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02/06/2007 - 07:09

Competitividade asiática

Especialistas discutem as origens da competitividade chinesa e indiana Diagnósticos tradicionais ao modelo de crescimento chinês e indiano não se sustentam mais. O intenso crescimento econômico de China e Índia, em especial nos últimos quatro anos, não se baseia exclusivamente no baixo custo da mãode- obra, desrespeito ao meio ambiente e vantagem competitiva em produtos manufaturados de baixo valor agregado. Economias de escala, intenso desenvolvimento da infra-estrutura, estímulo à competição, baixo custo de capital e investimentos em educação são componentes de um novo padrão competitivo asiático que veio para ficar. Na análise de Arthur Kroeber, diretor da Dragonomics Research & Advisory e co-editor da China Economic Quarterly, a China ainda possui mão-de-obra de baixo custo, porém o país garante crescimento sustentável e de longo prazo em função de condições estruturais (como infra-estrutura física e educacional), que estão muito além do custo de trabalho.

Desafios Emergentes - Kroeber e outros especialistas convidados para a sessão introdutória da segunda conferência internacional do CEBC, Desafios Emergentes – a ascensão econômica de China e Índia e seus efeitos para o Brasil, buscaram caracterizar competitividade chinesa e indiana. O choque de competitividade provocado pela ascensão de ambos traz à tona a necessidade de estabelecimento de respostas brasileiras, públicas e empresariais, para lidar com os desafios e oportunidades decorrentes da ascensão asiática. Para empresários e membros do governo, é fundamental compreender os modelos de desenvolvimento chinês e indiano a fim de inserir competitivamente o Brasil no reordenamento produtivo global do século XXI.

Mudança estrutural nos termos de troca do comércio internacional – Arthur Kroeber prevê que a China deve crescer na casa de 8% ao ano por pelo menos mais 15 anos, o que implica em uma mudança estrutural e de longo prazo nos termos de troca no comércio mundial. Segundo projeções do pesquisador, a China responde hoje por 7% da produção industrial do mundo. Em 2040, essa fatia deverá chegar a 22%. “O mundo tem que aprender a lidar com isso”, resume.

O impacto do crescimento chinês deverá ser positivo para países exportadores de matérias-primas e insumos em geral, que deverão continuar assistindo ao aumento dos preços de seus produtos, em especial das commodities, cada vez mais escassas. Por outro lado, a tendência de preço para as manufaturas menos sofisticadas é de queda, dado o aumento de escala provocado pelo modelo indiano e chinês. “Vitoriosos serão os consumidores globais em razão da queda dos preços de bens manufaturados, bem como produtores de commodities e prestadores de serviços, que terão seus produtos valorizados. Os perdedores serão aqueles que trabalham nos velhos ramos da manufatura. Estes terão que ganhar competitividade com marca e tecnologia para sobreviver”, afirma Kroeber.

Demanda energética mundial agravada por chineses e indianos – Caso a China atinja um patamar de consumo per capita similar ao norte-americano, seriam necessários 80 milhões de barris de petróleo por dia (bpd) para sustentar seu crescimento, o que equivale a toda a produção mundial. A previsão foi feita por Wenran Jiang, diretor e professor de ciência política do China Institute da Universidade de Alberta, Canadá, segundo o qual a China consome atualmente 7 milhões bpd, ao passo que os EUA, com 5% da população mundial, utilizam 25% da produção global, o equivalente a 20 milhões bpd. Segundo Jiang, a crescente demanda chinesa pela commodity deve manter os preços em alta nos próximos anos, o que implica a necessidade de o mundo adaptar-se às necessidades energéticas chinesas e não ignorar a busca do país por parceiros fornecedores.

Do lado chinês, o governo deve empenhar-se na melhoraria de sua eficiência energética tanto no consumo quanto na produção. Atualmente, 70% da matriz chinesa são baseados no carvão, cuja exploração emprega trabalhadores em condições inseguras. Diariamente, 14 trabalhadores chineses morrem em acidentes em minas, o que evidencia a elevada ineficiência e o risco humano da produção.

