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24/06/2020 - 08:32

Ex libris ad virus (Dos livros para o vírus)


Olhai os lírios do campo. Eles ainda guardam uma felicidade clandestina. Vede... A peste do mundo não plantou entre eles as flores do mal. Nem mesmo O tempo e o vento transformaram o prado vicejante em lavoura arcaica.

Do outro lado, as cidades e as serras ecoam o que os sinos da agonia choram. Por quem os sinos dobram? O que pranteiam? E o vento levou a resposta para cada recanto do planeta: Todos os nomes de todos os homens e de todas as mulheres estão inscritos na lista ameaçadora das ilusões perdidas. Nunca esteve a ressurreição tão distante.

Ninguém poderia adivinhar o risco do bordado que o feliz ano novo preparou para depois do réveillon: a condenação universal a uma temporada no inferno, sorvendo o absinto de um copo de cólera.

É irônico, mas a insustentável leveza do ser de um vírus foi o apocalipse da história, o enredo do livro sobre nada, a distopia que confundiu a vida como ela é.

A coerência se contorce nos embates entre o ser e o nada. Mesmo oprimido, o ser teima em olhar para o alto, pois o sol também se levanta. Triste olhar... Do seu topo, o morro dos ventos uivantes solfeja trágica melopeia para os miseráveis recitarem suas queixas.

Meu Deus, quantas vidas secas sepultadas na terra desolada! A feroz fome das covas devora os sonhos que jamais serão exumados. Enterros soturnos, sem o coro angelical do cântico dos cânticos. A terra não consegue dormir, é terra sonâmbula, enfastiada de pesadelos despertos.

É tempo de lamentações, de chorar o paraíso perdido, de tentar o impossível... mas o impossível vence: O Beijo no asfalto não faz morangos mofados brotarem novos.

Talvez penseis que tudo isso é crime e castigo. Não sou Deus para julgar se é crime nem se merece castigo. Talvez imagineis que a cinza das horas seja o ninho da fênix. talvez a cinza seja o derradeiro farelo de um baú de ossos já desfeitos. Será? Afinal, o diário que o cemitério dos vivos guarda em suas tétricas alcovas é sempre inacabado.

No entanto, a angústia também pode gerar o broto germinal de novos laços de família, evitando que sejamos condenados a cem anos de solidão. mesmo com o coração sufocado, temos que caminhar. sem êxodo. As respostas virão nos passos que transformam. Sigamos juntos on the road.

Olhai de novo para os lírios. Escutai: alguma poesia eles sussurram e colorem. se os olhos sensíveis conseguem enxergar a cor do invisível, também podem entender o claro enigma dos lírios. Mesmo sendo ceifados, eles voltam novamente, pois o impulso à vida faz com que os lírios não desistam de ser lírios.

A hora da estrela virá. a noite vivenciará a metamorfose da aurora e o céu mostrará a tão esperada estrela da manhã. o que virá neste dia? Um admirável mundo novo? uma história meio ao contrário? Como saber se será ou isto ou aquilo?

Seja o que for, a lembrança não pode ficar apenas fixada no calendário. É preciso reinventar a história, fazer da lembrança uma quase memória para que o passado não se repita como um pêndulo trágico. Lembrar para recriar.

Os lírios... Olhai os lírios! Em cada reaparecimento, a invenção de um novo florir.

. Por: José Antônio Oliveira de Resende, professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa do Departamento de Letras, Artes e Cultura da Universidade Federal de São João del-Rei e, membro da Academia de Letras de São João del-Rei.

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