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23/05/2018 - 07:42

Arnaldo Francisco Cardoso — Sustentabilidade em setores de produção intensivos em recursos naturais

Arnaldo Francisco Cardoso, professor de comércio e negócios internacionais na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atualmente desenvolve pesquisa sobre a cadeia produtiva da cerâmica no Brasil. E-mail: [email protected]

Mudança cultural, novos processos e ganhos de competitividade.

Desde a Conferência de Estocolmo, de 1972, o debate sobre desenvolvimento e meio ambiente passou a integrar a agenda de nações no mundo todo, colocando a cada momento novos desafios a serem enfrentados. Vinte anos depois dessa primeira conferência mundial sobre meio ambiente, coube ao Brasil sediar, na cidade do Rio de Janeiro, a maior conferência mundial de meio ambiente, conhecida como ECO 92, que avançou na problematização da questão, invocando os conceitos de desenvolvimento sustentável e de direito ao desenvolvimento, bem como o problema do financiamento para a preservação ambiental. À Eco 92 seguiu-se a ECO+10 e a ECO+20 e, mais recentemente, a Conferência do Clima (COP21), realizada na capital francesa em 2015, com grande adesão da comunidade internacional.

É difícil imaginar tema mais global que o do meio ambiente pois, inexoravelmente somos todos impactados pelos resultados das ações dos mais diferentes atores, públicos ou privados, locais ou globais, conscientes ou não disso. Para países como o Brasil, de imensa extensão territorial, grande população e, especialmente, com significativas reservas de recursos naturais e biodiversidade, não é possível furtar-se à responsabilidade diante do futuro do planeta, no que tange ao uso e gestão de recursos. Também ao Brasil é atribuída significativa parcela de responsabilidade sobre o futuro do planeta em função do fato de que seu desenvolvimento industrial se deu alicerçado em setores de produção intensivos em recursos naturais. Para as indústrias de tais setores as questões de sustentabilidade tem se colocado de modo cada vez mais incisivo.

E é preciso compreender a sustentabilidade em seus três pilares: econômico, ambiental e social, e de forma integrada. Ações motivadas pela preocupação ambiental, se bem concebidas e implementadas podem trazer significativos ganhos econômicos e sociais.

O conceito de Produção mais Limpa (P+L) já há algum tempo vem sendo integrado à gestão de muitas empresas de setores intensivos em recursos naturais, com significativos resultados, embora ainda haja muito por se fazer.

Uma ferramenta importante para o gerenciamento de ações sustentáveis são os Relatórios de Sustentabilidade já adotados por algumas grandes empresas nacionais e muitas internacionais. Além de ser uma ferramenta de comunicação com a sociedade, através da qual a empresa presta contas de suas ações e de seus impactos econômicos, ambientais e sociais, os Relatórios de Sustentabilidade podem ser utilizados na avaliação de desempenho de sustentabilidade e, por extensão, na reorientação e correção de processos e ainda, na promoção da imagem corporativa da organização.

A professora de administração e sustentabilidade, Gleriani Ferreira, doutora pela USP com tese sobre sustentabilidade avalia que: "Há diversas maneiras de implementar sustentabilidade nas empresas, mesmo quando se trate de um processo industrial com elevada externalidade negativa no que se refere ao impacto ambiental. Trata-se basicamente de direcionar esforços em 3 frentes: reduzir o que se consome, otimizar a produção e agregar valor sustentável no que se entrega".

Gleriani Ferreira complementa sua avaliação apontando que: "Em se tratando da relação cliente/fornecedor, muitos ganhos ainda podem ser alcançados com a implementação de parcerias colaborativas. Mas é preciso que os empresários e tomadores de decisão deixem de negociar apenas preço e passem a discutir também inovações estratégicas".Numa economia como a brasileira, onde as cadeias produtivas ligadas aos setores de mineração, pecuária e agricultura, intensivas em recursos naturais, tem expressiva participação na formação do PIB nacional a capacidade de inovar em processos e produtos tem de ser uma constante.

Recentemente a publicação de um relatório da OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre poluição do ar, identificando cidades no mundo onde a população é exposta a altos níveis de material particulado (MP) apontou, entre outras muitas informações, que mais de 50 milhões de brasileiros morrem anualmente em função da poluição do ar. Embora as fontes de poluição sejam diversas, como a produzida por motores movidos a combustíveis fósseis e pela queima de biomassa, também os processos industriais tem participação nesse problema. No mesmo relatório são apontadas cidades no mundo com altos níveis de material particulado no ar e, como é recorrente, cidades que abrigam importantes pólos industriais sofrem desse mal.

A organização espacial através de agrupamento regional de empresas de atividades correlatas, comumente denominada cluster, pode ser apontada por alguns como fator problemático por concentrar empresas de um mesmo setor, quando de maior impacto ambiental, em uma mesma região. Entretanto, também as sinergias empresariais pautadas pela cooperação, em clusters, tem alcançado resultados importantes no enfrentamento de problemas como os de impacto ambiental. Nessa configuração, um importante setor produtivo é o cerâmico que, no mundo todo, lida com o desafio da produção ambientalmente responsável. O setor cerâmico brasileiro, que gera mais de 20 mil empregos diretos e 200 mil indiretos, tem a maior parte de sua produção nacional realizada em dois clusters, o de Criciúma (SC) e o de Santa Gertrudes (SP) que, junto de Sassuolo (Itália) e Castellón (Espanha) ocupam as posições de maiores clusters mundiais de cerâmica.

Nos clusters brasileiros mencionados, são numerosas as parcerias de empresas, órgãos governamentais e universidades em projetos de sustentabilidade ambiental e social. A Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental) cumpre além de sua função de monitoramento um importante papel de incentivo de práticas sustentáveis.

A preocupação com a economia de matérias-primas, água e energia, a eliminação de materiais perigosos, a redução de quantidades e toxicidade de emissões líquidas, gasosas e de resíduos são algumas das metas reiteradamente incorporadas aos processos produtivos de empresas do setor cerâmico brasileiro abrangendo os diferentes elos de sua cadeia produtiva.

Entretanto, como alerta a professora Gleriani Ferreira em seu canal do Youtube sobre sustentabilidade, é preciso que se evite a prática do greenwashing, da "maquiagem verde" "quando empresas querem mostrar uma imagem verde, sustentável, quando na verdade o que ela está realizando tem baixo impacto, ou seja, o investimento para mitigar danos causados é muito inferior ao correspondente dano." Isso ocorre muitas das vezes não intencionalmente mas por falta de orientação profissional capacitada para potencializar os efeitos do investimento em sustentabilidade.

Essa é mais uma fronteira que empresas brasileiras de diferentes setores estão desafiadas a transpor, para se integrarem altivamente no competitivo mercado mundial.

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