Em 2007, a China deverá ultrapassar os Estados Unidos na emissão de gás carbônico, tornando-se o maior emissor global. Se concretizado, o fato representará uma antecipação em dois anos das estimativas até pouco tempo feitas por analistas do setor.

Educação garante competitividade – Em relação à Índia, Amit Ray, professor da Universidade de Jawaharlal Nehru (Índia), defende que a chave do crescimento do país é o conhecimento. “Nosso grande salto qualitativo foi conseguir transformar mão-de-obra barata em capital humano de elevada qualidade, especializada em biotecnologia, produtos farmacêuticos e tecnologia da informação. A combinação de tecnologia e capital humano explica nosso crescimento médio de 8% ao ano nos últimos quatro anos.”

Entretanto, Amit reconhece que as políticas indianas de formação deste capital humano são pouco inclusivas, o que gerou assimetrias significativas. Grande parte da população indiana ainda vive em condições de pobreza extrema. O índice de analfabetismo permanece elevado, e ainda é preciso aprimorar a qualidade do ensino no país.

Setor financeiro incipiente, uma questão de escolha – O desenvolvimento do setor real da economia em detrimento do setor financeiro foi uma decisão estratégica da China. O modelo de desenvolvimento chinês baseia-se na premissa de que o setor manufatureiro necessita de suporte financeiro durante seu desenvolvimento inicial. “Essa é uma escolha política que faz muito sentido: o setor financeiro não precisa dar muito lucro agora. O que sustenta o crescimento rápido e por muito tempo é o setor real. E essa é a prioridade estratégica da China”, afirma Arthur Kroeber.

De acordo com o analista, é simplificador pensar o problema do setor bancário chinês como um emprestador de dinheiro barato para empresas estatais. A principal lição que o modelo chinês pode dar a outras nações em desenvolvimento, na visão de Kroeber, é que, ao priorizar o setor manufatureiro em detrimento do financeiro, o desenvolvimento tende a ser mais intenso e muito mais sustentável.

Ainda segundo Kroeber, esse modelo é muito similar ao adotado por Japão e Coréia do Sul entre as décadas de 50 e 70, quando os bancos nacionais foram esponsáveis por facilitar o crédito para empresas envolvidas na produção. Wenran Jiang também concorda que o sistema financeiro chinês, apesar de mergulhado em volumes expressivos de créditos irrecuperáveis, não corre risco de sofrer uma crise que afete estruturalmente o crescimento do país. Segundo Jiang, o expressivo volume de poupança nacional, na casa de 40% do PIB, e as reservas acima de US$ 1,2 trilhão são um colchão de segurança para o sistema financeiro. “Não há risco de desmantelamento. O dinheiro disponível nos setores público e privado garante o processo de reestruturação”, acredita.

Já de acordo com Kroeber, há uma mudança dramática do sistema financeiro desde o início da década de 90. “Antes, o sistema era um sustentáculo da seguridade social na China. Esse mecanismo foi desmontado e hoje os bancos estão muito mais saudáveis do que já estiveram, e são perfeitamente sustentáveis”, avalia.

Desafios à competitividade – Para Jiang, o sistema de partido único é uma limitação à competitividade chinesa. “Há dúvidas se a China será capaz de construir um arcabouço jurídico de concorrência em um Estado de partido único.” O especialista também cita como desafios a rápida urbanização e o aumento da desigualdade.

“Há grandes expectativas de ascensão social provenientes da possibilidade de migração na China. Os chineses da zona rural gastam 30% de sua renda em saúde, mais 30% para educação. É muito difícil para a sociedade adaptar-se ao aumento das desigualdades”, explica o professor.

Uma crítica comum ao modelo de desenvolvimento chinês, a falta de respeito ao meio ambiente, também está em vias de mudança. Dada a fase de internacionalização das empresas chinesas, muitas estão se adaptando às regras internacionais a fim de se tornarem globais. “Considerar a China competitiva porque o país não respeita o meio ambiente está se tornando cada vez menos válido. O processo de desenvolvimento está ficando mais complexo, e é preciso acompanhar isso”, resume Kroeber.

