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22/03/2017 - 07:29

Dr. Martin Portner — Líderes do colosso: como a crise brasileira vai selecionar uma nova geração de líderes organizacionais


Dr. Martin Portner, é Médico Neurologista, Mestre em Neurociência pela Universidade de Oxford e especialista em Mindfulness. | Site: www.martinportner.com.br

A crise bienal 2015-16 vai exigir dos líderes brasileiros uma solução darwiniana. As soluções criadas no período “jeito brasileiro” serão inúteis. Problemas costumam ser de dois tipos — os catalogados (ou técnicos, como propôs o pensador de Harvard, Ronald Heifetz) e os situacionais (ou adaptativos). No primeiro caso, um novo problema é semelhante a algum outro, do passado, e uma solução pode ser encontrada na Wikipédia nacional; no tipo situacional, tanto o problema como a solução são desconhecidos e precisarão ser enfrentados pela vez primeira.

Como se encontra uma solução? Seja qual for o problema, uma solução necessariamente emerge do produto formado pelas conexões das células do cérebro, único órgão humano capaz de encontrar saídas para inconformidades internas, provenientes do organismo, ou externas, do meio em que vivemos.

Expertise cerebral adquirida em milhões de anos de luta contra predadores que buscaram limitar nossa sobrevivência nos ensinou como sobrepujar impasses que vão desde a extinção de células cancerosas, a crise existencial de quem perde o norte durante a vida e as agruras impostas pela falta de meios de subsistência. Parece ter chegado a vez de pegarmos pelos chifres a crise imposta pelos erros dos que conduzem as políticas macroeconômicas.

Dado os dois modelos, o cérebro prefere problemas catalogados. Essa preferência decorre de um modelo operacional singular — uma vez aprendido, um problema que se repete encontrará saída nas áreas que oferecem soluções automatizadas. É prerrogativa cerebral que o enfrentamento de problemas e suas soluções sejam apreendidos e arquivados para uso futuro. Como o conjunto das operações do cérebro é dividido em compartimentos, que abrigam funções distintas como a visão, audição, sensações e execuções motoras, para citar algumas, o compartimento subcortical se tornou a sede para conduzir os automatismos.

A análise de problemas recorrentes e a escolha do melhor conjunto de ideias ou ações para resolvê-los são feitos sem alarde à consciência humana — esta deve permanecer disponível para lidar com coisas mais importantes. Essa forma de agir economiza tempo e recursos; o cérebro nunca sabe quando terá que se deparar com a escassez de ambos.

Quando um novo problema surge — como na nossa crise situacional — um comportamento adaptativo será exigido das conexões do cérebro. Mas ele constata não possuir nada semelhantes em suas engrenagens subcorticais automatizadas; nenhuma informação relevante na memória de longo prazo; nem circuitos semelhantes que possam emprestar sabedoria à situação atual.

No filme Apollo 13, dirigido por Ron Howard, o comandante da espaçonave Jim Lovell dirige-se à central de comunicações na Terra dizendo “Houston, temos um problema”. Em um problema situacional, uma comunicação desse tipo é estabelecida com a consciência, como se fosse uma capitulação do vasto manto de processos automáticos subcorticais do cérebro e um recado simples — “vire-se”.

O compartimento cerebral de onde opera a consciência é denominado de córtex prefrontal (CPF), sede da articulação de propriedades como o bom senso, o juízo crítico e os processos de decisão. O CPF, contudo, defronta-se com um obstáculo. Ele não possui à mão o enorme contingente de conexões subcorticais dos modos automatizados; além disso, seu processamento é lento, com elevada taxa de consumo de energia e nutrientes. Como se não fosse suficiente para diminuir o seu precário desempenho ante o gigantesco subcortical, o CPF funciona de forma assimétrica. O CPF direito é crítico e tem viés ranzinza; alia-se à incapacidade do subcortical e declara que o problema é complexo e, além disso, tem uma rede interminável de subproblemas para serem resolvidos. Já o CPF esquerdo age de forma otimista — assume que nem tudo está perdido e sugere dividir o problema em blocos; cada um deve ser examinado em separado para depois se apresentar uma solução-conjunto-da-obra.

Mas a biologia decidiu não ser condescendente. Durante o período evolucionário, os genes que estimulam o CPFD receberam maior receptividade por parte de um meio ambiente claramente hostil. Não era hora de deixar a sobrevivência humana nas mãos de circuitos otimistas, que poderiam ser benevolentes demais com nossos predadores sociais. O CPFE, como resultado, tem as dimensões de um fusca obsoleto frente a um SUV com rodas aro 19.

Estudos realizados há pouco tempo revelaram que há uma forma de elevar o calibre, a extensão e a velocidade de processamento do CPFE em apenas oito semanas. Essa técnica atende pelo nome de meditação mindfulness. Após extensos testes realizados em voluntários de uma empresa de biotecnologia, os neurocientistas Davidson, Kabat-Zinn e Schuhmacher publicaram resultados que mostram que o impacto do mindfulness sobre o CPF é impressionante; além disso, o efeito sobre o CPFE é superior ao do CPFD.

A técnica mindfulness, proveniente da cultura oriental e aplicada à medicina ocidental nos anos 80, expandiu-se velozmente. Hoje a palavra digitada em motores de busca lista centenas de milhares de informações. Mindfulness pode ser encontrado em setores como hospitais, escolas, o corporativo e no meio militar. Em nosso país, o mindfulness cresce em instituições vanguardistas e o Brasil será sede do IV International Meeting on Mindfulness.

Líderes treinados em mindfulness são conduzidos a um processamento mental ultradiferenciado que os permite investigar experiências desagradáveis com interesse e curiosidade, em vez de simplesmente reagir com a aversão automática do subcortical. Além disso, autores experientes já demonstram haver uma relação eficaz entre a ação do CPFE e o surgimento de soluções criativas.

Nesse momento da cultura organizacional brasileira, muitos líderes percebem a necessidade de uma mudança cujo escopo inexiste nos manuais brasilianistas utilizados até então. Trata-se do problema situacional de Heifetz, que requer uma nova solução. Para sairmos do fosso, necessitaremos da ação cuidadosa, porém sem trégua nem arrefecimento do CPFE coletivo dos líderes brasileiros. Será deles a prerrogativa de conduzir este impávido colosso a um novo patamar.

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