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04/05/2018 - 08:30

A cadeia produtiva da cerâmica no Brasil diante de grandes desafios

O nível de desenvolvimento do setor cerâmico no Brasil alcançado nas duas últimas décadas, tanto no que tange ao volume da produção quanto a qualidade dos produtos, com destaque ao segmento de pisos e revestimentos, o mais dinâmico do setor, ao mesmo tempo em que coloca o Brasil entre os mais importantes players no mercado mundial de cerâmica, impõe desafios para o setor, cujo necessário enfrentamento requererá determinação de todos seus stakeholders para uma melhora do ecossistema de produção e distribuição de cerâmica do país e, assim, consolidação de seu lugar entre os melhores.

Elevada dependência do mercado doméstico —Se o vigoroso crescimento do setor desde os anos 1990 que, mais que dobrou sua produção anual de então, registrando expressivas taxas anuais de crescimento como as do último triênio antes da crise econômica mundial iniciada em 2008, quando a produção brasileira de revestimentos cerâmicos passou de 594 milhões de m² em 2006, para 637 em 2007 e 713 em 2008 (Anfacer), acumulando 20% de crescimento em apenas 3 anos, a recessão econômica vivida entre os anos de 2014 à 2017, em que o setor da construção de modo geral foi o que mais sofreu, repõe o alerta para o setor cerâmico, assim como para outros cuja produção é destinada majoritariamente para o mercado doméstico, dos elevados riscos de uma tal orientação.

Um setor com tão significativos resultados no que diz respeito a sua capacidade produtiva, incluindo aí a plena incorporação de maquinários e novas tecnologias para a produção, especialização da mão-de-obra, organização de sua cadeia de suprimentos, participação em feiras nacionais e internacionais do setor, como disso é exemplo a última edição da Expo Revestir, importante feira do setor cerâmico realizada em março, em São Paulo, dá mostras de que reúne elementos para enfrentar de forma altiva e inteligente a competição internacional. (Sobre a última edição da Expo Revestir, oportuno foi observar a presença dos fabricantes estrangeiros, com destaque para os italianos, e sua percepção do mercado brasileiro de pisos e revestimentos, Eles tem experiência nisso, mas a complexidade do mercado brasileiro ainda lhes escapa.)

A tentação da comoditização — Um dos grandes desafios é escapar da tentação da comoditização, risco que o aumento da presença chinesa no mercado internacional de revestimentos pode provocar, ao desencadear em seus competidores uma percepção (equivocada) de que o único caminho é o da redução de preços, através da busca insistente do barateamento dos fatores de produção e direcionamento das estratégias de conquista dos clientes apenas pela oferta do menor preço.

Uma análise da cadeia produtiva — Uma estratégia mais elaborada pode vir da adoção de uma análise orientada pelo conceito de cadeia produtiva sobre o setor da cerâmica no Brasil. Essa análise pode trazer importantes resultados ao identificar e propor ações corretivas aos principais problemas recorrentes em cada elo da cadeia produtiva. Esses problemas recorrentes certamente impõe perdas de produtividade, qualidade e competitividade do setor.

Só para ilustrar o que o parágrafo acima sugere, é comum na avaliação de importantes profissionais do setor a menção a problemas de falta de padrão na qualidade do fornecimento de argila - matéria prima crucial para o setor -e de seu processamento, com sérios reflexos sobre a qualidade dos produtos finais. Se a falta de padrão no fornecimento e processamento da matéria prima evidencia problemas de processos no primeiro elo da cadeia, não são poucos os problemas apontados pelos mesmos profissionais quanto aos elos finais da cadeia, dependentes de estratégias para a distribuição dos produtos em território nacional e, especialmente, de prospecção de mercados internacionais, cuja falta de inteligência de negócios internacionais pode causar o desperdício de verdadeiras oportunidades para a conquista de competitividade sistêmica global.

Cadeias de produção integradas — Cada vez mais um número crescente de produtos tem suas cadeias de produção integradas internacionalmente. Essa integração tem visado cada vez mais o aproveitamento de vantagens competitivas de outros países além da expansão de mercados. São mais fluentes os casos em que a integração de setores produtivos se beneficia de ambiente macroeconômico e político também integrado, como são os blocos econômicos e áreas de livre comércio.

Se observarmos com atenção o que ocorre no interior do bloco europeu, arranjo regional que desde sua origem visava a harmonização das "regras do jogo" para ganhos recíprocos entre seus Estados-membros, mesmo diante dos atuais problemas econômicos e políticos vividos no bloco, vê-se empresas de diferentes setores desfrutarem dos benefícios da integração de suas cadeias produtivas em escala regional para o enfrentamento da competição em escala global. Os setores farmacêutico e de alimentos são exemplares dessa integração de cadeias produtivas, bem como o caso do setor cerâmico italiano. A vantagem competitiva dos italianos no setor cerâmico, que lhes dá o lugar de vanguarda mundial, não se explica apenas pelo seu talento nato para o design, mas sim por um ecossistema que interliga eficientemente todos os elos da cadeia produtiva da cerâmica e suas indústrias correlatas, como a de máquinas e equipamentos em âmbito nacional e regional.

No caso do Brasil, já demos passos importantes nessa direção de integração do ecossistema de produção da cerâmica, mas há muito ainda para ser feito. Em termos de integração regional, o Mercosul patina em armadilhas burocráticas e políticas sem realizar seu efetivo potencial. Os próximos passos para uma integração das cadeias produtivas, dependerão antes de mais nada do desenvolvimento de uma cultura política e de negócios informada por uma visão internacional da economia e, especialmente dos setores específicos, no caso aqui tratado, o da cerâmica.

Exportações e acordos comerciais — É sabido que parte significativa da explicação para nossa baixa participação em cadeias globais pode ser encontrada em políticas comerciais protecionistas operantes em potenciais mercados de destino de produtos cerâmicos brasileiros, persistentes pela falta de acordos comerciais vantajosos para o Brasil que nos permita ampliar a parcela da produção nacional destinada para o mercado estrangeiro. Entre os grandes produtores mundiais de cerâmica, o Brasil que ocupa a segunda posição é o que tem a mais baixa participação de exportações sobre a produção.

Mas não se pode esquecer que o princípio que orienta as relações internacionais, particularmente do comércio internacional, é o da reciprocidade, portanto, negociações conduzidas pelo governo para uma maior abertura de mercados ao produto industrial brasileiro exigirá como contrapartida uma maior abertura do mercado brasileiro, elevando o padrão da competição.

Em estudo do Banco Mundial e do Ministério de Minas e Energias do Brasil, realizado em 2009, sobre a Cadeia da Cerâmica de Revestimento, no que tange as exportações do setor, fez projeções de que até 2030 o país poderá, de acordo com suas condições objetivas de produção e perspectivas do setor em âmbito mundial, elevar para 25% a 40% a participação das exportações sobre a produção do setor.

O setor cerâmico brasileiro vem dando mostras de que reuniu competências para dar os próximos e decisivos passos para sua plena consolidação e integração no competitivo mercado internacional e assim rejeitar caminhos, como o da comoditização, que lhe toldem o futuro.

. Por: Arnaldo Francisco Cardoso, pesquisador e professor de comércio e negócios internacionais da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atualmente desenvolve pesquisa sobre a Cadeia Produtiva da Cerâmica no Brasil. E-mail: [email protected]

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