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25/06/2019 - 07:11

Investimentos e inovações impulsionam setor do cacau


Professores A.F.Cardoso e F.G.Romito com os pesquisadores Dutra,T.C.S., Saramelli, C.H., Broilo, P.L. e Brasil, G.J.

No mercado mundial do chocolate, que movimenta cerca de US$ 100 bilhões ao ano, o lugar dos produtores de cacau e o dos fabricantes e consumidores de chocolate sempre estiveram muito bem demarcados. Junto com países do continente africano, que hoje concentram cerca de 70% da produção mundial de cacau, o Brasil já foi um grande exportador do fruto, mas, com a praga da vassoura-de-bruxa que no final dos anos 1980 dizimou 2/3 da produção do estado da Bahia, que chegou a concentrar 90% da produção nacional, o setor encolheu e teve que enfrentar longo período de recuperação. Nos últimos anos, ao acumular sucessivas taxas de crescimento do consumo, o setor entrou em animadora fase de novos investimentos e inovações, tanto em produtos quanto em processos, com potencial de reconfigurar o setor e alça-lo a um novo patamar de importância.

No que diz respeito a investimentos, basta observar as ações de duas líderes do setor no país e de uma “novata” que chegou mostrando saber que pode ir longe.

O grupo CRM que conta hoje com cerca de 800 pontos de venda e receita anual em torno de R$ 1,5 bilhão, desde a aquisição em 2004 da Kopenhagen e em 2009 da Chocolates Brasil Cacau, tem mostrado um apetite para ampliar seus negócios e, sob a direção de Renata Moraes Vichi, vem adotando estratégias orientadas aos diferentes nichos do mercado, sendo disto exemplo a joint-venture firmada em 2014 com a renomada marca suíça Lindt, fortalecendo sua presença no segmento premium.

Também com muita determinação a Cacau Show, que tem mais de 2,2 mil unidades e em 2018 faturou R$ 3,5 bilhões mantém uma política de investimentos, em parte financiada pelas franquias, inaugurando a cada ano mais de uma centena de lojas. De olho no segmento premium, lançou no ano passado a Bendito Cacau, que promete acirrar a disputa nesse nicho que cresce a taxas animadoras.

Além das líderes acima mencionadas, é de uma “novata” que os movimentos mais ousados vem despertando especial interesse. Sem se inibir pelos problemas da vassoura-de-bruxa ainda presentes na região cacaueira da Bahia, o empresário Guilherme Leal, conhecido pelo arrojo com que conduz a Natura, vem nos últimos anos investindo fortemente na compra de fazendas na região, sendo disto um exemplo a aquisição da histórica e produtiva fazenda Probidade, pelo valor de R$5 milhões.

Mas os investimentos do empresário em cacau no sul da Bahia revelam um escopo muito maior que o de mais um projeto de produção de cacau estimulado por bons números do mercado. A entrada de Leal no setor está estruturada por um projeto social, de intervenção para retomada do dinamismo da região e melhora dos processos em cada elo da cadeia produtiva, o que deverá redundar em aumento da renda de produtores, melhora da infraestrutura regional, além da geração de novos negócios. Em sua nova empreitada Guilherme Leal conta com a parceria engajada de Stevan Sartorelli, CEO da Dengo, a nova marca de chocolate que vem se fazendo presente no mercado desde 2018 com lojas em São Paulo e Rio de Janeiro.

Se nos elos da produção e da distribuição a movimentação tem sido grande, o mesmo pode ser observado nos primeiros elos da cadeia produtiva, que hoje conta com importantes produtores também em outros estados como é o caso do Pará, que se tornou o segundo maior produtor nacional, logo depois da Bahia.

Como avaliou recentemente o empresário e promotor do setor Marco Lessa “a expansão da cacauicultura no Pará, fomentada pelo governo do Estado e pela Ceplac, jogou luz sobre o potencial da quantidade e da qualidade do cacau da região Norte”.

E é nesse contexto que um grupo de estudantes da área de administração e comércio exterior da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, apresentou no último dia 12 para banca avaliadora, a primeira etapa de uma pesquisa com objetivo geral de mapear as principais iniciativas e compreender as motivações e dificuldades dos produtores do estado do Pará em processos de agregação de valor no primeiro elo da cadeia de valor do cacau.

No segundo semestre, os pesquisadores com acompanhamento de professor orientador, realizarão entrevistas junto a produtores e profissionais de instituições de apoio como a CEPLAC (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira), CIC (Centro de Inovação do Cacau), World Cocoa Foundation, governo estadual, entre outros, para subsidiar com relatos de experiências a pesquisa.

Como bem apontado no livro “Cacau, riqueza de pobres” organizado pelos professores e pesquisadores Francisco Mendes Costa e Naisy Silva é preciso conhecer e implementar medidas para a superação das “limitações da cacauicultura como atividade econômica, impedida de atingir as elevadas taxas de desenvolvimento sustentável das regiões produtoras”. Na produção do Pará têm sido marcantes os processos de agregação de valor, voltados ao aumento da produção do cacau fino que depende, sobretudo, de cuidados especiais no plantio, colheita, fermentação e secagem das amêndoas.

Os bons resultados disso têm sido atestados por eventos como o Concurso Nacional de Qualidade Cacau Especial do Brasil, realizado no começo do ano em Ilhéus (BA) quando Ervino Gutzeit e sua filha Elcy Gutzeit, tradicionais e empreendedores produtores do Pará, ganharam respectivamente o primeiro e o segundo lugar na categoria blends. E de olho no Prêmio Internacional de Cacau (ICA), oito amostras das melhores amêndoas do país já foram enviadas para a comissão avaliadora do Salão do Chocolate de Paris, que ocorrerá em outubro próximo.

Costa do Marfim, Gana e Camarões lideram os rankings mundiais de produção de cacau e exportam a matéria-prima para grandes indústrias de chocolate da Europa, Estados Unidos e resto do mundo, retendo muito pouco da riqueza gerada pelos produtores nacionais. Diferentemente desses países, o Brasil é o único produtor de cacau que conta com todos os elos da cadeia produtiva bem representados, sendo também grande produtor e consumidor de chocolate.

Na nova fase iniciada, o setor cacaueiro brasileiro pode se tornar exemplo de que a criação de valor econômico não só é compatível como se fortalece com a criação de valor social, e essa compreensão pode levar a significativas transformações.

. Por: Arnaldo F. Cardoso, professor e pesquisador na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atua nas áreas de Administração, Comércio Exterior e Inteligência de Negócios. E-mail: [email protected]

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