O que deve ser feito – Do empresariado nacional às autoridades chinesas e brasileiras, a mensagem é unânime: a China assusta, em especial em função da entrada de produtos a preços competitivos, que ganham terreno no mercado interno afetando indústrias domésticas, mas é preciso acabar com o desconhecimento bilateral se o Brasil quiser garantir melhora qualitativa do intercâmbio comercial e incrementar o fluxo bilateral de investimentos com os emergentes asiáticos. Segundo o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Ivan Ramalho, “não se deve cair na tentação das soluções simplistas, como preconizar um protecionismo, de resto pouco eficaz como instrumento de proteção em um mundo globalizado onde os processos produtivos são cada vez mais internacionalizados”. A prosperidade de China e Índia deve ser encarada positivamente, como foco de oportunidades para a economia brasileira em geral.

Elevação da TEC- competitividade garantida só no curto prazo: A fim de reduzir concorrência de produtos chineses e abrandar a espera pelo término do processo de investigação de dumping, o governo brasileiro aprovou mais uma medida paliativa em abril. Se aceita pelos demais membros do Mercosul na próxima reunião de Cúpula, prevista para junho, a Tarifa Externa Comum (TEC) sobre têxteis e calçados importados será elevada para 35%, limite máximo permitido pela Organização Mundial do Comércio (OMC).

A medida afetará aproximadamente 315 itens, cuja tarifa média atual é de 20%, e é extensiva a todos os países exportadores dos produtos selecionados. Diferentemente do que ocorre com a implementação de mecanismos de defesa comercial, a tarifa não se restringe a mercadorias originárias da China investigadas por subfaturamento. O governo brasileiro negou caráter protecionista e, segundo o ministro do Planejamento, Guido Mantega, a elevação da TEC é apenas resposta à concorrência desleal da China nesses setores, e irá garantir sobrevida aos fabricantes nacionais.

Embora o governo brasileiro tenha reconhecido que a medida não é eficaz para solucionar o problema de competitividade de fabricantes brasileiros, sua aprovação não está vinculada a qualquer exigência de aumento de investimento ou modernização tecnológica dos setores afetados. Um mês após anúncio, o governo anunciou que pretende acelerar concessão de linhas de crédito para os mesmos setores. Indústrias naval, automotiva e moveleira também serão beneficiadas pelo programa. Não houve, porém, qualquer estabelecimento de prazo para dar início ao programa de crédito.

O Brasil segue caminho oposto a países em desenvolvimento que, geralmente, tendem a adotar tarifas significativamente inferiores aos limites consolidados na OMC a fim de garantir concessões recíprocas durante negociações. A decisão também contradiz a própria atuação brasileira no organismo internacional. Ao mesmo tempo em que se intitula defensor da liberalização agrícola na Rodada de Doha, o Brasil reduz a diferença entre tarifas consolidadas e efetivamente aplicadas. Elevar a TEC pode significar entraves nas negociações multilaterais.

Têxteis – A nova tarifa restringe-se a vestuários e confecções. Tecidos ficarão isentos, o que limitará o impacto da elevação tarifária sob o custo da matériaprima para indústrias de confecção e, conseqüentemente, deverá produzir poucos efeitos sobre o preço final de venda de artigos do setor no mercado doméstico.

Em 2006, as importações brasileiras da China de têxteis registraram crescimento de 168,9% em relação a 2005. Em peso a diferença é pouco inferior, de 159,1%. No mesmo período, entretanto, o volume de têxteis comprados pelo Brasil do exterior também aumentou, e a participação da China no mercado brasileiro do produto reduziu de 7,8%, em 2004, para 4,2% em 2006.

Calçados - Em 2006, as importações brasileiras da China de calçados somaram US$ 91,6 milhões, crescimento de 112,3% com base em 2005, e de 191,6% comparado a 2004. Em peso, a diferença se reduz para 106,4% e 156,6% em relação a 2005 e 2004, respectivamente. No mesmo período, as importações brasileiras totais do produto – de participação pouco expressiva no consumo interno aumentaram 121,9%, comparadas a 2005, e 206,7% em relação a 2004.

