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02/07/2010 - 08:30

Arte Contemporânea de Angola e Bahia reunidas em São Paulo

Atualizar imaginários, subverter tradições. A galeria SOSO arte contemporânea africana, em parceria com a Fundação Sindika Dokolo, abre no dia 02 de julho (sexta-feira), às 18h, duas exposições que apresentam o vigor da produção artística de Angola e a tradição africana reinventada pela arte contemporânea na Bahia. A SOSO monta a primeira mostra individual do artista angolano Yonamine no Brasil, ao mesmo tempo em que inaugura o espaço SOSO+ (lê-se SOSO Plus) com a exposição Primeira Ponte, uma coletiva de sete artistas baianos.

A visitação das duas exposições vai acontecer até o dia 31 de julho, de terça a sexta, das 11h às 19h, a aos sábados até as 16h.

“Me sinto honrado. Para mim, é um ato extremamente importante proporcionar em São Paulo este encontro, entre artistas africanos e baianos. Esta cidade, que é uma das maiores e mais importantes do mundo, que possui uma intensa vida econômica e artística, esteve sempre mais voltada à Europa que à África, ou à própria America Latina. Acho que esta é uma grande oportunidade para os paulistas conhecerem mais desta produção”, afirma Mario de Almeida, proprietário da galeria SOSO arte contemporânea africana. “Além disso, a relação com a Bahia, com a arte produzida neste estado, que possui uma influência tão clara da cultura africana, dá até mais sentido à própria existência da SOSO no Brasil”, finaliza.

Yonamine é um dos três representantes de Angola na 29ª Bienal de São Paulo (que ocorre em setembro deste ano). Um artista que recicla memórias e objetos, montando com suas obras uma crítica sutil e bem humorada do seu tempo. Ele tem se destacado no circuito internacional de arte contemporânea, participando de importantes mostras como a Bienal de Veneza, em 2007, a Sharjah Biennial (Emirados Árabes) e a Bienal de Havana, as duas últimas, em 2009.

Já a Primeira Ponte é parte de um projeto maior, o 3PONTES, que integra a II Trienal de Luanda e se desenha a partir de três momentos diversos da interação entre a África e a Bahia. A Primeira Ponte remete ao início desta relação - compreendido entre os séculos 16 e 19, período da escravidão, apresentando o trabalho de artistas que utilizam linguagens contemporâneas para expressar a forte influência da cultura africana. Estão em exposição, obras de nomes consagrados, como Mario Cravo Neto, e outros que mais recentemente têm se destacado no circuito local e em eventos internacionais de artes visuais, como o próprio filho de Mario, Christian Cravo, além de Ayrson Heraclito, Eneida Sanches, Gaio Matos, Flavio Lopes e Marcondes Dourado.

“A Primeira Ponte apresenta artistas que, através de suportes diversos, novas leituras e abordagens, resignificam o rico legado da cultura africana”, disse Daniel Rangel, curador do projeto 3PONTES. “São artistas que retratam os personagens, a religiosidade e os conflitos estabelecidos pela relação entre a Bahia e a África a partir de um olhar contemporâneo, com referências globais que surgem do diálogo com o mundo e, principalmente, com a própria África”, afirma Daniel, que é diretor de Museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia, uma unidade da Secretaria de Cultura do Estado. A DIMUS é apoiadora deste projeto, assim como o Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), que emprestou obras do seu acervo para a exposição.

Além de marcar a abertura da SOSO+, um novo espaço para a arte contemporânea na cidade de São Paulo – localizada no antigo Hotel Central, em frente à própria galeria SOSO - a realização destas duas mostras assinala o começo de um ciclo de exposições que vão transformar São Paulo no ponto de encontro e local de diálogo entre o que há de melhor na produção atual de artes visuais de Angola e na Bahia. Ao todo, serão montadas três exposições individuais dos artistas angolanos que participam da Bienal de São Paulo (além de Yonamine, veremos ainda os trabalhos de Kiluanji Kia Henda e Nástio Mosquito), sempre ao lado das mostras coletivas dos baianos do projeto 3PONTES.

Juntos, esses artistas apresentam um pouco da sua história, dos personagens e do coditiano de suas cidades. Eles exploram a africanidade através de um trabalho intimista e rigoroso, apontando para novos caminhos na arte visual contemporânea. Como disse a crítica portuguesa, Carla de Utra Mendes, que assina o texto de Yonamine: “Num mundo globalizado em que as referências circulam num fluxo interminável, artistas como este informam-nos de abordagens outras que nos permitem repensar o lugar do Outro cultural e da sociedade ocidental que a pouco e pouco cai em desuso. Os mestiços, os crioulos, aqueles que possuem uma dupla, tripla ou múltipla referência identitária, os semionautas ou radicantes como lhes chama N. Borriaud, são, atualmente, o novo vigor que a arte precisa para se manter viva e sair da apatia em que acabou por se enterrar”.

Perfil- Yonamine Miguel nasceu em Luanda, Angola, em 1975, atualmente vive e trabalha em Lisboa, Portugal. O artista possui um diversificado modus operandi técnico que pode variar da serigrafia a colagem, da pintura ao grafite, ou do vídeo à instalação. Mas seu trabalho surge não só nos métodos plásticos utilizados, mas nos conteúdos propostos. Sua formação desenvolveu-se entre Angola, o Congo, o Brasil e a Grã-Bretanha. A guerra foi uma das razões para tantos paradeiros e hoje em tempos de paz suas obras procuram construir uma rede de referências e memórias através da recorrência a assuntos como a emigração clandestina, o colonialismo e os símbolos culturais de Angola. Traduz com vitalidade uma crítica viva e humorística dos fatos históricos e sociais do nosso tempo, procurando despertar o observador de um adormecimento perante os acontecimentos. Yonamine integra um movimento recente, de recuperação iconográfica de seu país, de levantamento do estado das coisas em Angola, como tem sido a Trienal de Luanda (comissariada por Fernando Alvim, da Fundação Sindika Dokolo).

