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24/03/2021 - 08:37

Isaac Ferreira — Oportunidade, crédito e credibilidade: o mercado de usados em plena expansão


Isaac Ferreira, head de Engenharia de Produtos da Tecnobank

Um automóvel de luxo com dois anos de uso pode não ser mais interessante para quem comprou esse produto zero quilômetro, mas tende a ser uma opção vantajosa, se comparada com um veículo básico novo pelo mesmo preço. Mas as vantagens de conforto, espaço, preço e tecnologia não são os únicos argumentos que sustentam a explicação para a crescente demanda por veículos usados e semi-novos no Brasil que, mesmo diante de uma crise econômica sem precedentes, registrou a venda de 11,4 milhões de unidades em 2020. Isso significa o equivalente a 83% do mercado total.

A evolução do mercado automotivo pode explicar esse movimento. Primeiro, porque os veículos não saem mais de fábrica com apenas um ano de garantia. Atualmente, as montadoras dão de três a seis anos de garantia - ou seja, um carro com dois anos de uso pode estar em perfeito estado se tiver todas as revisões feitas corretamente.

O segundo ponto - e talvez o que melhor explique a procura de usados em momento de crise - é financeiro. O real foi a moeda mais desvalorizada no mundo em 2020, e com o fato de grande parte dos componentes e tecnologia embarcados nos veículos novos serem taxados em dólar, o preço dos zero quilômetros ficou mais alto para nós. Por outro lado, os agentes financeiros não pararam de liberar crédito. Ao contrário, o fizeram de forma constante, sustentável, com prazos alongados e taxas baratas. Foram mais de R$ 122 bilhões em concessões para o financiamento de veículos. E, de todos os carros financiados em 2020, 78% foram usados, segundo entidades do setor.

Outro ponto que pode justificar que menos de 1/5 de todos os carros vendidos no Brasil no ano passado tenham sido zero quilômetro é a confiança do consumidor. Antigamente, era muito fácil entrar em ciladas e ser enganado na compra de veículos usados. Fraudes das mais diversas, como adulteração de quilometragem, de chassi, ocultação de colisões, problemas de documentação, herdar multas mais caras que o valor do próprio carro, comprar um carro roubado, entre outros inumeráveis golpes que nascem e se proliferam como vírus.

Com a internet e o comércio eletrônico, os truques ficaram mais sofisticados, mas a tecnologia também veio para ajudar o consumidor, com produtos que realizam um raio-x do veículo e garantem a procedência por meio de laudos completos. Esses relatórios apontam se o veículo é exatamente o que está sendo anunciado e evitam surpresas, por meio de vários recursos, como consulta da placa, decodificação, laudo veicular, informações de leilão, avaliação de garantia, verificação dos números de motor-chassi, entre outros. Esse tipo de ferramenta dá segurança não apenas ao consumidor, mas às instituições financeiras na hora da liberação do crédito. Porque os golpes podem acontecer dos dois lados: na compra e na venda de veículos.

Existem quadrilhas especializadas em falsificar documentos e clonar carros advindos de furtos ou roubos. Outros, compram o veículo em nomes de laranjas e vendem pelo preço que desejarem, uma vez que não pretendem pagar o financiamento. Por isso, é extremamente importante saber a procedência do veículo. Quanto mais informação e documentação existir para comprovar o histórico do carro, menor a chance de ser um golpe.

Assim, as perspectivas para o mercado de usados e semi-novos seguem em alta em 2021. Concessionárias que tiveram os pátios esvaziados em 2020 já estão repondo os estoques e as instituições financeiras se preparam para um novo recorde no segmento.

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