao apoio empresarial que se dá a figuras autoritárias em momentos de crises (ou pela possibilidade de conquistar vantagens).

"Nunca se cai duas vezes no mesmo abismo. Mas se cai sempre da mesma maneira, em uma mistura de ridículo e terror". "Frequentemente, as maiores catástrofes se anunciam aos poucos".

Passado sombrio de empresas conhecidas: O autor fala abertamente sobre corporações que lucraram com o trabalho escravo de judeus e que ainda se mantém como grandes nomes dos negócios. Com ironia, Vuillard observa, por exemplo:

"No site do grupo Thyssen-Krupp, um dos líderes mundiais do aço, cuja sede ainda fica em Essen e cujas palavras de ordem hoje são suavidade e transparência, encontra-se uma notinha sobre os Krupp. Gustav não apoiou ativamente Hitler antes de 1933, ela nos informa, mas uma vez que este foi nomeado chanceler, foi leal ao seu país. Só se tornou membro do partido nazista em 1940, precisamente, para seu aniversário de setenta anos. Profundamente apegados às tradições sociais da companhia, Gustav e Bertha não deixaram, fosse como fosse, de manter viva aquela que consistia em visitar seus empregados mais fiéis quando de suas bodas de ouro. E a biografia termina com uma anedota tocante: durante muitos anos, Bertha, cheia de devoção, cuidou de seu marido inválido em uma pequena construção ao lado de sua residência de Blühnbach. Não menciona as usinas concentracionárias nem os trabalhadores forçados, nem nada".

Face cotidiana (e ridícula) do fascismo: Vuillard retrata, por exemplo, jantares e encontros — regados a bebidas e piadas sem graça -—que aconteciam entre grandes personagens do Partido Nazista enquanto os soldados alemães participavam de momentos-chave do que viria a ser a Segunda Guerra Mundial. Além disso, o escritor desmistifica a imponência de alguns eventos, como a entrada dos tanques alemães na Áustria.

Ah! Parecia um filme de comédia: um Führer ébrio de cólera, mecânicos correndo pela pista, ordens gritadas às pressas na língua rude e febril do Terceiro Reich. E depois, um exército, quando se precipita sobre você, quando desfila a trinta e cinco por hora sob o sol forte, dá um frio na barriga. Mas um exército em pane não é nada. Um exército em pane é absolutamente ridículo.

O autor — Éric Vuillard nasceu em Lyon, em 1968. Recebeu o Prêmio Ignatius J. Reilly em 2010 por Conquistadors e o Franz-Hessel em 2012 e o Valery-Larbaud em 2013 por Congo e La Bataille d'Occident. Além do Goncourt, A ordem do dia venceu também o Alexandre-Vialatte em 2017. Conta com mais de 500 mil cópias vendidas no mundo, e os direitos de publicação já foram vendidos para quase 30 países.

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