Assim como o caso do setor têxtil, a participação da China no total de calçados importados pelo Brasil sofreu redução nos dois últimos anos, de 70,2% em 2004 para 61,3% em 2006. No mesmo período, a participação do Vietnã nas compras brasileiras do produto triplicou. O país é o terceiro maior exportador de calçados mundial, atrás apenas de China e Hong Kong. Apesar da tomada de mercado de consumo dentro do Brasil, os produtos asiáticos representam um desafio muito mais importante para a indústria brasileira na competição por terceiros países. De setembro de 2006 a fevereiro de 2007, as importações da Argentina de calçados chineses e vietnamitas cresceram 169% e 154%, respectivamente, ao passo que as compras do produto brasileiro aumentaram 24,5%.

Déficit comercial recorde em foco na segunda edição do diálogo econômico-estratégico A segunda edição do diálogo econômico-estratégico sino-americano, realizado nos dias 22, 23 e 24 de maio, em Washington, ocorreu sob cenário turbulento. O ano de 2007 tem sido delicado para as relações entre chineses e norte-americanos: declarações sinofóbicas de congressistas em Washington, aplicação de medidas compensatórias às importações de papel chinês e abertura de processo contra a China na OMC por conta de subsídios ilegais à exportação e desrespeito à propriedade intelectual. Como agravante, os Estados Unidos nunca registraram déficit comercial tão exacerbado com a China – a subvalorização do yuan em relação ao dólar continua alvo de sucessivas críticas.

O encontro, arquitetado em 2006 com o objetivo de reunir autoridades dos dois países para dirimir as tensões comerciais bilaterais, teve sua primeira edição realizada em dezembro passado, na capital chinesa. Na ocasião, os Estados Unidos enviaram delegação recorde à China. Dessa vez, foi o momento de os chineses deslocarem-se até Washington para três dias de conversações de pauta extensa, porém não muito diferente da pauta de encontros prévios realizados entre os dois países. Wu Yi, vice-primeira ministra da China e líder do país para questões comerciais, levou consigo quase metade do seu gabinete para defender-se das acusações do governo e Congresso norte-americanos. A ministra repetiu inúmeras vezes que embates não solucionam problemas, visto que seu país não vai se render às pressões dos Estados Unidos.

Fato é que o superávit chinês com os Estados Unidos superou as expectativas e bateu recordes seguidos em março e abril. Em 2006, o déficit norte-americano com a China registrou aumento de US$ 31 bilhões para US$ 232,5 bilhões1. Somente nos quatro primeiros meses de 2007, o déficit cresceu 20% em relação ao mesmo período de 2006, de acordo com as estatísticas do governo chinês. Outro recorde mensal foi registrado em março: o déficit chegou a US$ 16,87 bilhões, ante US$ 6,9 bilhões do mesmo mês de 2006.

Os Estados Unidos querem que a China estimule o consumo interno a fim de garantir outro motor de crescimento além das exportações e do investimento.

Com o aumento do consumo doméstico, a China também passaria a importar mais produtos dos Estados Unidos. A defesa deste argumento embute uma tentativa de proteção dos trabalhadores norte-americanos, que reclamam de perda de empregos por conta da invasão de produtos chineses baratos.

Em momento de redefinição de vantagens comparativas, a elevação tarifária apenas retarda o suposto “surto” das importações de produtos asiáticos e camufla as deficiências do setor produtivo brasileiro. O volume pouco expressivo de investimentos, a falta de projetos voltados para modernização dos setores afetados e a permanência de carga tributária excessiva não permitem resolver o principal desafio do parque industrial brasileiro: a baixa competitividade. Para evitar perda em terceiros mercados e no mercado doméstico é preciso executar reformas estruturais há tempos na agenda do governo brasileiro.

Nova estratégia: Congresso – A fim de tentar reduzir a fobia asiática disseminada no Congresso norte-americano, Wu Yi repetiu o que já havia conversado com o secretário do Tesouro, Henry Paulson: emitir sanções contra a China reduzirá as chances de resolver os desentendimentos amigavelmente. Mudar o foco da reunião da Casa Branca para o Congresso foi estratégico. Ao conversar com os congressistas, Wu procurou estabelecer metas de longo prazo com os norte-americanos, a fim de não deixar o relacionamento bilateral ao sabor da maré e do humor da Casa Branca.