Para a exposição na SOSO, o destaque fica por conta de dois painéis formados por 30 quadros cada um. No painel Caraócoroa Yonamine se ultiliza da técnica da serigrafia sobre papel com predomínio do preto e branco. Em Miami Be mistura a serigrafia com diversas técnicas, usando colagens e as próprias rasuras que surgem e tornam-se elementos gráficos, adicionando materiais como tinta acrílica, crayons coloridos e carimbos. Os quadros formam uma sequência de imagens originadas todas sobre uma mesma base; seja essa base a figura de um rosto ou número zero. O artista transforma através de ações gráficas e materiais a superfície do papel, mas sem perder a referência gravada inicialmente em cada um dos componentes que formam os painéis. Completando o conjunto de obras da mostra: quatro serigrafias pintadas sobre folhas de jornal e três pinturas em técnica mista sobre tela em grandes formatos, estas últimas, realizadas em 2009, durante a residência artística de Yonamine na SOSO/Hotel Central. Recentemente, expôs ao lado de diversos artistas angolanos de sua geração na mostra Luanda, Suave e Frenética 2, no MAM-Bahia, e Luanda, Suave e Frenética 1, na Galeria Solar Ferrão, mo Pelourinho, também em Salvador.

Primeira Ponte - O projeto 3Pontes se estrutura a partir de três diferentes momentos, associados a períodos históricos que marcaram a relação entre Bahia e África. A Primeira Ponte corresponde à era da escravidão e do tráfico negreiro, quando a cultura africana se insemina no Brasil; a Segunda Ponte marca a retomada das relações entre África e Bahia no fim dos anos 1940 e 1950, que coincide com um momento de abertura e intensa efervescência cultural em Salvador, interrompido bruscamente pelo golpe militar de 1964; e, por fim, a Terceira Ponte, que trata das aproximações em curso na contemporaneidade, influenciadas pela globalização, pelo compartilhamento de novas linguagens expressivas, e por um novo patamar de trânsito, comunicação e trocas. Em torno de cada uma delas, o projeto reúne exposições, projetos de intervenção, publicações, filmes, residências, e ações educativas. Somados, estas atividades oferecem em uma leitura possível da complexa rede de interações que fundaram a cultura compartilhada entre Bahia e África.

A Primeira Ponte apresenta obras de sete artistas baianos que, com suas obras questionam e subvertem estereótipos moldados num contexto de cerca de 40 anos de fechamento político, de coronelismo Carlista que criou, exportou e praticamente congelou a imagem de uma Bahia folclórica, de uma terra onde a alegria era quase uma ditadura, para turista ver. Hoje, este estado vive um novo momento, tanto político, quanto artístico e cultural. Um momento de abertura, de novas conexões.

Os trabalhos de Mario Cravo Neto (1947-2009), Ayrson Heráclito, Christian Cravo, Eneida Sanches, Flavio Lopes, Gaio Matos e Marcondes Dourado representam esta outra Bahia, com os personagens, a religiosidade e os conflitos estabelecidos pela relação entre a Bahia e a África a partir de um olhar contemporâneo. São fotografias, pinturas, vídeos e instalações que propõe uma releitura dos elementos que compõem o imaginário do baiano. Mostrando que a Bahia é muito mais do que o Mercado Modelo, as baianas, o carnaval e a capoeira, ou as imagens construídas e consolidadas por artistas como Pierre Verger, Carybé e Jorge Amado. Nas obras dos artistas da Primeira ponte, os elementos da tradição africana ainda existem, mas encontram-se misturadas a referências globais. “A Bahia e Angola já dialogam e se relacionam com o mundo. Agora, nossa intenção é fazer o mundo se relacionar com a arte contemporânea produzida na Angola e na Bahia”, finaliza Daniel Rangel.

A abertura da mostra Primeira Ponte em São Paulo, no dia 02 de julho, tem um significado especial para os baianos. A data marca a Independência da Bahia (1823), de onde os portugueses foram expulsos quase um ano depois da vitória dos brasileiros no resto do país. Para Daniel Rangel, curador do projeto 3PONTES, abrir uma exposição coletiva de baianos em São Paulo, neste dia, é um ato simbólico. Significa a entrada dos baianos no fechado circuito da arte contemporânea do sudeste do país, num movimento que os angolanos estão fazendo também no mercado internacional.

Por isto, este diálogo entre a Bahia e Luanda está acontecendo em São Paulo, cidade obrigatória no percurso geográfico entre elas (os vôos que saem de Salvador para a África passam necessariamente por São Paulo). Com a parceria e aproximação entre estes artistas, a SOSO e a Fundação Sindika Dokolo buscam dar visibilidade a esta produção, excluída dos circuitos tradicionais de arte contemporânea por uma falta de inserção que não é justificada pela qualidade, mas pela carência de espaço, de investimentos, de políticas e ações.

. [Yonamine | galeria SOSO arte contemporânea africana | Primeira Ponte | galeria SOSO+ abertura dia 02 de julho [sexta] |18h às 22h].

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