A tarefa não é fácil: o Congresso insiste no yuan como inimigo número 1 de um relacionamento equilibrado com a China. O país asiático é acusado pelos congressistas de ser um manipulador cambial, financiador de exportações através de subsídios ilegais e violador de leis de propriedade intelectual e outras regras de comércio internacional. O número de projetos de lei contra a China tem crescido espantosamente – desde o início do ano, foram emitidos 15. Analistas afirmam que, ao contrário do histórico de acusações do Congresso norte-americano contra a China, alguns dos projetos de lei podem ter grande impacto nas exportações chinesas ao Estados Unidos.

Por conta de metodologias diferentes, em 2006 a China estimou superávit com os Estados Unidos de US$ 144 bilhões. A contagem norte-americana contabiliza as importações provenientes de Hong Kong. Não se pode, porém, acreditar no mito de que o yuan desvalorizado é o único responsável pela explosão das exportações chinesas aos Estados Unidos. O valor da moeda chinesa aumentou cerca de 1,5% em relação ao dólar desde o início de 2007, e 8% desde o abandono do câmbio fixo em julho de 2005. A valorização é modesta e os Estados Unidos cobram que a China eleve o valor de sua moeda em 20% ou mais. Analistas afirmam, porém, que apenas a valorização não diminuirá o déficit norteamericano. Muito do que os Estados Unidos compram da China é originário do Japão, Coréia do Sul e Taiwan – a China importa componentes desses países e exporta os produtos finais à América. É evidente que um yuan mais flexível e valorizado permitiria à China diversificar o consumo (por meio da elevação das importações) e aumentar o controle sobre a taxa de juros, com possíveis resultados positivos para a desaceleração do superaquecimento. Mas o efeito comercial para os Estados Unidos seria irrisório.

Além do imbróglio comercial que envolve a moeda chinesa, os Estados Unidos recentemente entraram em novos litígios contra a China na OMC. Os norteamericanos abriram investigação contra os chineses acusando-os de proverem subsídios ilegais ao setor exportador e discriminarem as importações provenientes dos Estados Unidos. Em abril, foi a vez dos direitos de propriedade intelectual e restrições às vendas de filmes, músicas e livros americanos em território chinês serem alvo de painel investigativo. Fora da OMC, outra briga foi comprada pelo secretário de comércio dos Estados Unidos, Carlos Gutierrez. O secretário anunciou a aplicação de medidas compensatórias de 10% a 20% sobre gama seleta de produtos chineses, entre os quais papel revestido. A medida terá impacto limitado no déficit norte-americano – as importações americanas de papel revestido chinês em 2006 foram de apenas US$ 224 milhões –, entretanto o uso de medidas compensatórias marca mudança significativa na estratégia estadunidense.

Pequenas concessões – Concessões feitas pela China não vão acalmar os ânimos dos democratas do Congresso norte-americano. A China, por sua vez, preocupase com seu calendário político doméstico – o país não quer desestabilizar sua economia com grandes mudanças às vésperas do encontro qüinqüenal do Partido Comunista e das Olimpíadas de Pequim. Algumas medidas, porém, foram tomadas previamente ao Diálogo para amenizar as diferenças.

Como forma de equilibrar o relacionamento bilateral e ganhar apoio político, foi realizada missão de aquisições e investimento liderada por Ma Xiuhong, vice-ministra de comércio. Empresários chineses assinaram contratos de US$ 4,3 bilhões em São Francisco. A delegação, composta por seis grupos manufatureiros representando 208 companhias, passou também por 25 cidades norte-americanas, incluindo Atlanta, Chicago e Washington. Espera-se que a missão negocie US$ 16 bilhões em acordos.

Em outra negociação, o Eximbank americano e o Eximbank chinês abriram linha de crédito para exportações norte-americanas para a China, com o objetivo de promover os empregos do setor exportador dos Estados Unidos e o desenvolvimento sustentável da China. As duas instituições assinaram um memorando de entendimento na forma de acordo de crédito de longo prazo para financiar exportação para a China acima de US$ 20 milhões. A primeira operação, acertada entre a Harsco Corporation e o Ministério das Ferrovias chinês, prevê o financiamento de US$ 164 milhões em equipamentos para manutenção de ferrovias.

Em medida indireta, mas que beneficia companhias norte-americanas, a China concordou em abrir mais seu setor financeiro para empresas estrangeiras e em ampliar os serviços de aviação civil entre os dois países. O país permitirá a formação de joint ventures no ramo de corretoras de valores, além de aumentar o escopo da atividade dessas empresas. O limite de recursos que os investidores estrangeiros institucionais podem aplicar no mercado chinês será aumentado de US$ 10 bilhões para US$ 30 bilhões. China e Estados Unidos assinaram também acordo que prevê que o número de vôos diários entre os dois países passe de 10 para 23 até 2012. No mesmo documento, foi acordado que companhias aéreas norte-americanas de carga terão acesso livre ao país asiático.

Diplomacia sino-americana – Está claro que China e Estados Unidos se entendem melhor quando o assunto foge do âmbito comercial. Basta lembrar da cooperação nas conversações sobre a Coréia do Norte, Irã e Taiwan. Aquecimento global é outra temática na qual não há grandes discrepâncias de opinião.

Quando o assunto é comercial, os avanços serão lentos, como foi verificado no encontro. O Congresso norte-americano não deixará de reclamar quanto ao valor da moeda chinesa e a invasão de produtos. Enquanto isso, a China insistirá na facilitação da entrada de produtos chineses de alto teor tecnológico e tratamento do país asiático como economia de mercado.

Desafios domésticos ficaram evidentes nas conversações e estarão presentes também nos próximos encontros. A aproximação da assembléia qüinqüenal do Partido Comunista obriga Hu Jintao a evitar que o país ceda a pressões norteamericanas. E os Estados Unidos, por sua vez, precisam lidar com suas instabilidades internas, como o aumento da desigualdade de renda de seus trabalhadores e a crise nos sistemas de saúde e previdenciário.

Desenvolvimento socioeconômico: China é principal tema da reunião anual do Banco de Desenvolvimento Africano -Com foco em desenvolvimento de linhas de crédito, ajuda financeira e humanitária a países debilitados, administração de dívida externa e, sobretudo, cooperação sino-africana, o Banco de Desenvolvimento Africano (AfDB, em inglês) realizou reunião anual de diretoria em Pequim. O encontro, realizado nos dias 16 e 17 de maio, terminou transformando-se em um palco de projeção dos interesses chineses no continente, e foi alvo de preocupação de organismos internacionais.

Assim como no caso latino-americano, a crescente demanda chinesa por commodities também aqueceu as relações da China com a África. Esse é o segundo grande evento envolvendo autoridades africanas realizado na China em seis meses – o primeiro, uma reunião de líderes políticos do continente, em novembro de 2006, teve como sede Xangai.

A China tem feito apostas agressivas na exploração de fontes alternativas para fornecimento de matérias-primas, sobretudo metais, petróleo e gás, em diferentes países da região. Durante a reunião, o governo chinês aprovou a liberação de US$ 1 bilhão do fundo chinês de desenvolvimento para a África, que no total soma US$ 5 bilhões. O país também anunciou investimento de US$ 20 bilhões em infraestrutura e em projetos que estimulem trocas comerciais nos próximos três anos.

Apesar de bem-vindos, os investimentos chineses apontam para novos desafios no continente, em especial sobre como lidar com a mão-de-obra chinesa migrante, infraestrutura seletiva, dumping de produtos e incentivos financeiros a países com histórico de desrespeito aos direitos humanos.

A África tem registrado os maiores índices de crescimento econômico desde a década de 70, e a previsão para 2007 é de que o crescimento médio mantenha-se próximo a 6%. O AfDB atribui os resultados ao aprimoramento do ambiente de negócios e, sobretudo, a alta do preço de commodities no mercado internacional – efeito da demanda chinesa por recursos naturais e fontes de energia. Na última década, o comércio sino-africano aumentou quase dez vezes, para US$ 55 bilhões, volume pouco significativo em valor para a economia chinesa, porém de grande relevância para países africanos, geralmente à margem dos fluxos de capital internacional. “Quanto maior o volume de recursos destinados à África melhor, contudo, a China deve ainda compreender os benefícios de fazer parte de um esforço coletivo”, destaca o vice-presidente do AfDB, Thierry de Longuemar, ao reconhecer a necessidade de que os investimentos realizados sejam aplicados de forma a permitir a sustentabilidade econômica do continente no longo prazo. Essa visão é compartilhada por Neuma Grobbelaar, diretora de pesquisa do South African Institute of International Affairs (SAIIA).

“Não há dúvidas de que a África é importante para a China e que os investimentos chineses são relevantes. No entanto, a China tem potencial para desestabilizar as economias africanas na medida em que seus objetivos são claros. Cabe aos países africanos não ceder incondicionalmente”, afirma. A fim de garantir fornecedores de longo prazo, contratos de exploração e venda de matéria-prima são atrelados a pacotes bastante atrativos que envolvem empréstimos a baixo custo e investimentos, prática comum no relacionamento sino-africano desde a década de 60. Além das receitas advindas com a comercialização dos produtos, o país se beneficia de cooperação em outros setores, como saúde, infra-estrutura e educação. Esses projetos são, na prática, estratégias para garantia de abastecimentos futuros.

Nem sempre os pacotes oferecidos pelo governo chinês para garantir que a crescente demanda nacional por recursos naturais será atendida destina-se a melhorias para sociedade. Entre os acordos, está o fornecimento de armamentos para líderes locais. Em função da instabilidade política de parte dos parceiros chineses no continente, o comércio de armas é negócio bastante lucrativo, além de servir para proteger reservas de recursos naturais, e assim seus investimentos no continente. O caso mais ilustrativo é o fornecimento de aviões de combate para o governo sudanês. Além de atender aos interesses do governo local – de combate aos rebeldes no sul do país –, o armamento foi utilizado para a proteção do campo de exploração de petróleo da estatal China National Petroleum Corporation (CNPC) na região.

Nesse cenário, o Eximbank chinês acaba atuando como competidor do AfDB na região, uma vez que as duas instituições visam suprir a carência de doações internacionais de recursos para projetos relacionados ao setor de infra-estrutura – o financiamento externo destina-se, em sua maioria, a áreas de saúde e educação. Se por um lado a competição entre as duas instituições pode gerar aperfeiçoamento e reformas, de outro a presença chinesa incentiva a contração de novos empréstimos, uma vez que o AfDB perdoou dívidas de aproximadamente US$ 5 bilhões desde 1998.

Sudão – Ativistas envolvidos em campanhas pelo término do genocídio no Sudão parecem ter conseguido sua primeira vitória. A norte-americana Fidelity Investments, maior administradora mundial de fundos mútuos, desfez-se de 91% do total de ADRs (American Depositary Receipts, títulos que possibilitam aos investidores norte-americanos aplicar seus recursos em títulos de empresas estrangeiras) que detinha da PetroChina. O motivo não foi divulgado pela companhia, porém especula-se que pressão de organismos internacionais favoráveis ao embargo econômico ao Sudão e movimentos transnacionais de direitos humanos que encorajam o “desinvestimento” no país teriam exercido influência significativa.

Em abril, as importações chinesas de petróleo sudanês registraram aumento de 539% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Comércio bilateral Governo brasileiro aprova medida antidumping e sobretaxa pedivela chinesa - Oito meses após pedido de investigação de fabricantes nacionais, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) aprovou direito de antidumping contra pedivelas – peça que liga pedais à corrente de bicicleta – exportados pela China ao Brasil. A partir de maio, o produto passou a ser sobretaxado em US$ 2,39 por quilo. Inicialmente, produtores nacionais de pedivela haviam formalizado pedido de investigação para adoção de salvaguarda contra fabricantes chineses do produto.

Contudo, a fim de evitar desgaste das relações bilaterais, o governo brasileiro optou pela aplicação de direito de antidumping. A decisão pela sobretaxa proporcionou aumento significativo no custo total de importação, o que permitirá a sobrevivência, pelo menos temporária, de fabricantes brasileiros. A medida é paliativa, uma vez que não produz impactos sobre a competitividade de empresas brasileiras do setor.

Alto-falantes, escova de cabelo, árvores de Natal, bola de Natal, armações de óculos, óculos de sol e talhas manuais são outros produtos que estão sob processo de investigação no MDIC.| Por: CEBC

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